Fábio Magalhães
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Acreditar em milagres é uma decisão pessoal. Para alguns, a própria existência e o dom da vida, por si só, são considerados realizações extraordinárias. Foi acr editando em milagres e classificando como tal, que a doméstica Celma de Oliveira Barbosa, 24 anos, buscou forças para superar sua jornada. Mãe de duas filhas, de seis e três anos, a jovem teve sua terceira gestação neste ano. Assim como outras 12.609 mulheres brasilienses – que correspondem a 22,51% das gestantes até junho deste ano –, ela não fez o exame pré-natal e, com apenas 23 semanas e cinco dias – pouco mais que cinco meses – deu à luz uma criança prematura, de apenas 560 gramas, pouco maior que a palma de uma mão.
Não existe, no DF, campanha ou conscientização que alerte as grávidas sobre a importância de se fazer o acompanhamento médico durante a gestação. Por lei, todas as mulheres têm o direito a esta assistência. Para isso, basta procurar uma unidade básica de saúde mais próxima da residência e informar ao setor de marcação de consultas sobre o desejo em realizar o pré-natal. Em caso de atendimento negado, a gestante pode procurar a Ouvidoria da Secretaria de Saúde que funciona em todos os hospitais regionais.
De coletivo
Júlia Barbosa foi o nome escolhido para o milagre de Celma que, em condições normais, deveria estar com 37 semanas e três dias de gestação. Nascida no dia 15 de agosto, o bebê ainda está em uma incubadora na UTI Neonatal do Hospital Regional de Santa Maria, se alimenta por meio de uma sonda, em uma temperatura de 32 graus. O correto seria nascer a partir de 40 semanas de gestação.
Para nascer, as dificuldades foram muitas. Quando a bolsa se rompeu, Celma estava andando em uma avenida de Santa Maria, onde reside. Ela e o marido José dos Santos, 42 anos, foram ao hospital da cidade, mas foram informados que não havia vagas. De coletivo, eles foram até o Hospital Regional do Gama, onde a mãe foi internada e permaneceu cerca de dez dias para segurar a gravidez, pois a criança não estava no prazo de nascimento.
Júlia – que inicialmente se chamaria Vitória – nasceu, no Gama, e foi dada como morta por algumas horas. “Quando ela nasceu, coube na palma da minha mão. A doutora olhou para mim e disse que a minha filha era um aborto, pelo pouco tempo de gestação. Chorei por muito tempo achando que ela tinha morrido. Na noite deste mesmo dia, soube que ela estava sendo cuidada e fui vê-la. “Os médicos diziam que ela não sobreviveria. Eu chorava, mas meu marido sempre teve muita fé e rezava. Para Deus tudo é possível. Ela é nosso milagre”, diz.
Cuidados reduzem óbito
Até junho deste ano, 56 mil mulheres ficaram grávidas, mas somente 43.391 realizaram o pré-natal, segundo a Secretaria de Saúde. No caso de Celma, este acompanhamento ainda ia ser iniciado. Ela chegou a fazer exame de sangue para confirmar a gravidez e aguardava se chamada pelo posto de saúde local para iniciar o processo de acompanhamento da gravidez. Mas, devido a um processo infeccioso, a criança nasceu antes da hora.
De acordo com a médica pediatra do Hospital de Santa Maria, Mirian Barreto, a realização do pré-natal é essencial para a saúde da mulher e do bebê. Nesse acompanhamento, é possível identificar patologias e tratá-las precocemente. “O pré-natal é de suma importância. Podemos identificar HIV, sífilis, hepatite, toxoplasmose, entre outras doenças que descobertas desde cedo podem ser tratadas”, afirma.
No hospital, a fama de Júlia já se espalhou e encanta os servidores. A pediatra Mirian Barreto diz que a recém-nascida não apresenta nenhuma sequela e está reagindo bem ao tratamento. Porém, não há previsão de alta. “A criança, devido à precocidade, chegou com insuficiência respiratória e choque séptico. Ela recebe ventilação mecânica, atendimento multidisciplinar e todos os exames foram normais, apesar do processo infeccioso. Ela passou muito bem por esses eventos”, explicou a médica.
Sem recursos
Piauiense, Celma veio para Brasília há quatro anos, junto com o esposo José, que é baiano. Em todo este tempo a família reside em um barraco, em Santa Maria, que aluga por R$ 300. Serralheiro, o esposo sustenta Celma e as duas filhas com apenas um salário-mínimo. Em casa, a expectativa da chegada de Júlia é grande, porém, falta de tudo. “Não comprei enxoval porque não deu tempo e porque não temos condições. Agora a nossa despesa vai aumentar, mas não temos de onde tirar esse dinheiro, ainda mais que não poderei trabalhar tão cedo”, lamenta a jovem.
De acordo com a pediatra, Julia só poderá ir para casa quando estiver com a sucção habilitada. Para isso, ela fará tratamento com fonoaudiólogos. Para a mãe, que aguarda ansiosa este momento, será uma longa espera. “Quero muito poder pegar minha filha, levá-la para casa e tocar as nossas vidas”, deseja Celma.
Ponto de vista
No Hospital de Santa Maria, casos como este não são raros. Segundo a psicóloga da UTI Neonatal, Rachel Cardoso, na maioria das vezes, os partos antes do tempo ocorrem por falta da realização do pré-natal. Algumas crianças, inclusive, chegam a pesos baixíssimos. Em dois anos, Júlia foi o bebê mais leve daquele hospital. “As mães, culturalmente, não tem noção dos riscos que correm ao não fazerem o pré-natal. A gravidez, por si só, já baixa a imunidade e o ideal é que esse estado seja acompanhado. Muitas, chegam em trabalho de parto sem saberem que estão grávidas. Isso tem de ser mudado”, aponta.