Francisco Dutra
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O sonho de ganhar um abraço de pais adotivos começou a se transformar em realidade para muitas crianças mais velhas, que estão à espera de novos lares em abrigos do Distrito Federal. Há uma década, as adoções tardias, em que os pequenos têm mais de dois anos de vida, mal chegavam a dez a cada ano, pois as famílias só tinham olhos para recém-nascidos. Hoje, números da 1ª Vara da Infância e Juventude do DF (1ª VIJ-DF) apontam para outra trilha. Nos últimos três anos, metade das famílias habilitadas para adoção acolheu meninos e meninas com idade acima de dois anos.
A fase de acolhimento é um passo importante no processo de adoção. Após a apresentação, famílias e crianças passam a viver juntas, em um período de adaptação e avaliação conhecido como estágio de convivência. Em 2009, 46 crianças foram acolhidas. Deste total, 23 eram menores de dois anos e 23 acima dessa idade. No ano seguinte, 42 crianças entraram na fase de acolhimento. Delas, 20 estavam na etapa de adoção tardia. Na análise do ano passado, 51 crianças foram acolhidas. Neste grupo, 26 tinham mais de dois anos de idade.
“Tem aumentado o número de adoções tardias. Com a diminuição do número de bebês para adoção, a sociedade brasileira vem se abrindo para a possibilidade de acolher crianças maiores”, pontuou a supervisora substituta da Sessão de Colocação em Famílias para Adoção da 1ª VIJ-DF, Miva Campos. De acordo com ela, o exemplo de celebridades e artistas famosos adotando crianças de idade mais avançada e com perfis diferentes dos pais também abre a mente dos candidatos à adoção.
Outro fator foi a mudança da Lei de Adoção, em 2009. Além de mais rigorosa, a nova legislação permitiu que a ideia da adoção tardia fosse melhor trabalhada junto aos pais, principalmente, nos cursos obrigatórios de formação para a habilitação para adoção. Pais que abriram seus horizontes contam suas experiências para desmistificar e desconstruir tabus sobre o tema. “Mas ainda há um interesse muito grande por crianças menores”, frisou Miva.
Levantamento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no entanto, mostra que a dificuldade continua para crianças e jovens com idade bem mais avançada, entre oito e 17 anos. Apenas 3% dos candidato à adoção aceitaram ou optam por meninos e meninas nesta faixa etária.