As mulheres estão levantando a voz. E quando são vítimas da violência, viagra o grito de socorro já toma o lugar do choro. Em 2008, o número de mulheres ouvidas pela Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 cresceu 32%, sendo que o maior número de ligações são do DF. Mas se o aumento da busca por ajuda significa mais conscientização, o perfil das mulheres traçado pela pesquisa expõe uma contradição e derruba o senso comum: das mulheres que relataram ter sofrido violência, 47,7% não dependem financeiramente do agressor. As dependentes somam 47,2%, enquanto outras 5,1% não informaram a situação financeira.
A Central 180, um serviço nacional que orienta mulheres em situação de violência, é vinculada à Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), da Presidência da República. Para a diretora da SPM, Kátia Guimarães, o diagnóstico
feito a partir dos atendimentos é uma importante ferramenta para conduzir novas políticas públicas. “Percebemos que a autonomia financeira da mulher não a previne contra a violência. A partir daí, o governo vai elaborar ações de valorização da mulher em outras esferas. Será um trabalho focado na autoestima”, afirma.
Segundo Kátia, independentemente da autonomia financeira, algumas mulheres convivem com a violência devido a valores como a importância da família e a esperança de que o marido irá mudar. É o caso da jovem Juliana*, 21 anos.A moça ficou sete anos casada e sofreu, ao longo desses anos, com lesões corporais deixadas pelo marido. Durante o casamento, ela trabalhou fora por cinco anos. “Eu só deixei de trabalhar quando tive filhos. Nunca dependi dele. Ele me batia, mas eu não queria ir embora por causa das crianças. Eu não tenho família aqui”, conta.
Segundo Juliana, a esperança da mudança de postura do marido também a mantinha em casa. “Ele me batia e, logo depois, dizia que me amava. Teve uma hora que cansei. Já estava cansada dele fazer essas coisas e ficar por isso mesmo. Dei um basta”, diz. Depois de anos de sofrimento, Juliana denunciou o marido em uma delegacia. Enquanto ela procurou a polícia, muitas mulheres preferem utilizar serviços como a Central 180, que em 2008 encaminhou 46,4% das reclamações às delegacias.
Informação
No ano passado, a Central atendeu 269.977 mulheres, contra 204.978 em 2007. Dos atendimentos feitos, 52,1% foram pedidos de informação – a maioria sobre a Lei Maria da Penha –, 37,8% das ligações foram destinadas à orientação sobre serviços e 9,1% foram relatos de violência. Em relação às denúncias de violências, a maioria (52,5%) relatou lesão corporal leve. Já 26,5% das mulheres denunciaram ameaça e, 5,9%, difamação.
Mas para a diretora da SPM, um fator que chamou atenção foi o número de denúncias de violências não visíveis fisicamente nas mulheres, como perseguições, violência patrimonial, injúria e cárcere privado. “O aumento dessa violência não visível é uma vitória. É a consciência de que a violência tem várias formas de atuação. As formas veladas ficavam escondidas com a omissão das mulheres”, diz.
A maioria das 24.523 mulheres que denunciaram violência são casadas com o agressor, possui um filho, sofre a violência diariamente e com risco de morte, tem entre 20 e 30 anos, reside na zona urbana, possui o Ensino Médio completo e é negra. Além disso, o uso de álcool e/ou drogas está relacionado à 57,2% das denúncias.
DF investe em orientação e serviços
O Distrito Federal foi a unidade da federação com a maior participação nos atendimentos da Central 180, realizados em 2008. O DF demandou 351,9 atendimentos para cada 50 mil mulheres.Em segundo lugar, ficou São Paulo (220,8) e, em terceiro, Goiás (162,8). Segundo Kátia Magalhães, diretora da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM), a grande procura do DF deve-se ao fato da visibilidade dos serviços e direitos da mulher nessa unidade da federação.
“O Distrito Federal teve muito investimento voltado ao atendimento de mulheres violentadas. Além disso, é um lugar prioritário para a SPM. Esse conjunto de fatores fornece mais visibilidade e as mulheres passam a denunciar”, diz. A coordenadora do Conselho dos Diretos da Mulher da Secretaria de Justiça do DF, Suely Vitorino, concorda com a análise do Governo Federal.
“Em 2008, o Distrito Federal teve um aumento enorme da visibilidade das políticas locais. Isso faz com que as mulheres saibam que não estão desamparadas”, diz. Suely informa que, no último ano, oito Núcleos de Atendimentos à Família e aos Autores de Violência Doméstica (Nafavd) foram implantados no DF. “Os núcleos são importantes porque percebemos que o combate à violência envolve todos os atores do processo. O esclarecimento e acompanhamento da família é essencial”, diz.
Atendimento ampliado
Com a implantação dos núcleos,o atendimento às famílias vítimas passou da média de 2mil anuais para 10.114, em 2008. Das regiões administrativas, Ceilândia teve o maior número de atendimentos (1.138), seguida do Paranoá (1.680) e de Taguatinga (1.308). Além disso,para este semestre, está prevista a implantação de uma rede que unifique diversos órgãos governamentais
no combate à violência, por meio de um programa de internet.
Mas para a promotora do Núcleo de Gênero Pró-Mulher do Ministério Público do DF, Laís Cerqueira, a região ainda carece de uma importante ferramenta. “O DF precisa de um Centro de Referência que funcione da forma como foi previsto. Ou seja, um lugar onde as mulheres podem obter informação e apoio para prevenir-se contra a violência”, diz. Um serviço como este teria sido
importante para Marília*, 35 anos. Ela sofreu, ao longo de três anos, ameaças verbais do marido. “Ele me trancava em
casa e ficava me ameaçando, dizendo que ia me matar. Me obrigava a dormir com ele. Ele nunca me bateu, mas eu não sabia o que fazer, com quem conversar. No dia que ele saiu de casa dizendo que voltaria armado, não aguentei de medo e fui à delegacia”, conta.