Em tempos de crise, fica mais difícil fazer grandes compras mensais para abastecer as despensas de casa. Hoje, os mercados estão cheios todos os dias do mês, muito por causa de ofertas especiais para cada dia da semana, como terça da carne, quarta verde, sexta do peixe e por aí vai. A inflação no Distrito Federal no acumulado dos últimos 12 meses, de 7,42%, é a maior desde 2012, quando o índice chegou a 2,27%. Mesmo menor que a média nacional, o brasiliense já busca alternativas para economizar em alimentos e mercados registram aumento de até 45% nas vendas de ofertas em comparação ao ano anterior.
No acumulado dos últimos dez anos, comprar alimentos para comer em casa ficou 86,59% mais caro. O grupo alimentos e bebidas do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou o ano de 2014 com uma inflação de 8,03%, especialmente pela alta da carne, que marcou uma variação de 22,21%. Agora, os preços começam a baixar, mas não o suficiente para que as compras sejam feitas de olhos fechados.
Para consumidores, esperar pelo dia da promoção é a melhor alternativa, mas especialista alerta para possíveis preços mascarados.
Terça da carne
Às terças-feiras, a fila do setor de carnes de um supermercado na 306/307 Sul é longa. Mais de 15 pessoas aguardam para pedir ao balconista sua porção de proteína. O atrativo são preços reduzidos em virtude das ofertas especiais para aquele dia, o que ocorre em outras unidades em todo o Distrito Federal e na Região Metropolitana.
A aposentada Najete Chater, de 71 anos, saiu da loja com mais de 32 kg de carnes. Com 12 pessoas na família, ela diz que costuma comprar o alimento apenas uma vez a cada dois meses – sempre no dia da promoção. “Vale muito a pena esperar pelas ofertas, economizo bastante. Mas é preciso ter planejamento”, afirma.
Economia comprovada
Para a lojista Keila Regina, 37, é uma boa opção para economizar. “Tento só comprar nesses dias de promoção, senão, no fim do mês, o dinheiro não rende. Já fiz comparação de preços e no dia da oferta é mais barato mesmo. Eu aproveito e parece que todo mundo também, porque sempre tem muita fila”, conta.
Já o militar Carlos Alberto, de 48 anos, reclama que, apesar das ofertas, os preços continuam muito elevados: “Por enquanto, nem essa promoção está valendo”.
Famílias e empresários se adaptam
A pensionista Nadja Oliveira, 60 anos, encontrou o quilo do maracujá por R$ 2,99. Uma semana antes, no mesmo lugar, a fruta estava a R$ 6,99. “Vale a pena esperar pelo dia da promoção. Estou levando vários para aproveitar. Vou fazer mousse, suco, tudo”, revela.
Ela se assustou com o valor elevado dos alimentos nos supermercados no início do ano. “Tivemos que adaptar em casa. Se antes consumíamos dois bifes, a saída foi diminuir. Tem que se organizar, não tem jeito”, diz, ressaltando que, para não entrar no vermelho, “uma das alternativas é esperar pelas ofertas diárias”, revela.
José Calazans, 62 anos, lembra de outra opção. Com preços mais baixos em dias de oferta, é possível levar o encarte da loja a supermercados que prometem cobrir o preço. “Aí a economia é ainda maior”, observa. Por isso, afirma que a quarta-feira é o melhor dia para comprar frutas e verduras. “Você pode ir no outro dia que os preços estão maiores. É melhor esperar”, diz.
Investimento
As promoções são aproveitadas não apenas para o consumo familiar. Os empresários Kilber Queiroz e Samara Kaliany, 34 e 37 anos, têm um restaurante e dizem que as ofertas devem ser usufruídas. Do supermercado, saíram com duas caixas com carnes em uma terça-feira.
“É uma forma de não repassarmos os aumentos para o cliente. Aproveitamos as promoções para estocar pela semana inteira. Quando é possível esperar, vale a pena. Pago R$ 17 no quilo de uma carne que, no outro dia, está R$ 21”, explica Kilber, que estima o uso médio de 10 kg de carne por dia.
Marcelo Marinho, superintendente da Associação dos Supermercados de Brasília, diz que as vendas reduziram no início do ano, mas a situação já voltou a níveis normais. “Alimentos são itens de primeira necessidade. Ninguém vive sem. O que muda é o perfil de compra”, entende ele.
“Hoje, o cliente não faz mais aquelas compras grandes com três carrinhos. Ele faz um período cíclico, subdivide a oferta e fica mais fácil para ele”, avalia Marinho. Isso pode ocorrer porque a loja se prepara para receber o cliente. “O supermercado faz uma boa compra com o fornecedor para aquele dia específico. Negocia preço, prazo e chega com valor competitivo, o que reflete até para o empresário”, explica.
Gerentes informam aumento das vendas
Iracene Mendes, gerente do Super Maia, comenta que, nos dias das promoções dos produtos específicos, o movimento é constante. “No ano passado, conseguíamos trabalhar com cinco balconistas, mas, neste ano, não damos conta. Hoje, não dá para ter menos de sete pessoas atendendo. A reposição do estoque acontece o tempo inteiro”, revela.
Segundo ela, o aumento de vendas em relação a 2014 é considerável. Hortifrutigranjeiros, por exemplo, diz, registram crescimento de 10,78%, e o açougue tem um incremento de 45%. Só a carne bovina, acrescenta, representa uma elevação de 30% se comparado ao ano passado. Para a gerente, a expansão pode ser provocada pelos problemas econômicos enfrentados no Distrito Federal desde o fim do ano passado.
Aumento em dias de oferta
No Comper, o gerente Ronaldo Paganini não viu grandes mudanças de movimento neste ano em relação ao anterior, mas garante que as vendas dos produtos específicos aumentam nos dias de promoção.
“Cada dia tem uma oferta diferente com aumento significativo das vendas dos produtos”, afirma ele, que estima crescimento de 30% da saída dos produtos nesses dias. Para Ronaldo, “a ideia é realmente trazer o cliente direcionado a esses produtos e tê-lo mais vezes no supermercado”. A estratégia, diz, funciona.
Cuidados com os preços mascarados
É preciso tomar cuidado com as ofertas falsas. É o que recomenda Roberto Bocaccio Piscitelli, professor de finanças da Universidade de Brasília (UnB). Ele afirma ter encontrado supostas ofertas do dia com preços mais elevados que os concorrentes. “A recomendação de pesquisar é geral, para todos os casos e deve ocorrer sempre”, afirma.
“Pode ser profundamente ilusório dizer que um produto está em oferta, já que geralmente o consumidor não acompanha e não sabe, exatamente, quanto custava anteriormente”, alerta o especialista.
O que também pode ocorrer é a compensação de preços. Com o alimento em oferta mais em conta, os demais podem estar mais caros, em um processo que Piscitelli chama de mecanismo de compensação.
“Em geral, não se vai ao mercado para comprar apenas um produto. Se deslocar a cada dia para comprar algo diferente é complicado, demanda tempo e gasolina, por exemplo”, lembra o especialista. Por outro lado, Piscitelli entende que, para o comércio, “é uma questão inteligente porque o mercado acaba vendendo mais mesmo. É uma estratégia que funciona”.