Chegou o dia. Desde 2 de outubro de 2009, quando o Rio de Janeiro foi escolhido pelo Comitê Olímpico Internacional para receber a Olimpíada de 2016, a XXXI da Era Moderna, este dia, fosse qual fosse, deveria servir de marco. Um marco para o esporte, um marco para a sociedade, um marco para a cidade, um marco para o país.
Desde o ressurgimento dos Jogos, em 1896, em Atenas, esperava-se a realização da maior competição esportiva do planeta em um país fora do eixo das grandes nações econômicas, um país novo, um novo mundo – como, aliás, diz o slogan dos Jogos do Rio de Janeiro. Infelizmente a chance foi desperdiçada.
O Comitê Olímpico Internacional, que vem tratando o Rio de Janeiro, o Brasil, como aquele filho querido que, que pena, não deu certo – mas nem por isso deixou de ser amado… -, começou, porém, a rasgar a fantasia. Ou melhor… O filho querido tem seus defeitos, seus problemas, e por mais que se tentasse defendê-lo, chega uma hora em que não dá mais.
E foi o que aconteceu ontem, no encerramento do congresso do COI (o mesmo que aprovou surfe, skate e escalada para os Jogos de Tóquio, daqui a quatro anos). O presidente da entidade falou em “não querer nunca mais enfrentar o estresse dos Jogos do Rio”.
Questionado, e como ainda não é momento de falar mal abertamente, procurou fixar suas críticas realizando uma análise econômico-social do Brasil. Parecia ter lido e estudado as declarações do ministro da Fazenda brasileiro sobre a crise que nos afeta. Só que falou muito mais do que apenas em crise econômica. Falou em problemas sociais, de meio ambiente… Só faltou dizer que tem muita gente metendo a mão – e por isso tivemos problemas.
Como já escrevi, que pena. O marco de mudança ficará apenas na questão burocrática. Daqui a alguns anos, quando algum país africano sediar a Olimpíada (será?), alguém vai lembrar que há sei lá quantos anos o hemisfério Sul, porção pobre (a Austrália, que já foi sede com Melbourne e Sidney não entra nesta conta), organizou uma Olimpíada e não foram cumpridas as promessas feitas.
Dito isto, talvez citem alguns recordes quebrados, alguma estrela que surgiu e ponto final. Para o país que organizou, para a cidade que recebeu, apenas as contas – como ficaram em Atenas, há 12 anos.
De qualquer forma, veremos, logo mais, o que nos espera na cerimônia de abertura. Uma cerimônia de abertura que vai ter samba, bossa nova, funk (precisava?). Que vai ter uma modelo loira, de nome estrangeiro, que não vive no Brasil – mas tem sua imagem reconhecida no exterior. Uma cerimônia de abertura que vai ter carnaval, bateria, imagens tridimensionais e um 14 Bis voando no Maracanã. E, talvez, tenha Pelé acendendo a pira.
Será? Sinceramente, não fará diferença. Ah… Vai ter Estados Unidos entrando no estádio como Estados Unidos, e não como United States, como desejava a emissora americana que detém os direitos – tudo para garantir mais pontos de audiência, prendendo o telespectador até o final da transmissão (normalmente longa e enfadonha). Tudo isso hoje.
Ontem, para nós, brasileiros, a decepção começou forte no futebol. Se na véspera as meninas passaram bem pela China, os homens, nesta quinta-feira, fizeram vergonha. E não vale dizer que não foi vergonha, não. Foi vexame. Mais de meia hora com um jogador a mais e nada. Nem uma jogada que prestasse. Neymar foi inútil, como inúteis também foram todos os demais que estavam mais preocupados em olhar-se no telão do Mané Garrincha do que em jogar. E, no banco, um treinador sem ação, talvez temeroso em tirar de campo a estrela maior da companhia que não jogou nada – falo de Neymar, claro.
Dá para classificar? Sem dúvida. Dá até para ganhar a medalha de ouro tão sonhada, mas é bom os jogadores começarem a jogar bola, porque o que foi apresentado contra a África do Sul beirou o ridículo. E o empate pode ter uma parte creditada ao árbitro, que exagerou na mão ao expulsar o jogador sul-africano. Se com um a mais foi o que se viu, dá para imaginar como seria o sufoco de 11 contra 11? Pensando bem, o jogo de futebol de ontem talvez tenha sido um sinal dos tais marcos que citei acima e perdemos.