Apesar de o emocional dizer não, o racional exige o sim e, a partir de hoje, a coluna sempre terá como título a palavra olímpica, seguida por um número. Como começamos nesta quinta-feira, eis aí o número 1. Não que deixarei de falar no Brasileiro ou em outros temas, apenas, como disse, o racional me leva a tratar de forma mais próxima a realização do maior evento esportivo do planeta em nosso país – e, para ser bem preciso, na minha cidade (todos sabem que escrevo do Rio de Janeiro, sede dos Jogos Olímpicos).
O emocional me empurrava a deixar os Jogos em uma dimensão menor. Com quase 30 anos de profissão e a experiência de ter participado de todos os grandes eventos esportivos até hoje (no Brasil e, principalmente, fora dele), estou fora da Olimpíada. Razões? Não sei. Não fui credenciado e vou acompanhar a Olimpíada como a maioria dos leitores: pela televisão, pela internet e nas arenas, ginásios e estádios, com ingressos comprados. Admito que tem sido duro ver algumas citações, algumas opiniões, de gente que nunca soube o que era uma competição esportiva e agora, por motivos que não me cabem discutir ou continuar a remoer, participarão da festa. C’est la vie, diriam os franceses.
E por que decidi iniciar hoje a “série olímpica”, pelo menos dando nome à coluna desta forma? Porque desembarcou ontem pela manhã, no aeroporto internacional Tom Jobim, no Rio de Janeiro, o presidente do Comitê Olímpico Internacional, Thomaz Bach. Liso como político acusado de corrupção, desviou-se, o quanto pode, das perguntas sobre os problemas da Vila Olímpica. Fez questão de ressaltar, como sempre, a confiança no Brasil e, principalmente, nos brasileiros. Destacou a simpatia dos voluntários, a capacidade de receber, as belas arenas, mas da Vila… Melhor assim.
Vai ser, realmente, uma Olimpíada diferente. A cerimônia de abertura não vai ser no Estádio Olímpico, o Engenhão. A festa será no Maracanã. Até aí… A pira olímpica, que ficará acesa todos os dias durante os Jogos, não ficará nem no Estádio Olímpico, nem no Maracanã – como novidade, será colocada na zona portuária da Cidade Maravilhosa (e, sobre isso, há controvérsias de como será feito o transporte da chama do Maracanã para lá). Vai ficar bonito, sem dúvida, mas muita gente vai estranhar.
Sei de atletas e jornalistas, cujos esportes serão disputados em Deodoro, que manifestaram tristeza. Pela distância e pela quantidade de coisas a fazer, estes “exilados” já perceberam que não conheceram nem as outras “sedes”, nem a cidade. Já houve reclamações neste sentido quando da realização dos Jogos Mundiais Militares, em 2011. É mais ou menos natural que este tipo de problema aconteça. Espera-se, ao menos, que o transporte funcione a contento para que o pessoal possa, numa fugidinha, conhecer alguma coisa.
Por determinação do Comitê Olímpico Internacional, Tóquio, sede dos Jogos de 2020, não está podendo fazer muito alarde. O mesmo aconteceu, por exemplo, com a Rússia na Copa do Mundo de 2014. Mas, como na Olimpíada, é tradição os países criarem “casas” para exibirem sua cultura e festejar as conquistas, a Casa Japão está bombando de informações. Ontem mesmo recebi o aviso que no dia 4 de agosto, à tarde, representantes do Comitê Organizador dos Jogos de 2020, do Comitê Olímpico Japonês e da prefeitura de Tóquio irão receber jornalistas para falar do que estão preparando. No mesmo local, no dia 8, pela manhã, a Associação de Imprensa Esportiva Internacional (AIPS, pela sigla do nome em francês) homenageará jornalistas esportivos que tenham participado (ou estejam completando no Rio de Janeiro) da cobertura de dez Olimpíadas. Do Brasil temos um, o mestre Álvaro José. Será um orgulho estar ao seu lado neste momento de reconhecimento à dedicação ao esporte.
No mais, registrar que as delegações estão chegando. Algumas com desfalques sérios e que certamente diminuirão o tamanho dos Jogos. Roger Federer, por exemplo, que viria tentar seu primeiro ouro olímpico (curiosa a situação: considerado por muitos o maior tenista de todos os tempos ele jamais conseguiu o lugar mais alto do pódio numa Olimpíada), está contundido e não vem. Ausência mais nobre do que a de vários atletas russos que estão punidos por doping – e estão vetados. A Vila Olímpica começa a funcionar; há críticas com relação ao preço da comida (na Vila de Imprensa, a R$ 98 o quilo) e de petiscos (ninguém é de ferro…); o trânsito está cada vez mais insuportável; mas é muito legal ver a cidade cheia de gente que curte esporte e atravessa o mundo para poder acompanhar um momento de celebração da integração entre os povos. Que seja assim até o fim.