
Espaços dedicados a proporcionar um aprendizado que se leva para a vida toda, as escolas têm se tornado um palco para episódios de violência – dentro ou nas proximidades das instituições. São brigas entre alunos, assaltos, uso e tráfico de drogas e até mesmo explosivos detonados em salas de aula. Nos últimos dias, dois casos em unidades públicas chamaram a atenção.
Ainda sem um balanço final da criminalidade dentro ou perto das escolas em 2012, o Batalhão Escolar da PM antecipou alguns dados ao JBr. O Plano Piloto concentrou 103 ocorrências no ano passado, e Ceilândia, 94 (veja outros dados na infografia da página ao lado).
Samambaia
O caso mais recente ocorreu na última segunda-feira, quando um adolescente de 16 anos teria explodido uma bomba no Centro de Ensino Fundamental 13 do Recanto das Emas. Na mesma cidade, na última quinta-feira, dois jovens de 17 e 15 anos dispararam contra um desafeto, também de 15 anos, na Quadra 805. A vítima foi internada no Hospital Regional de Samambaia, e não corre risco de morrer. Todos os envolvidos estudam na mesma escola.
Em Ceilândia, a violência também preocupa a comunidade escolar. Os alunos do Centro de Ensino Fundamental 17 de Ceilândia (CEF 17) relatam que têm enfrentado problemas. Os assaltos são a principal preocupação.
Medo
Em uma área isolada da Expansão do Setor O, a escola é provisória e, até o fim do ano, os estudantes serão transferidos para uma nova unidade. Enquanto isso, alunos que vão a pé para as suas casas, ou que precisam chegar até a parada de ônibus convivem com o medo.
“Os alunos são abordados por menores, que levam dinheiro, celulares, e quando não encontram nada, os agridem”, relata o vice-diretor Cleber Oliveira.
Ele conta que, após dois anos de reclamações, dois policiais foram deslocados para a área. O problema é que eles apenas estão no local no período da tarde. “Não há iluminação. Já procuramos a Regional de Ensino da Ceilândia, a administração regional e até diretamente a CEB, mas nada foi feito”, reclama.
De acordo com o comandante do Batalhão Escolar da PM, tenente-coronel Sousa Lima, o grupamento está buscando trabalhar em conjunto com a comunidade. “Estamos reformulando todo o planejamento. Vamos dividir o DF em quatro regiões, subdivididas em 30 polos. Cada um terá autonomia para deslocar o policiamento para onde for necessário e agendá-lo para eventos, quando solicitado pelas escolas”, diz.
Em julho de 2011, o GDF lançou o Programa Muita Calma Nessa Escola, que mantém policiamento durante os três turnos nas 40 escolas com maior número de ocorrências. O objetivo era ampliar para praticamente todas as escolas públicas, mas isso não ocorreu por conta do deficit de policiais.
Entrada
No caso do CEF 17 de Ceilândia, o tenente-coronel Sousa Lima diz que a escola não controla a entrada de alunos e não alunos. “Quando somos chamados e chegamos ao local, os responsáveis não sabem informar o que houve, pois não há um controle, por parte da escola, além de o local ser muito escuro o que facilita a fuga dos bandidos.
O comandante explica que o policiamento deveria ser a última etapa do processo de seguranças dos alunos. Para isso, é necessário que pais e professores façam parte do ciclo. “Estamos buscando parceria com as direções regionais, para que elas cobrem dos alunos que usem uniformes. Os pais precisam cobrar que exista o controle na entrada, e que fiscalizem as mochilas”, detalha. Segundo o tenente-coronel, apenas neste ano foram apreendidas duas armas de fogo em escolas.
O tráfico de drogas também ronda as escolas. Um ex-professor do CEF 17 de Ceilândia relata que em meados de 2009, teria abordado um aluno vendendo drogas enquanto ele dava aula na quadra de esportes.
“Ele estava no canto matando aula e traficando merla. Eu disse para não fazer aquilo na minha aula. Ele me desafiou e falou que quem mandava na escola era ele. Fui à direção e não encontrei ninguém. Quando voltei, o rapaz havia tomado a bola que estava com as meninas, dizendo que ‘lugar de mulher é na cozinha’”, conta o professor que continua: “Pedi para ele devolver o material e ele mandou eu ir pegar, foi quando eu o empurrei e tomei a bola. Ele me ameaçou e disse que me esperava lá fora”.
Para sair da escola, o professor precisou de ajuda do segurança que ficou com a mão sobre a arma, enquanto amigos do menor tentavam cercar o carro. Em seguida, o professor saiu em disparada. Apesar das ameaças, ele voltou no dia seguinte, mas em vez do apoio da direção, ele teria sido reprimido, e devolvido à Regional de Ensino.
Segundo o delegado titular da Delegacia da Criança e Adolescente II (DCA II), Amado Pereira, a unidade atende pelo menos dois casos de brigas em escolas por dia. Ele diz que casos como o do Recanto das Emas – onde houve a explosão de uma bomba – são mais raros, mas que pequenos embates entre alunos e professores são comuns.
“Sempre atendemos muitas ocorrências dentro de escolas, como lesão corporal, vias de fato e porte de drogas. Em alguns, a direção e os professores poderiam resolver internamente de forma administrativa, sem precisar trazer até a delegacia”, afirma o delegado, que explica que nem sempre levar o problema à polícia é o ideal.
“Outro dia, um professor trouxe para cá um aluno porque ele teria jogado um giz em suas costas. Isso cria um crescimento da pseudocriminalidade, que é prejudicial para o próprio aluno. Ele acaba marcado por um ficha suja ou ainda, no caso de problemas com outros alunos, aumenta uma rixa que poderia ser desfeita apenas com uma conversa com os pais e os alunos”, avalia.
Para o delegado, os professores têm medo de se impor em sala. O crescimento das ocorrências vem acompanhado da ausência de valores como o respeito pelo docente.
Memória
Em 2009, cerca de 40 alunos de escolas particulares do Plano Piloto, com idades entre 12 e 18 anos, foram apreendidos pela Polícia Militar no Parque da Cidade. Eles faziam parte de dois grupos rivais e haviam marcado a briga por uma rede social para um acerto de contas.
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