Começo de ano é sempre um momento visto, por muitos, como propício para trocar metas e dar início a novos planos e projetos. Seja no trabalho, na vida acadêmica, financeira ou pessoal, o começo de um novo ciclo e a sensação de recomeço traz às pessoas a motivação necessária para tais feitos. Se tratando de saúde, física e mental, não é diferente. A chegada do verão e as férias tornam o mês de janeiro perfeito para quem busca dar partida a uma nova atividade física ou cuidar do corpo e mudar aquilo que não está agradando. É por esse motivo, que as academias costumam receber muitos novos clientes motivados e inspirados nessa época do ano. “Geralmente, esse período é marcado por bastante procura, justamente por causa das metas e toda essa questão de recomeço”, comenta Thais Yeleni Ferreira, presidente fundadora do Sindicato das Academias do DF (Sindac-DF).
Conforme pontua o professor de educação física do CEUB, Filipe Dinato, finais e início de ano costumam ser marcados por momentos de reflexão e autoanálise, o que contribui com essa busca por saúde. “Vivemos em um momento em que as pessoas olham para a própria vida e vê coisas que precisam mudar”, comenta o educador. Uma das brasilienses que decidiu iniciar o projeto 2022 e tratou de, logo no segundo dia do ano, se matricular na academia, foi a moradora da Asa Sul, Camila Vieira. A jovem, estudante de Engenharia Ambiental, conta que, desde a metade do último ano, sente necessidade de colocar o corpo em movimento, tanto pelos benefícios estéticos quanto pelos mentais. “Nunca tive problema com o meu corpo, mas o sedentarismo que o isolamento social causou em mim mudou algumas coisas que estavam me incomodando”, conta a jovem de 23 anos.
Diante do que acredita Filipe, colocar tais projetos como prioridade são essenciais, principalmente no momento atual. “Os hábitos de vida estão diretamente ligados a longevidade, pois são eles que irão ditar o surgimento de doenças e complicações de saúde. Quanto menos ativo você é, maior o risco de desenvolver doenças como diabetes, obesidade, e até mesmo o câncer. Todas elas estão relacionadas com a diminuição da atividade física”, elucida. É justamente por esse motivo, que o longo período de isolamento social foi muito prejudicial para a saúde. Como aclara o docente do CEUB, a redução dos níveis de exercício refletiu no aumento de doenças crônicas e da obesidade, com prognósticos, inclusive, piorados.
De acordo com a doutora Stela de Lemos, psicóloga no Hospital Anchieta de Brasília, o corpo humano não foi feito para ficar parado, por isso, sair do sedentarismo é uma meta muito comum nos começos do ano. “Ainda mais depois de toda a comilança das festividades que antecedem o mês de janeiro”, desenvolve a profissional. No entanto, Camila Viera salienta que sua maior motivação não foram as questões externas, mas sim psíquicas.
“Ha alguns anos atrás, eu fazia natação. Lembro que o prazer e o bem-estar que essa atividade me gerava era imediato. Depois de um dia cansativo, me movimentar e descontar o estresse no exercício me faziam muito bem. Ficar tanto tempo sozinha em casa, isolada foi muito pesado para a minha saúde mental, então busquei ir atrás dessa sensação boa de novo”, compartilha a universitária. “Esse interesse é muito positivo. O exercício não tem a ver somente com uma questão estética, mas com um bem-estar geral, principalmente mental”, avalia Filipe.
Os benefícios, como esclarece a doutora, são inúmeros. “Eles vão propiciar que a gente produza neurotransmissores que trazem sensações boas para o organismo. Isso de forma orgânica, sem remédios”, declara Stela.
A profissional complementa ainda que, o cumprimento dessa meta também é algo que irá gerar fatores positivos em âmbito mental. “Isso faz as pessoas quererem e se sentirem capazes de traçar novos planos”, explica. “Ficamos mais motivados ao vermos que conseguimos. Então ela vai querer impor novas metas e objetivos para o futuro, além de continuar nesse processo ja iniciado”, continuou. Como frisa a especialista, o mais importante, ao se falar de processos, é a constância, e não a intensidade. “Muitas pessoas abandonam a academia porque começam animadas e, ao não ver resultados imediatos, se frustram”, diz.
Abandonar o projeto, contudo, não está nos planos de Camila. A futura engenheira garante que pretende que a academia se torne um hábito e parte de sua rotina. “Fiz logo o plano anual, para não ter desculpa para desistir. Afinal, não ter que pagar a multa do cancelamento é uma grande motivação”, brinca a estudante. “Mas é algo que eu gosto, que eu sei que me faz bem, então não me vejo abrindo mão disso a não ser que algo muito fora dos meus planos aconteça. Entrar na academia já era uma vontade antiga e, agora que consegui encaixá-la nos meus horários, quero que seja parte da minha vida”, completou.
Na avaliação de Filipe Dinato, qualquer mudança de hábito não envolve, apenas, aspectos intelectuais, cognitivos, pensados apenas nos ganhos, mas também no processo afetivo. “A pergunta que devemos nos fazer quando tomamos uma decisão é ‘eu gosto disso?’ ‘Vale a pena?’ ‘Como isso vai mudar a forma como eu vivo e me relaciono com as pessoas?’ ‘Como essa atitude vai impactar minhas emoções?’. Tudo que não nos toca emocionalmente perde prioridade nas nossas vidas”, afirma. De acordo com o que compartilha a presidente do Sindac, meses como maio, perto do inverno, são os que apresentam os maiores números de desistência. “Mas isso vai depender também muito do tipo de serviço ofertado por cada estabelecimento”, acrescentou a representante, destacando a importância de estratégias de acompanhamento por parte dos trabalhadores dos locais como forma de incentivo.
A primeira dica do educador físico para se manter no projeto é fazer o que gosta. “Não existe apenas academia. Se você não gosta de musculação, procure um esporte que se identifique, que sinta prazer em praticar”, indica Filipe. A segunda estratégia que, no seu ponto de vista é importante citar, é não pensar apenas em objetivos e metas, mas nas consequências advindas dessa atividade. “A terceira é eliminar as dificuldades. Por exemplo, por que escolher um espaço longe de casa se posso ir em outro mais próximo? Isso se soma também à quarta estratégia, que é encontrar um parceiro, uma companhia, alguém com quem você compartilhe motivação”, sintetizou o profissional.