Raphaella Sconetto
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Crianças, adultos e idosos. Ninguém escapa dos perigos nas vias e rodovias no Distrito Federal. Neste ano, pelo menos dez pessoas perderam a vida por atropelamento, segundo dados do Departamento de Trânsito (Detran) e do Departamento de Estradas de Rodagem. Só na semana passada, cinco acidentes com pedestres foram registrados na capital, sendo dois fatais.
De acordo com o Detran, Brasília registrou 103 atropelamentos no ano passado – 32% a mais que em 2017, quando foram 78. Até janeiro deste ano, o órgão contabilizou oito acidentes fatais. Nas rodovias distritais, o DER registrou dois casos em todo o ano de 2018 e três neste ano – ou seja, em um mês o DF teve mais de 50% dos casos de todo o ano passado.
Na segunda-feira da semana passada (18), um homem em situação de rua morreu após ser atingido por um ônibus, em Samambaia Norte. Policiais militares estiveram no local e relataram que o veículo passou por cima da cabeça da vítima. O homem não foi identificado e aparentava ter cerca de 50 anos.
Dez dias antes, em uma quinta-feira (8), um menino de quatro anos morreu atropelado no Gama. Segundo a Polícia Militar, testemunhas relataram que o garoto Lucas Davi Borges de Moura foi atingido ao correr pela rua atrás de seu cachorro, que havia fugido de casa naquele momento.
O acidente ocorreu na Ponte Alta, em uma rua atrás do Posto Rodobelo. O motorista do carro tem 19 anos e não apresentava sintomas de embriaguez. O rapaz permaneceu no local do acidente, no aguardo da PM e do Corpo de Bombeiros. O pai da criança conversava com uma pessoa em frente ao condomínio onde moram quando Lucas correu para o outro lado da rua atrás do cachorro que tinha sido adotado recentemente.
Em outro acidente, no Paranoá, na terça-feira passada (19), a vítima atropelada sobreviveu e uma ocupante do veículo morreu. A adolescente Débora Rutkoski Cavalcante, de 14 anos, estava no carro com o padastro, Eduardo Gonçalves Valadão, 40, quando ele foi desviar de pedestres e acabou batendo em uma árvore. Uma criança de 9 anos estava na parada e foi atingida pelo carro.
O motorista e a menina foram foram atendidos e transportados ao Hospital Regional do Paranoá (HRPA) conscientes, orientados e estáveis. A adolescente morreu logo após dar entrada no hospital. Segundo o boletim de ocorrência registrado na 6ª Delegacia de Polícia, o condutor informou que transitava pela via quando viu um grupo de crianças na pista e tentou evitar o acidente.
Condutor X pedestre
Glauber Peixoto, porta-voz do Detran-DF, observa que muitos acidentes são causados pela desatenção. “Principalmente a do condutor. Quando ele pega um celular no volante, ele deixa de observar a via, mesmo que por segundos. O excesso de velocidade é outro ponto. Sabemos que as vias do DF fluem bem, muitas têm velocidade de 60km/h a 80km/h. Se um pedestre foi atingido, o risco de morte é superior a 80%”, exemplifica.
No caso dos pedestres, o superintendente de trânsito do DER, Elcy Ozório dos Santos, cita o comodismo e a pressa como fatores de risco. “O DER verifica onde existe muita passagem de pedestre e implanta sinalização semafórica, faixa ou passarela, para dar mais segurança. Contudo, a gente sabe que existem casos de pessoas que se aventuram em fazer a travessia”, pondera.
Mais vítimas
- No mesmo dia da morte da adolescente de 14 anos, uma mulher de 50 anos ficou gravemente ferida após ser atropelada por um ônibus da empresa Urbi, na Estrada Parque Núcleo Bandeirante (EPNB), próximo ao Setor Placa das Mercedes, sentido Plano Piloto. A vítima foi transportada inconsciente para o Instituto Hospital de Base (IHB-DF), com suspeitas traumatismo cranioencefálico.
- Na BR-020 no sentido Planaltina, próximo a uma passarela, um homem de 88 anos foi atingido por um veículo. O motorista não sofreu nenhum ferimento. O idoso foi atendido pelo Corpo de Bombeiros para o Hospital Regional de Planaltina (HRP) com suspeita de traumatismo cranioencefálico. Porém, ele estava consciente.
O maior deve proteger o menor
Conforme o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), os veículos de maior porte sempre serão responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, terão de cuidar da integridade dos pedestres. Por isso, seguindo a lógica, os órgãos de trânsito investem em campanhas voltadas aos condutores.
“O que resta ao condutor, sabendo que em determinado trecho há escolas, igrejas ou outros pontos de aglomeração, é diminuir a velocidade e ficar atento. Por exemplo, na W3 Sul tem muito movimento de crianças e jovens. Como condutor de direção defensiva, o ideal é reduzir a velocidade”, comenta, Glauber Peixoto, do Detran.
Os motoristas, inclusive, podem ser penalizados. No caso dos pedestres, Peixoto reconhece que não é possível. “Mas tem como conscientizar. O pedestre tem que ter em mente que em um acidente ele é principal vítima, então ele tem que ser o responsável pela própria segurança”, acrescenta.
O comportamento de parte dos pedestres chama a atenção das autoridades: 40% das vítimas estavam sob o efeito de álcool e outras drogas, segundo o Detran. Muitas são pessoas em situação de rua. “Esse grupo requer uma forma especial para trabalhar. Entre outros projetos, o Detran desenvolveu o ‘Pedestre visível, Pedestre Seguro’ que melhora a visibilidade dos motoristas”, afirma Glauber Peixoto. A ação distribuiu sacolas e pulseiras aos moradores de rua, confeccionados com material refletivo e impermeável.
Nas rodovias, o superintendente do DER, por sua vez, explica que há aqueles que moram às margens e, por vezes, transitam alcoolizados ou drogados pelo acostamento. “Perdem a noção de onde estão e se colocam em risco”, resume.
Saiba Mais
- Segundo Elcy Ozório dos Santos, a expectativa é de que as passarelas da Estrutural estejam prontas no segundo semestre. As estruturas estão montadas, mas aguardam a urbanização – calçadas, acessibilidade, entre outros -para serem liberadas.
- A reportagem teve acesso a uma planilha de atendimentos do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Neste ano, o serviço já realizou 44 atendimentos de atropelamento. A maioria (39) é de acidentes envolvendo carro – seguido por moto (3), ônibus (1) e caminhão (1). Em 2018, ao todo, foram 989 atendimentos pelo Samu com vítimas atropeladas.