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Brasília

No DF, a cada cinco mastectomias, apenas uma reconstrução é feita na rede pública

Arquivo Geral

02/07/2018 9h00

Daniela descobriu o câncer de mama em 2012, quando fazia um autoexame, e aponta negligência médica: “Não fui direcionada para uma investigação mais a fundo ainda no início”. Foto: João Stangherlin/Jornal de Brasília

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Raphaella Sconetto
raphaella.sconetto@grupojbr.com

A luta contra o câncer de mama não acaba quando as sessões de quimioterapia ou radioterapia são finalizadas. Mulheres mastectomizadas que dependem da rede pública esperam anos por uma chance de fazer a reconstrução mamária. Em abril, completaram-se cinco anos da lei que prevê a reconstituição imediatamente após o procedimento de mastectomia. No entanto, dados indicam o descumprimento da medida.

De acordo com o DataSUS – sistema de dados do Ministério da Saúde -, a cada 7,5 mastectomias, apenas uma reconstrução mamária é realizada. A proporção segue dessa maneira desde 2013. Em 2016, foram realizadas 10.442 mastectomias e apenas 1.396 reconstruções. A Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM) também coletou dados: de 2008 a 2015, 92,5 mil mulheres fizeram a cirurgia de mastectomia. Destas, apenas 20% passaram pelo procedimento de reconstrução.

A realidade não é diferente na capital do País. A cada cinco mastectomias, uma reconstrução é providenciada pela Secretaria de Saúde. Os dados do ano passado. Quando analisados os números de 2016 a diferença aumenta: são 6,7 mastectomias para uma reconstrução.

Longo processo

A aposentada Valmira da Silva Costa, 64 anos, faz parte das estatísticas de mulheres que conseguiram a tão sonhada reconstrução mamária. Porém, o processo do resultado do diagnóstico até o procedimento pelo Sistema Único de Saúde levou oito longos anos. Tudo começou em 2004, quando ela notou um caroço no seio enquanto fazia o autoexame. “Era embaixo da mama esquerda, algo como se fosse uma picada de mosquito, mas senti que era interno. Isso me acendeu uma luz”, lembra.

Foi quase um ano até a certeza do diagnóstico do câncer de mama, entre idas e vindas ao hospital, consultas marcadas e desmarcadas, e várias respostas de que não havia equipamento, falta de anestesia, médicos que não tinham horário. A solução encontrada foi fazer os exames na rede particular.

“No dia 11 de novembro fui para o Hospital de Base e fiquei no corredor da oncologia. Dei de cara com o médico. Estava no auge da minha fragilidade, da luta para conseguir uma consulta. O câncer estava muito agressivo”, recorda.

No dia 22 de novembro de 2004, Valmira conseguiu a cirurgia para retirar a mama que estava com o tumor. Depois disso, passou por 31 sessões de radioterapia e seis de quimioterapia. Após o tratamento forte, sentia que tinha chegado a hora para a cirurgia de reconstrução mamária.

“Eu me sentia mutilada. Não conseguia me olhar no espelho”. A primeira reconstrução, no entanto, foi no início de 2012, oito anos depois da retirada. “Fizeram pela técnica de retirar o tecido da barriga e colocar na mama. Mas meu organismo rejeitou”, afirma.

Paciente enfrenta saga por conquista

Infeccionada na primeira tentativa de reconstrução, Valmira da Silva precisava realizar um segundo procedimento. “Foi ainda em 2012. Coloquei o silicone em um mutirão. Mas até aí foi uma saga: fui para a sala de cirurgia três vezes, mas o médico não fazia porque dizia que eu não tinha a quantidade de ferro necessária. Quando veio o mutirão, sabia que seria a única oportunidade. Corri para fazer os exames cirúrgicos na rede particular e me encaixei na fila”, conta.

Seis anos após o mutirão, a aposentada terá de passar por um novo procedimento. “Minha prótese desceu. Agora precisa ser ajeitada”, explica. Apesar disso, ela garante que se sente outra mulher com os dois seios. “O tratamento no Hospital da Asa Norte é ótimo. Sem comparação a minha autoestima antes e depois da prótese. Vejo as marcas, mas elas não me doem mais”, completa.

Desinformação e despreparo na rede pública


Valmira levou oito anos do diagnóstico do câncer até a reconstrução mamária. Foto: João Stangherlin/Jornal de Brasília

De acordo com o Lei nº 12.802, toda mulher que passa por mastectomia para retirada de tumor tem o direito de realizar a reconstrução mamária imediatamente, se houver condições clínicas, ou tão logo apresente os requisitos clínicos necessários.

Segundo o cirurgião plástico e porta-voz da Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saúde da Mama (Femama), Rafael Netto, na maioria dos casos as pacientes continuam fazendo quimioterapia e radioterapia após o procedimento.

“O que mais limita a realização da reconstrução são doenças da própria mulher. Como a diabetes e problemas cardíacos, onde o processo pode ter complicações e oferecer risco de morte”, aponta.

Uma pesquisa da Femama apontou que 27,9% das mulheres que estão em tratamento contra o câncer de mama desconhecem a lei que completou cinco anos no dia 24 de abril. E isso vai influenciar diretamente na decisão de optar ou não pela reconstrução. Enquanto esse número chega a 71,94% entre as entrevistadas que declararam conhecer bem a lei, apenas 38,89% das mulheres que responderam nunca ter ouvido falar da legislação realizaram o procedimento.

Entrave

Atualmente, segundo o cirurgião plástico, em 90% dos casos há indicações para fazer a reconstrução mamária após a retirada completa das mamas. “O problema é que o sistema público não tem condições para oferecer o procedimento para 90% das mulheres”, critica Rafael Netto.

“A lei foi criada sem se preocupar com a estrutura. Não existem profissionais suficientes, não existem próteses, não existem serviços especializados. E, em contrapartida, há um grande número de pacientes”, completa.

Proporção

A realidade muda quando se trata de onde o tratamento é feito: 74,8% das mulheres que fizeram o tratamento do câncer de mama no sistema privado reconstruíram a mama, e apenas 53,4% das pacientes da rede pública passaram pelo procedimento. “A disparidade é muito grande e não poderia ser assim, porque o direito é para todas”, levanta o porta-voz da Femama.

Urgência no tratamento

A auxiliar administrativa Daniela Melo de Oliveira, 41 anos, mesclou o tratamento entre setor público e privado. Ela descobriu o câncer de mama em 2012, quando fazia um autoexame. “Por negligência médica não fui direcionada para uma investigação mais a fundo. Quando o tumor já estava do tamanho de um limão foi que a médica pediu a mamografia”, lembra. Por conta da demora ela precisou iniciar as sessões de quimioterapia e, em seguida, fez a retirada da mama direita. O acompanhamento era feito no Hospital de Base. “Foi no ano em que a lei passou a valer, mas a médica havia me dito que eu não preenchia os requisitos”, conta.

Após a mastectomia, ela continuou o tratamento com 25 sessões de radioterapia. Quando finalizou, foi atrás dos médicos para fazer a reconstituição da mama pela rede pública. “Veio o mais difícil. Tudo era muito burocrático, tinha que entrar na fila. Então procurei a reconstrução na rede particular. Pelo convênio entra como uma cirurgia reparadora, e não estética. Apresentei os laudos e consegui colocar a prótese nas duas mamas”.

A reconstrução mamária de Daniela foi em 2015, dois anos após o início do tratamento. “Se ainda tivesse esperando em hospital público, ainda não teria feito. Se um exame simples, como a mamografia, a gente demora para conseguir, imagina uma cirurgia que é mais complicada. Se a reconstrução fosse feita durante a mastectomia seria mais fácil, a paciente já está sedada, aberta”, acrescenta a auxiliar administrativa.

Formas de fazer o procedimento

A mastologista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Fátima Vogt explica que as técnicas para chegar a um novo seio nas mulheres que passaram pela mastectomia são variadas. “Existe a técnica em que se coloca a prótese, mas pode ser com outro tipo de retalho, como, por exemplo, a retirada de tecidos da barriga, das costas”, detalha.

Para ela, a decisão de fazer ou não a reconstrução mamária tem que vir da paciente. “Se for imediatamente após a mastectomia ou não, é a mulher quem decide. O importante é que ela tenha a opção de fazer essa escolha. Tem mulheres que não querem por receio, outras não podem fazer por problemas clínicos”, pondera.

Sem condições

Ainda segundo a mastologista, a rede pública de Brasília não está preparada para toda a demanda. “As próprias condições do SUS não proporcionam a chance de fazer a reconstrução. Falta prótese, falta médico, falta centro cirúrgico, falta equipe porque não é qualquer médico”, levanta. “Isso tudo porque falta gestão, e a gente sabe que existe essa ausência e tem que ser repensada. A fila é cruel”, acrescenta.

Para ela, a construção de uma nova mama está diretamente ligada à qualidade de vida da paciente. “Os seios são uma parte do corpo que representa a feminilidade, então a autoestima é muito importante para o tratamento. Quando a mulher faz a mastectomia, ela se sente mutilada. Com certeza a reconstrução está ligada, principalmente, à melhora da qualidade de vida da mulher”, conclui.

Saiba mais

– De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer de mama não tem uma causa única. Diversos fatores estão relacionados ao aumento do risco de desenvolver a doença, tais como idade, fatores endócrinos/história reprodutiva, fatores comportamentais/ambientais e fatores genéticos/hereditários.

– Mulheres mais velhas, sobretudo a partir dos 50 anos, têm maior risco de desenvolver câncer de mama.

 

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