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Brasília

Não é apenas no dia de hoje que brasileiros se tornam Pinóquios

Arquivo Geral

01/04/2013 8h15

Quem nunca mentiu? Todo mundo já inventou uma história que não condizia muito com a realidade. E, segundo a psicóloga Ângela Branca, da Universidade de Brasília (UnB), a cultura brasileira favorece os mentirosos.

 

Para ela, as crianças são incentivadas desde cedo a mentir. “Muitos pais colocam os filhos de castigo quando contam a verdade e isso é errado”, explicou. Por isso, hoje, o Dia da Mentira perdeu um pouco da graça. “O brasileiro tem o hábito de recompensar o mentiroso”, destacou.


Pesquisa

Prova disso é a pesquisa realizada com 330 dirigentes de grandes empresas. 74% deles admitiram que o discurso oficial, normalmente, é oposto à prática. Os dados, coletados no ano passado pela pesquisadora e consultora Betania Tanure, comprovam que as mentiras são comuns na gestão brasileira.

 

Contudo, não são só os empreendedores os Pinóquios do País. “Eu minto em função da necessidade”, admitiu o engenheiro Civo Damasceno, de 33 anos. “Às vezes, a frequência é altíssima”, brincou. Para ele, a mentira serve para evitar constrangimentos e confusões. Sendo assim, completou, a mentira não é tão ruim quanto parece.

 

Enganações

O estudo indicou, ainda, que muitas das mentiras cotidianas são desculpas falsas para esclarecer problemas como atrasos e tarefas deixadas para depois. Quem concorda com isso é a salgadeira Maria dos Milagres Moura, 40. Para ela, “todo mundo tem que mentir de vez em quando para justificar uma atitude errada ou, até mesmo, escondê-la”. Ela admite já ter mentido algumas vezes, mas acredita que não há problemas, principalmente se a outra pessoa perceber que algo não condiz com a verdade e não se importar.

 

Confira as mentiras mais comuns que os pais contam para os filhos:

 

Eu volto logo!

A cena é clássica. Você tem que sair para trabalhar e seu filho começa a chorar e pede que fique. O coração fica despedaçado, é verdade. Para amenizar um pouco esse sofrimento, você diz: “Eu já volto, não vou demorar”. Logo, seu filho vai perceber a verdade e pode não acreditar mais em você.

 

Não tenho dinheiro

Basta um passeio pelo shopping para começar a ouvir os pedidos. Pode ser brinquedos ou jogos. A resposta já está pronta: “Não tenho dinheiro”. Depois você entra em uma loja para comprar um presente para alguém. E o dinheiro, de onde brotou? Não vai demorar muito e a criança vai começar a argumentar. É melhor explicar que você não vai comprar aquele presente e que ele pode pedir de aniversário ou de Natal.

 

Estou prestando atenção

Enquanto seu filho imita um super-herói, você aproveita para assistir a alguns minutos de um programa de televisão. Quando ele nota que você não reparou, logo pergunta se está prestando atenção: “Estou vendo, filho”. Aqui, a melhor saída é reservar a atenção exclusiva para a criança e evitar a resposta mentirosa.

 

Está fechado

Parque, sorveteria, loja de brinquedos… A lista dos estabelecimentos que você diz estarem “fechados” quando seu filho pede alguma coisa é enorme. Melhor aproveitar a chance e fazê-lo entender que não é a hora de brincar, comer, correr etc. Lembre-se que lidar com a frustração é, sim, importante para o desenvolvimento dele.

 

Que desenho lindo!

Nesse caso, o mais importante é elogiar a iniciativa de desenhar e aproveitar aquele momento. Ninguém espera que uma criança desenhe bem, mas se perceber que seu filho se esforçou pouco desta vez, você pode comparar com outros que ele já tenha feito e incentivá-lo a caprichar mais no próximo. Dizer “que legal” pode ser uma saída melhor.

 

O hábito pode até fazer mal para a saúde

Talvez mentir não seja mesmo um bicho de sete cabeças, já que parece ser tão comum entre as pessoas. Porém, um estudo batizado de “ciência da honestidade” revelou que o hábito faz mal à saúde.

De acordo com a pesquisa realizada nos Estados Unidos, as pessoas que reduziram as mentiras no período de dez semanas eram mais saudáveis e menos estressadas. Em contraponto, as mentirosas tiveram mais dores de cabeça e na garganta.

 

Para a psicóloga da UnB Ângela Branca, se os brasileiros não querem conviver com a mentira, devem começar a valorizar a verdade. Ou seja, talvez, em vez de Dia da Mentira, deva ser instituído o Dia da Verdade.

 

Verdades

O motorista Leidiel Jone Pereira aprova a ideia. Ele não gosta de ser enganado. “Não tenho o hábito de mentir. Acho feio, condenável”, disse. O morador da Vila Telebrasília afirmou reconhecer quando alguém está inventando uma história. “Dizem que as sobrancelhas levantam. Fico de olho para ver se consigo identificar as mentiras”, brincou.

 

Ainda de acordo com a psicóloga, nas sociedades em que a verdade é valorizada, a mentira torna-se um hábito digno de punição. “Ninguém nasce com a tendência de mentir. Isso é uma questão de aprendizagem. O ideal é simplesmente não mentir”, completou Ângela.

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