Quem assiste a novela das 21h da TV Globo, Salve Jorge, pode não imaginar que o crime contado na ficção está bem próximo da realidade. Na esperança de conquistar uma oportunidade de trabalho no exterior, muitas mulheres são enganadas e tornam-se escravas sexuais. Em seis anos, entre 2005 e 2011, das 475 vítimas de tráfico humano identificadas pelo Ministério das Relações Exteriores, 337 (70,94%) sofreram exploração sexual.
Este foi o drama vivido por Viviane (nome fictício), 27 anos. Em fevereiro de 2009, a jovem de 23 anos, moradora do DF, recebeu o convite de uma organização criminosa. O grupo teve origem em Goiânia (GO), mas contava com colaboradores na capital federal.
A promessa era de um retorno financeiro surpreendente, além da oportunidade de conhecer outro país e adquirir bens. Diante de tantos sonhos, Viviane aceitou as condições, mas acabou sendo vítima do esquema criminoso.
Após dois dias de viagem, a jovem chegou ao bordel no município El Vendrell, na Espanha. Ali, dormia no mesmo quarto onde era obrigada a manter relações sexuais com os clientes. A alimentação só era servida e permitida uma vez por dia, em horário estipulado: sempre às 19h.
Programas
Eram as próprias mulheres aliciadas que tinham de se submeter às tarefas domésticas. Já os programas, de segunda a quinta-feira, ocorriam por 11 horas seguidas. De sexta-feira a domingo, a exploração se estendia até as 5h.
“Tínhamos que ficar praticamente nuas e eu me sentia acuada com isso. Os homens nos tocavam sem nenhum respeito, sem pudor e eu não queria deixar, repudiava essa situação. Lá a gente era dinheiro, um negócio. A porta do bordel era de ferro, ficava travada e só abria a partir das 11h. Parecia uma prisão”, relata.
Pagamentos
Durante 45 dias, a jovem se submeteu aos programas. Por dia, tendo ou não clientes, Viviane era obrigada desembolsar 15 euros referentes ao pagamento da estada no hotel. A jovem também tinha de pagar para o bordel os três mil euros que seriam das passagens – de ida e volta, uma vez que para burlar a fiscalização, a organização criminosa já marcava o período de viagem.
“Eu comecei a ficar enlouquecida com aquela situação. Fui com a esperança de subir na vida, de comprar um carro zero e uma casa para a minha família”, conta.
Cliente ajudou na fuga
Vítima do tráfico, Viviane conseguiu deixar o bordel com a ajuda de um árabe, um dos homens com quem a jovem manteve relação sexual. Foi em um dos contatos íntimos que ela teve a oportunidade de conversar sobre o desejo de ir embora. No entanto, para se livrar da situação, a vítima se viu obrigada a se envolver com o estrangeiro. “Falei que não tinha dinheiro para sair daquele lugar e ele me disse que podia me ajudar, mas que tinha interesse em mim. Apesar dos costumes dele, que eram super rígidos, ele nunca me deixou faltar nada. Foi um anjo que me salvou”, conta.
Depois de quase dois meses vivendo com o homem na cidade de Tarragona, também na Espanha, Viviane teve a ajuda de uma amiga do Brasil, que acionou o Ministério das Relações Exteriores. Já outro colega procurou a Polícia Federal de forma anônima. “Não tinha dinheiro nenhum e eu tinha medo de não voltar nunca mais. Foi uma experiência dolorida, mas válida para servir de exemplo. No exterior, nós não somos nada”, lamenta.
Prisões
Cinco dias após voltar ao Brasil, a mulher foi procurada pela PF, que iniciou as investigações depois dos contatos e do reconhecimento de algumas pessoas da organização criminosa. “Tive conhecimento, por colegas que fiz em El Vendrell, de que algumas pessoas foram presas por pouco tempo, mas logo depois saíram. No bordel, muitas meninas se envolvem com drogas e devem muito. Na época, eram cerca de 50 mulheres de várias partes do mundo”, explica.
Silêncio dificulta investigações
De acordo com o Ministério da Justiça, o país onde mais brasileiras são encontradas vítimas de tráfico de pessoas é o Suriname – que funciona como rota para a Holanda -, com 133 vítimas. Os demais países onde há uma incidência maior de vítimas do Brasil é a Suíça, com 127 casos, a Espanha (104) e a Holanda (71).
De acordo com o Departamento de Polícia Federal, a principal dificuldade nas investigações sobre o crime de tráfico de pessoas é obter a plena colaboração das vítimas. O órgão alega que muitas vezes a pessoa tem vergonha do que lhe ocorreu, medo de que a família passe a tratá-la com preconceito caso saiba que era explorada sexualmente, e até receio de represálias dos integrantes do grupo criminoso que a explorava.
De acordo com a Polícia Federal, especialmente diante do tráfico internacional, as informações da vítima são chave para a solução do crime, pois ela pode identificar todos os principais integrantes da organização criminosa, desde o “olheiro” responsável pelo aliciamento, até os gerentes dos estabelecimentos ou “serviços” em que foram exploradas, passando pelas pessoas responsáveis pelo seu alojamento e transporte.
Medo
As ameaças, de fato, muitas vezes intimidam as vítimas. No caso de Viviane (nome fictício), os criminosos a intimidaram por conta das “dívidas” que ela deixara no bordel. Quando retornou ao Brasil, ela mudou de endereço e trocou o número de telefone. “As ameaças ficaram por lá e nunca mais fui procurada por ninguém. Hoje, a minha vida é um paraíso, e tiro de lição um arrependimento muito grande. Não tem nada melhor do que trabalhar dignamente”, destaca.
Entre os momentos mais difíceis, a vítima lembra dos contatos por telefone que fez com a mãe, quando relatou o que estava passando. “Ela começou a chorar e eu demorava a ligar, porque não tinha moeda para usar o telefone. Falava com a minha mãe uma vez por semana devido à difícil condição financeira”, conta.