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Brasília

Mulheres estão escolhendo ter filhos na maturidade

Arquivo Geral

01/11/2012 8h45

Soraya Sobreira
soraia.sobreira@jornaldebrasilia.com.br

Além de atrasar com mais frequência a concretização do sonho da maternidade, agora, a mulher também recorre mais à reprodução assistida. Prova disso é a grande procura pelo único hospital público para atender a demanda para o tratamento de forma gratuita no Distrito Federal, o Hospital Materno e Infantil de Brasília (Hmib). A lista de espera, neste momento, é de 850 mulheres candidatas à fertilização in vitro e 160 para inseminação intrauterina. Consequentemente, o tempo de espera varia de dois a quatro anos.  

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelaram que, no DF, 1.484 mulheres deixaram para ter filhos depois dos 40 anos em 2010. No ano anterior, o número foi parecido – 1.476. Entretanto, com a dificuldade de gerar bebês nesta faixa etária, 60% delas recorreram às fertilizações assistidas.

O diretor de atenção à saúde do Hospital Materno, João Vilela, percebe que as mulheres vêm adiando tanto o sonho de ser mãe que quando se dão conta, o tempo já passou. “A vida é mais ingrata para as mulheres, porque elas passam por uma deteriorização dos óvulos. Ou seja, vão perdendo a capacidade de gerar filhos ainda cedo”, justifica. O médico alerta que quanto maior a idade para se planejar a gravidez, maiores são as chances de contrair doenças que causam a infertilidade. “Exemplos disto são os miomas no útero e a endometriose. Estas patologias dificultam a produção de óvulos”, explica Vilela. 

De acordo com o especialista, após os 40 anos, a chance de se engravidar com os próprios óvulos é de apenas 5%. E quando isso não é possível, a solução é receber óvulos de uma doadora anônima. “Para tanto, existe uma outra fila de espera, na qual a mulher pode aguardar até no máximo 50 anos de idade. Afinal, quanto mais tarde for, maior é o risco gestacional”, conta. A escolha de doadores e receptores é absolutamente sigilosa e anônima, e não é possível trazer nenhuma pessoa conhecida para doar óvulos.

O Hmib possui um banco de embriões, único no Distrito Federal, onde ficam armazenados os embriões de pacientes que estão em tratamento ou que já passaram por ele. Para isso, o casal assina um termo de consentimento livre. Os embriões congelados podem ser mantidos por até três anos. “O que sobra fica guardado, pois pode ser utilizado em outras tentativas”, informa Vilela. “Nunca são descartados”, assegura o médico. 

 

Investimento da mãe

A reprodução assistida pode ser feita por meio da técnica de Inseminação intrauterina (IIU), conhecida popularmente como inseminação artificial, ou fertilização in vitro. Para este último, o preço varia de R$ 10 mil a 20 mil por tentativa, além de remédios e exames. Acima dos 35 anos, de cada cinco pacientes, apenas duas engravidam. 

 

Para a inseminação intrauterina, o preço gira em torno dos R$ 4 mil por tentativa. “Neste tratamento, de cada cinco, uma engravida. Esta técnica é mais simples e indicada a casais mais jovens”, indica o ginecologista com formação em Reprodução Humana Adelino Amaral Silva, da Clinica Gênesis.

 

Ele diz que a maioria das pacientes é casada, mas vindas principalmente de um novo casamento, e geralmente investiram por anos na carreira profissional. “Mas há casos de reprodução independente, quando a mulher não tem um parceiro, e de casais de mulheres homossexuais”, especifica. “As mulheres devem tomar cuidado com propagandas que dizem se conseguiu engravidar depois dos 50 de forma natural. Estes casos recebem seguramente doação de óvulos”, completa.

 

De acordo com estatísticas baseadas nos atendimentos da clínica, pacientes com idade abaixo dos 40 anos têm 45% de chance de sucesso durante estes tratamentos. Até 43 anos, cai para 15%. Depois disto, é quase zero. “Em 15 anos, só tivemos um caso de gestação depois dos 44 anos utilizando os próprios óvulos da paciente. A não ser que ela receba óvulo doado”, diz. 

 

O óvulo amadurece junto com a mulher. “A idade da mulher corresponde à idade do óvulo. Se uma mulher de 50 anos recebe um óvulo de uma doadora de 20, a capacidade de reprodução é semelhante ao de um corpo jovem”, ressalta.  

 

Lados positivo e negativo

Muitas das pacientes depositam toda a fé na medicina e têm um choque quando o médico fala dos riscos da maternidade tardia. Esta avaliação é do psicólogo e psicoterapeuta do Instituto Verhum, Flávio Lôbo. “A mulher, quando passa dos 40 anos, se encontra no auge em muitos aspectos da vida, tem reconhecimento e estabilidade financeira, assim como um alto nível de estruturação. E, às vezes, quando ela se depara com a notícia de que não está no auge da reprodução, há uma frustração muito grande. E surge a pergunta: se eu tento engravidar com meus próprios óvulos ou por meio de doação? Essas decisões são um dilema, há o medo de má-formação”, conta.

 

Segundo o especialista, estudos abordam que a gravidez depois dos 35 anos apresenta como pontos positivos estabilidade, autonomia, maturidade, pais tolerantes e mais compreensíveis. E como fator negativo, menos disposição física, sentimento de culpa pelo risco da gravidez e a idealização de ter gerado uma criança frágil. “A gravidez é um desafio, afinal, é uma fase de mudanças que é difícil a qualquer tempo. Mas também envolve a questão psicossocial. Imagine uma senhora de 70 anos tendo que criar um filho adolescente”, observa.

 

Inseminação artificial X Fertilização in vitro
 
Na fertilização in vitro, o óvulo feminino é fecundado por espermatozoides fora do corpo da mulher, sendo, depois de fecundado, implantado no seu útero.
 
 
Na inseminação artificial, os espermatozoides são introduzidos no interior do útero da mulher, a fim de fecundarem o óvulo, não sendo necessária a retirada dos óvulos do seu corpo.
 
 
Na inseminação artificial intrauterina os espermatozoides passam por um “tratamento”, no qual somente os ue estão aptos a fertilizar permanecem. Feito isso, os espermatozoides são depositados diretamente no útero, após a fêmea passar por um tratamento que induz a ovulação.
 
 
Na inseminação artificial intracervical o esperma é injetado no cérvix por uma seringa. Esse método reproduz a forma como o esperma é depositado pelo pênis, no cérvix, momento da ejaculação.
 

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