Manuela Rolim
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A essência de eucalipto impregna os cômodos logo cedo. O primeiro cliente toca a campainha ainda com o céu claro, mas é no início da tarde que as casas iniciam os trabalhos. Tudo começa e acaba antes da meia-noite. Enquanto o sol brilha do lado de fora, no interior dos estabelecimentos, o caixa começa a faturar. E muito. O mercado de saunas gay é um diamante bruto no centro de Brasília. Entretanto, ainda são poucas as opções – a maioria concentrada no Plano Piloto – diante de um público fiel e crescente.
A rotatividade impressiona. O entra e sai de fregueses, todos os dias da semana, comprova o sucesso do negócio e a ausência de um público-alvo, apesar de exclusivamente masculino. De rapazes a idosos, o ambiente não rejeita ninguém. Cabeludos, carecas, formais ou despojados: todos são bem-vindos. Juízes, promotores, procuradores, políticos – alguns bem conhecidos –, policiais e até militares batem ponto com frequência. “Eles se libertam, mas não falam sobre o trabalho ou o cargo importante que ocupam. Aqui não existe carteirada”, diz o gerente de uma sauna na W3 Sul.
Ao desembolsar o valor da entrada – que não passa de R$ 35 –, o cliente tem direito a um armário para guardar as roupas, inclusive as íntimas, e ganha toalhas brancas. Chinelos, desodorantes e cotonetes podem estar inclusos no pacote. Ninguém faz ficha ou tem cadastro na casa. Pelo contrário. O anonimato total é o segredo do negócio. O lucro é consequência do consumo – às vezes exagerado – com o bar e o gasto com serviços de massagem. “O cliente é um número. Eles precisam ficar invisíveis. O que faz uma sauna é o boca a boca. Essa é a nossa melhor propaganda”, explica o gestor durante a reportagem, realizada no interior de um dos cômodos do espaço.
Depois, é hora de curtir o “spa”, como definem os proprietários, que fazem questão de desvincular qualquer relação com prostíbulos, mas não negam a existência de cabines e a presença de garotos de programa – os boys – no local. “Chamo de área de entretenimento. Ali acontece de tudo. A casa não se envolve nessa parte. Todos são e pagam como clientes. Se a pessoa vem aqui e vende o carro ou o corpo, isso é problema dela. Somos apenas um lugar de relaxamento, onde a pessoa pode se expor da maneira que não pode na rua”, conta o gerente.

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Público exigente
No geral, percebe-se um padrão. As saunas molhadas e a vapor, claro, são as protagonistas. Como não haveria de ser? Mas isso não ofusca a relevância de duchas quentes e frias, bares abastecidos e iluminação atraente. O público, quase sempre, é muito exigente.
A decoração, baseada na temática de filmes antigos, ganha quadros de homens nus e atores consagrados no cinema internacional, como Marilyn Monroe e Johnny Depp. Já as salas de televisão apostam em filmes pornôs – não necessariamente gay –, jornais e jogos de futebol. “Antes de tudo, é um espaço de relaxamento. Curiosamente, o público não gosta de programas de luta, mas adora videoclipes com cantores que remetem ao universo deles. Uma programação mais cultural é a nossa nova aposta, sem acabar com os shows de strip-tease, claro. Afinal, a casa lota para isso”, admite o administrador.
Filmes héteros servem para excitar os garotos de programa, que, na maioria das vezes, dizem gostar do sexo oposto. Logo, não é raro encontrá-los tomando medicamentos para ereção, já que alguns atendem mais de três clientes por dia. Vale ressaltar que as casas não disponibilizam esses comprimidos.
- Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília
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Média de 80 clientes por dia
“O gay não se apega a valores, ele gasta se for bem atendido. Tem cliente que deixa R$ 3 mil, R$ 4 mil sem ficar muito tempo. A sauna precisa ter higiene e garotos bonitos para cair nas graças dos frequentadores”, diz o responsável pelo estabelecimento localizado na Asa Sul. “Imagine que aqui é um clube. Se o cliente encontra um amigo, acaba ficando mais tempo”, acrescenta o gerente da sauna.
Há aproximadamente um ano, o faturamento mensal da sauna, em plena W3 Sul, ultrapassava R$ 100 mil, segundo o entrevistado. A casa de três andares e com quase 200 metros quadrados recebe, em média, 80 pessoas por dia.
Ainda assim, Brasília está engatinhando no segmento. E os motivos são diversos. Alto custo de manutenção; gastos com contas de luz, água e lavanderia; dificuldade de localização; preço de aluguel elevado; falta de promoção e também de gestão. “Só com a reposição de bebida alcóolica gasto mais de R$ 40 mil. Para piorar, existe uma rixa entre os próprios donos de saunas. Em geral, o ambiente do sexo na capital é fraco”, lamenta o gerente.
Discrição
Segundo ele, uma sauna não carece de luxo, demanda bom atendimento. “O excesso de luxo, inclusive, pode afastar os clientes”, esclarece. Não é à toa que o ambiente, quase sempre “underground”, possui entrada discreta no subsolo dos prédios comerciais da cidade. “Eles gostam desse ar misterioso. Quanto mais escondido melhor. Muitos são casados”, acrescenta.

Divulgação/Facebook
O fato de ser tudo junto e misturado é outro obstáculo. “Não temos saunas específicas para uma faixa etária, por exemplo. Muitos estrangeiros nos cobram isso. Também não temos nada para o público lésbico. Fora isso, destaco a falta de mão de obra capacitada para trabalhar na área. Repito, demanda a gente tem. É um nicho fabuloso”, ressalta.
Clientes importantes e amizades
Sofisticação é o que define outra sauna em pleno Setor Comercial Sul. O estilo “clean” das paredes brancas contrasta com o colorido de quadros que trazem monumentos famosos em todo o mundo. Imagens da Torre Eiffel (Paris), do Big Ben (Londres), da Estátua da Liberdade (Nova York) e do Cristo Redentor (Rio de Janeiro) proporcionam ao cliente uma viagem, pelo menos para longe da realidade fora daquele ambiente.
Grandes empresários e políticos encontram ali uma oportunidade para relaxar à vontade. Não por acaso, nos recessos parlamentares e feriados, o movimento cai. “É quando o pessoal viaja para as cidades de origem”, diz um dos sócios. Ainda assim, o público é variado. “O meio gay se mistura muito. Também recebemos pessoas mais simples, de classe média baixa, e muitos homens casados. Aqui, todos eles se preservam, não se expõem, sabem que é um local destinado para esse tipo de público. Como lá fora eles não podem se mostrar, aqui ficam à vontade, mas não mudam de postura ou deixam de ser quem são”, explica.

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Regras próprias
A casa, no entanto, não aceita travestis. Apesar de ter a mesma logística das outras saunas, cada estabelecimento adota suas regras. “Os clientes podem ficar pelados, alguns ficam de calção, mas não podem chegar as vias de fato no salão central. Existem as cabines de massagem. Se lá dentro rola alguma coisa, a gente não sabe, não participa, não tem notícia. São todos maiores de idade”, completa o responsável pelo local.
Cliente assíduo da casa, um professor de ciências da rede pública de ensino, de 27 anos, conta o que o motiva a frequentar o local. “Amizades. A gente não vem aqui, necessariamente, para fazer sexo. A gente gosta de ficar reservado, no nosso mundo, no nosso canto. O preconceito fora ainda existe. Por isso, é tão atraente ficar aqui dentro. A pessoa se solta, está entre amigos”, diz o professor, que não é gay assumido. “Minha profissão puxa muito, mas frequento esse universo há bastante tempo”, conclui.
Já no Setor de Diversões Sul, outra sauna se destaca no mercado. A reportagem do Jornal de Brasília procurou a casa, que fica no Conic, mas não encontrou o proprietário no local.


