Raphaella Sconetto
raphaella.sconetto@grupojbr.com
No lugar de pessoas, pombos. O mato que cresce sem qualquer controle. Os bancos, que eram para ser disputados pelos frequentadores, estão vazios. Se localizou? Esse é o retrato das praças públicas do Distrito Federal. O cenário tem um indício do abandono: o governo sequer sabe quantos espaços desses existem na capital. Há uma licitação para a manutenção de todos os pontos, mas está parada na Justiça.
A menos de cinco quilômetros do centro de Brasília, a Praça do Povo, no Setor Comercial Sul, representa bem o descaso: bancos quebrados, pedras portuguesas soltas e ainda cheiro de urinas e de fezes, porque pessoas em situação de rua usam o local como dormitório.
O corretor de imóveis Hermenegildo Soares, 62 anos, trabalha há mais de 20 anos no Setor Comercial Sul e se recorda de como era a praça anos atrás. “Era bem melhor. A gente conseguia sentar sem se preocupar com bandido, sem sentir cheiro ruim. Tem hora que não dá para ficar aqui por conta do fedor. Está um terror. Completamente abandonada”, dispara.
Ali costuma ser um dos pontos que Hermenegildo frequenta na hora do almoço. “Eu e uns colegas, às vezes, viemos para cá bater um papo, ler um jornal ou até fazer uma ligação num lugar mais tranquilo e silencioso”, conta. “Poderia estar lotado, porque é um lugar que todo mundo usaria para descansar um pouco. Mas está assim”, completa, apontando para o mato alto e a sujeira da praça.
Para o corretor, a praça ideal estaria verde, assim como está, mas bem cuidada. “Faz falta ter um espaço para poder ler um jornal com tranquilidade”, acrescenta.
Usuários de drogas
De frente a uma escola, próxima a comércios e residências, e até com uma feira aos fins de semana na rua de frente. Esse é o cenário ideal para que uma praça pudesse lotar de adultos e crianças, mas, na Praça do Bicalho, em Taguatinga Norte, a movimentação que predomina é a de usuários de drogas.
Quem passa por lá precisa apressar o passo, como a estudante Amanda Rodrigues, 20 anos, e sua mãe, a funcionária pública Maria Aparecida Rodrigues, 48 anos, que caminhavam até uma loja quando a reportagem esteve por perto. “Moro há dez anos em Taguatinga e não me lembro dessa praça lotada. O que mais vê, na verdade, são pessoas usando drogas e moradores de rua”, aponta a estudante.
“As crianças vêm , mas perdem o interesse porque não tem o que fazer. Os alunos do colégio até ficam um pouco, mas é mais para esperar os pais ou transporte escolar, ou ficam passando tempo até a aula começar”, completa Amanda.
No dia em que a reportagem esteve na Praça do Bicalho, foi possível ver bancos quebrados, quadra de esporte com grades arrebentadas e o gol estragado, além de lixo pelo chão e pichações pelos muros.
Na cidade vizinha, em Ceilândia, a Praça da Bíblia também carece de mais segurança. O local já foi palco de eventos. No entanto, quando a equipe do JBr. esteve ali a única presença também era de adolescentes consumindo entorpecentes. A vizinhança não passava pela praça e os arredores estavam vazios.
Licitação parada na Justiça
Uma licitação está em aberto na Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap) por conta de entraves judiciais. No processo está prevista a manutenção de equipamentos públicos, como praças, parquinhos infantis, quadras poliesportivas e PECs. Até que a ação judicial seja concluída, a companhia alega que “vem firmando parcerias para pequenos reparos em espaços públicos com as administrações regionais e a própria comunidade”.
No Tribunal de Justiça do DF (TJDFT), o processo corre desde setembro de 2016. A empresa que venceu a licitação – TVA Construção – foi considerada inabilitada, por isso entrou com recurso judicial. O último andamento, do dia 14 de dezembro, consta que o processo está concluso com o relator. Houve decisão na 1ª Instância, do dia 28/8/2017, mas ainda aguardam julgamento em 2ª instância. Nos autos, a empresa alega que possui a experiência e qualificação necessárias para a execução do contrato.
Brincadeira tenta driblar as dificuldades
Em uma praça da QNL 13/15 de Taguatinga, crianças e adolescentes ainda insistem em brincar na quadra de esportes mesmo que as grades estejam quebradas e enferrujadas. Segundo a balconista Aurinete da Páscoa, 46 anos, essas são as principais atividades realizadas na praça. “É bem vazia durante a semana, mas aos sábados e domingos as crianças brincam de bola na quadra”, conta.
Apesar da resistência, Aurinete concorda que falta cuidado. No espaço, o mato toma de conta de um parquinho para crianças. O chão, que antes era de areia, tornou-se mato e quem vê de longe até acredita que seja um parquinho com grama. “Não sei como é a limpeza do governo. Este ano vi uma equipe aqui, mas o mato fica muito alto. A maior parte do ano é assim”, reclama.
- Foto: Kléber Lima/Jornal de Brasilia
- Foto: Kléber Lima/Jornal de Brasilia
- Foto: Kléber Lima/Jornal de Brasilia
Administrações respondem
Por nota, a Administração de Taguatinga informou que neste ano houve uma revitalização na Praça do Bicalho, incluindo colocação de lâmpadas de LED e pintura de quadras, em parceria com o Instituto Ipês da Secretaria do Trabalho, Desenvolvimento Social, Mulheres, Igualdade Racial e Direitos Humanos (Sedestmidh). Com relação à Praça da QNL, a administração não soube responder e disse que enviará uma equipe para fazer vistorias no local.
Já a Administração de Ceilândia esclareceu que foi encaminhada uma proposta de revitalização para a Praça da Bíblia. No entanto, não há nada definido. “Neste ano, a administração realizou a demolição de toda a estrutura do antigo Terminal do P Norte que fica localizado próximo a praça, podas e roçagens no local e em suas proximidades, assim como manutenção de PECs (Pontos de Encontro Comunitários)”.
Por fim, a Administração do Plano Piloto alegou que há um projeto para a Praça do Povo, com o objetivo de tornar o espaço mais acessível. A proposta está em fase de viabilidade econômica. Por outro lado, o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) realiza a varrição duas vezes por semana de segunda a sábado. Em relação às pessoas em situação de rua, a administração apontou que a Sedestmidh faz a abordagem social.
Saiba mais
O Governo do Distrito Federal desconhece o número exato de praças públicas. Quando a reportagem entrou em contato, a informação repassada é de que teria de ser feita uma pesquisa em cada administração regional. Questionado se não haveria nenhum órgão centralizado responsável por esse levantamento, a resposta foi negativa.


