Matheus Venzi
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Quatros anos se passaram e a dor da sensação de impunidade persiste na família de uma criança abusada sexualmente dentro de casa, no Distrito Federal. O acusado é Lucas Carvalho Rollo, de 24 anos, que é brasileiro, mas também tem cidadania americana e partiu para os EUA após ser condenado. Atualmente, ele seria soldado do Exército. O crime ocorreu em 2014, em Vicente Pires, quando a vítima tinha 6 anos. O caso foi relevado com exclusividade pelo Jornal de Brasília, na manhã desta quinta-feira (26).
Ao JBr., a mãe da criança desabafou sobre a situação: “A única coisa que eu quero, agora, é dizer para ela [a filha] que Lucas está preso. Assim, eu tenho certeza que tudo vai ficar para trás e a minha pequena voltará a sorrir. Vamos seguir em frente”. A mulher fala das cicatrizes deixadas em toda a família. Ela conta que o marido e a criança ficaram traumatizados e evitam tocar no assunto.
“Meu marido e ela ficaram bastante traumatizados com tudo e evitam falar sobre isso. Tudo que a gente quer é um ponto final nessa história. Depois desta última conversa que tivemos, ela me falou que nunca mais queria falar sobre o assunto”, disse a mulher.
A mulher narra que, ao ser questionada sobre a violência sofrida, a menina ficou com cabeça baixa até a última pergunta. “Eu a perguntei se ela ficaria feliz com a prisão dele. Nessa hora ela levantou a cabeça, olhou nos meus olhos e disse que sim”, reconhece a mãe. Hoje aos 11 anos, a menina diz que pretende se tornar policial.
Na opinião da mãe, o desejo da filha é uma tentativa, mesmo que inconsciente, de tentar fazer justiça e punir criminosos. “Ela mudou de personalidade depois de tudo o que aconteceu. Antes, era uma criança bem alegre e doce. Atualmente, é um pouco explosiva, dispersa e tem problemas para se concentrar na escola. Chegou a reprovar duas vezes”.

Lucas Rollo seria soldado do Exército nos EUA. Foto: Reprodução/Facebook
O crime
Lucas Rollo nasceu em Florianópolis (SC) e possui cidadania americana por ser filho adotivo de uma brasileira com um americano. Ele havia voltado ao Brasil em 2013, quando passou a morar na casa de um familiar dos pais adotivos em Vicente Pires. Foi aí que ele passou a ter contato com a vítima.
No dia 2 de fevereiro de 2014, um comportamento estranho da menina chamou a atenção do pai. “Por causa de um churrasco da família, a tia do meu esposo e as outras pessoas da casa saíram e só ficaram ele, minha filha e Lucas”, explica a mãe. O pai ficou no andar de baixo assistindo a uma partida de futebol e a criança subiu para brincar com Lucas. Até este dia, ninguém suspeitava de nenhuma atitude estranha do rapaz.
Em um determinado momento, a menina desceu as escadas e disse ao pai que queria tomar banho. “Meu esposo respondeu que ainda não era a hora, mas ela insistiu. No terceiro pedido, ele a perguntou por que queria tanto tomar banho. Ela respondeu que estava sangrando. Meu marido ficou desesperado e perguntou o motivo. Ela contou que Lucas estava em cima dela e que tinha passado um gel nas partes íntimas dela”, relembra a mãe.
O pai, então, foi ao andar de cima, onde Lucas estava tomando banho, e pediu que abrisse a porta. “Lucas recusou. Então, meu marido disse que iria arrombar a porta de qualquer jeito. Lucas abriu e os dois entraram em luta corporal”, conta. O homem, então, teria ligado para a tia, “antes que algo pior acontecesse”. O caso foi parar na 38ª DP, onde um boletim de ocorrência foi registrado.

Desenhos e roupas da vítima. Foto: Rayra Paiva Franco/Jornal de Brasília
Perícia confirma material genético
Ao longo da investigação criminal, foram analisados o short, calcinha e camiseta da vítima, além do lençol do quarto. A perícia constatou nas amostras a presença do sangue, líquido seminal (parte do sêmen sem espermatozoides) e material genético de Lucas. Exame de corpo de delito concluiu que o hímen dela não foi rompido.
O rapaz chegou a ser preso. Porém, conseguiu habeas corpus para responder ao processo em liberdade. A advogada de Lucas na época, Cláudia Tereza, conta que o rapaz foi absolvido em primeira instância pela 2ª Vara Criminal de Taguatinga. Assim, ele recuperou o passaporte e deixou o Brasil.
Todavia, o Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) recorreu da decisão e o jovem foi condenado em segunda instância ainda em 2016. Foi quando ele saiu do Brasil. O caso foi dado como encerrado na Justiça e iniciou-se o processo de execução da pena. Em 1º de setembro passado, o TJDFT solicitou a inclusão do nome de Lucas na lista de difusão vermelha da Interpol. O nome do condenado já está na relação de procurados e pode ser acessado publicamente. Ele é considerado foragido pela Justiça.

Foto: Reprodução/Facebook
Autoridades optam pelo silêncio
Procurado, o Ministério das Relações Exteriores não comentou o caso e sugeriu que a demanda fosse enviada ao Poder Judiciário. O Ministério da Justiça também não se manifestou sobre o assunto.