Andreia Salles, Jorge Eduardo Antunes, Paulo Gusmão e Soraya Kabarite
Especial para o Jornal de Brasília
A segunda noite de desfiles na Marquês de Sapucaí trouxe a discussão política para o mundo do samba, mistura que nem sempre dá certo, mas que carrega boa dose de hipocrisia travestida de crítica e defesa social. A vereadora Marielle Franco, por exemplo, foi lembrada em duas escolas – Vila Isabel e Mangueira. Nunca é demais lembrar que ela foi morta pelas milícias cariocas, braço criado a partir da segurança feita por policiais a bicheiros, patronos das agremiações que criaram a Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), administradora da festa. E a Paraíso do Tuiuti teve enredo com fôlego para criticar “coxinhas” – eleitores mais à direita. Pena não ter a mesma disposição para indenizar a família da radialista Lúcia Mello, morta após ser atropelada por uma alegoria da escola, no desfile de 2017.
Mas hipocrisias e modismos à parte, Vila Isabel, Portela União da Ilha e Mangueira fizeram belos desfiles, uns mais, outros menos políticos, e se juntam às três que se destacaram na noite de abertura – Unidos do Viradouro, Salgueiro e Beija-flor. Um grupo de sete escolas, entre 14 que desfilaram, é abrangente demais para apostas de carnaval. A rigor, pode-se dividir este bloco de escolas favoritas em três patamares. No primeiro, Viradouro, Mangueira e Salgueiro. No segundo, Beija-Flor e União da Ilha. No último, Portela e Vila Isabel.
São Clemente sem brilho
A noite de segunda-feira (4) abriu com a passagem da São Clemente. A escola de Botafogo, única da Zona Sul do Rio da desfilar na elite, reviveu o enredo o “Samba sambou”, de 1990, que colocou a escola em sexto lugar no Grupo Especial. O carnavalesco Jorge Luiz Silveira distribuiu 3,1 mil foliões em 26 alas para falar mal de todo mundo do carnaval, na primeira crítica da noite – e talvez a única 100% honesta. Sobrou até para a imprensa, com certa razão. Mas a escola passou sem empolgar, sem brilhar e vai buscar apenas se manter no Grupo Especial. Dificilmente repetirá o sexto lugar de 1990.
Vila luxuosa e lenta
A seguir veio a luxuosa Vila Isabel, que na concentração, puxou o grito “Olê, Olê, Olê-o-lá”, para ouvir o “Lulá, Lulá” de volta. A homenagem à Petrópolis com o enredo “Em nome do Pai, do Filho e dos Santos, a Vila canta a cidade de Pedro”, do carnavalesco Edson Pereira, campeão do Grupo de Acesso do ano passado com a Viradouro, teve até espaço para a lembrança da vereadora Marielle Franco, com a mãe, Marinete, o pai, Antônio, e a irmã, Anielle, desfilando no carro alegórico sobre a abolição da escravidão, junto da imagem de Princesa Isabel, com uma faixa “Marielle presente” decorando a alegoria.
O gigantismo, personificado no carro abre-alas de 60 metros, e o luxo nas fantasias e alegorias levaram a avenida a gritar “É campeã”, graças à torcida presente no setor 1. Mas a Vila já começará a apuração devendo, pois estourou o tempo de desfile em um minuto, o que custará, ao menos, um décimo, o que pode ser fatal para a pretensão de ser campeã.
Portela relembra Clara Nunes
A Avenida serenou quando a Portela entrou, homenageando Clara Nunes. Com Rosa Magalhães à frente da escola, a vida e a arte da cantora foram contadas com extremo rigor técnico, como é costume da dona de sete títulos do carnaval carioca. Um desfile historicamente impecável, mas de pouca empolgação, como costumam ser as passagens das escolas que Rosa Magalhães comanda.
Mas tudo sobre a vida da mineira que foi diva do samba carioca estava lá – a infância pobre, a fábrica de tecelagem, a religiosidade, o amor à escola que a homenageou. Um primor técnico e de respeito ao enredo que, se não empolga ou não faz críticas acentuadas, costuma agradar aqueles que julgam. Por conta disso, alijar a Portela de favoritismo seria uma espécie de avaliação comprometida.
A surpresa da União da Ilha
Do mesmo modo, acreditar que uma escola pequena como a União da Ilha não possa sonhar com voos mais altos é ser um bocado pessimista. E a agremiação insulana surpreendeu. O carnavalesco Severo Luzardo Filho, em seu terceiro desfile na União, conseguiu fazer uma boa junção de dois clássicos da literatura cearense, José de Alencar e Raquel de Queiróz. Passeando com extrema competência pelos livros de ambos, abordou também a fé, a arte e as tradições do Ceará.
Como destaque, um padre Cícero voador à frente de uma comissão de frente de migrantes, criação que dificilmente não será premiada com a nota máxima pelos jurados. A mesma coisa deve ocorrer com a bateria, que agregou até a sanfona para colocar o samba no ritmo ideal para uma homenagem ao simpático estado nordestino.
Tuiuti insiste na política
Sensação do Carnaval passado após colocar um vampiro com uma faixa presidencial, numa alusão a Michel Temer, a Paraíso do Tuiuti, que segue sem pagar a indenização de R$ 700 mil à família da radialista Lucia Mello, morta em 2017 após ser atropelada por um carro alegórico desgovernado da agremiação, foi para a avenida com outro enredo sobre o Ceará, desta vez abordando a história do Bode Ioiô, “eleito” vereador em Fortaleza nos anos 1920.
Claro que a história não se prendia apenas ao bode, vide uma ala simulou a luta do “bode da resistência” e a “coxinha ultraconservadora”, crítica com evidente viés político, até porque as coxinhas empunhavam arma, em referência aos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro, e os bodes estavam de vermelho, lembrando a da esquerda e do PT. Mas o bode deu o maior bode e a escola teve problemas de evolução, o que deve tirar a agremiação do Desfile das Campeãs, no sábado.
Mangueira e Marielle
A Mangueira veio a seguir, e manteve o tom político do desfile. A lembrança da vereadora Marielle Franco estava no samba e na passagem da viúva dela, a arquiteta Mônica Benício, e dos seus colegas de PSOL, o deputado federal Marcelo Freixo e o vereador Tarcísio Motta. Além dela, uma revisão da história do Brasil, contada a partir de heróis desconhecidos e não citados nos livros de história – negros, índios e outros.
A revisão promovida pelo carnavalesco Leandro Vieira com o enredo “História pra ninar gente grande” teve 3,5 mil componentes valorizando figuras como o guerreiro guarani Sepé Tiaraju, e descontruindo Princesa Isabel, o bandeirante Domingos Jorge Velho, o Marechal Deodoro da Fonseca, o Dom Pedro I e Pedro Álvares Cabral. Além dos ataques a estes vultos, a Mangueira também decidiu mudar as cores da bandeira do Brasil, que passou em verde e rosa, com o “Ordem e Progresso” substituído por “índios, negros e pobres”. Empolgou a plateia, mas isso a Mangueira sempre faz.
Mocidade e o tempo
Após a sequência política, a Mocidade Independente de Padre Miguel fechou o Carnaval carioca com a passagem firme e um enredo sobre o tempo. E começou bem, trazendo de cara a cantora Elza Soares, no abre-alas sobre Cronos e a criação dos astros. Representando a estrela maior, símbolo da Mocidade, ela encantou o público e ampliou a expectativa sobre o desfile de 2020, no qual será o enredo da escola.
Com luxo e muito rigor estético, o carnavalesco Alexandre Louzada, campeão em 2017 pela escola, fez um desfile riativo, mas pouco empolgante diante de um sambódromo que já vira a passagem de 13 escolas. Pode surpreender, até pelas boas ideias, como a comissão de frente que viajava no tempo.