
O transporte público que liga a Região Metropolitana ao DF é um dos mais caros do Brasil, mas o serviço oferecido está longe de ser considerado eficiente. Na Cidade Ocidental (GO), por exemplo, a rotina dos passageiros é árdua. Ônibus sucateados, frota pequena e paradas de ônibus precárias compõem a realidade dos moradores. Para a população, a solução está na quebra do monopólio da Viação Anapolina, responsável pelo transporte da região há 50 anos. Ontem foi publicado o Chamamento Público para selecionar até quatro empresas que vão operar em caráter emergencial, até que haja contratações definitivas.
Com a paralisação dos rodoviários, a situação, que já era crítica, ficou ainda pior. Além disso, houve mais protestos ontem. A operadora de telemarketing Janaína Luzia de Melo, 24 anos, teme perder o emprego por conta da falta de ônibus. “Tem duas horas que nem o pirata passa aqui”, diz. Segundo ela, os moradores da Cidade Ocidental acostumaram-se a serem deixados de lado. “Os governantes não enxergam o caos que vivemos”, afirmou.
Paradas ruins
A passageira, que espera o ônibus numa parada improvisada, acredita que o problema é crônico e atinge vários aspectos da mobilidade dos cidadãos. “A situação é caótica nas paradas. As poucas que têm estão caindo aos pedaços. Nessa que estou, o dono desse comércio colocou um telhado para ajudar”, relatou.
De acordo com o estudante Wellington Pereira, 21 anos, a superlotação dos coletivos também incomoda. O jeito é se espremer para chegar a tempo no trabalho. “É difícil se locomover dessa forma. Sempre foi complicado, mas vem piorando”.
Ele conta que paga caro pelo transporte e boa parte de sua renda tem essa finalidade. “A passagem é muito cara. Pagar R$ 3,45 para ser tratado como lixo é um absurdo”, reclama.
Para Wellington, a tarifa elevada dificulta até a conquista de emprego no DF. “Quando olham o currículo e se deparam com o endereço, logo mudam de ideia”, declara.
Sem salário há 2 meses
Para os rodoviários, a situação também é crítica. Sem receber o salário e o auxílio-alimentação há dois meses, eles estão de braços cruzados desde a última sexta-feira. De acordo com o motorista Pedro Luíz, 48 anos, o objetivo dos profissionais é garantir condições dignas de trabalho. “Não estamos procurando melhorias. Nosso objetivo é unicamente garantir o básico, que é receber o nosso salário”, diz.
De acordo com o também motorista Helton Flávio de Melo, 32 anos, as péssimas condições dos veículos oferecem riscos à população. “Muitos ônibus não têm freio. Só vão resolver isso quando uma tragédia acontecer”, argumenta.
Segundo a cobradora Edileusa Galvão, 45 anos, alguns colegas estão enfrentando dificuldades. “Ninguém tem condições de ficar 60 dias sem receber o salário. Ganhamos muito pouco e o mínimo que esperamos é tê-lo em dia”, diz.
A Vian foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou.
Medida emergencial após protestos
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) publicou ontem o Chamamento Público para selecionar a empresa que deverá operar em caráter emergencial. O resultado da seleção será divulgado em até dez dias. A empresa irá operar junto com a Viação Anapolina, que atende 103 mil passageiros por dia. O início das atividades está previsto para abril. Vão operar 200 veículos, até que seja concluída a licitação. Os critérios de seleção são capacidade, regularidade e idade máxima da frota (até dez anos).
Perguntada sobre porque tal medida não foi tomada antes, já que são problemas antigos, a ANTT respondeu que “a empresa não mais conseguia atender às necessidades da população e o instrumento adotado é a forma de não deixar a população sem atendimento”.
O especialista em transporte Carlos Penna está descrente quanto à ação paliativa da ANTT. “Como se trata de uma medida provisória, a tendência é que se mantenha a situação de precariedade”, avalia.