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Brasília

Mortandade de peixes no Lago Paranoá ainda é mistério

Arquivo Geral

17/11/2016 7h00

Situação pode ser constatada na altura da QL 12 do Lago Sul, em um trecho de mais de um quilômetro. Foto: Hugo Barreto

Jéssica Antunes
jessica.antunes@jornaldebrasilia.com.br

Um rastro de peixes mortos na margem do Lago Paranoá preocupa quem sobrevive da pesca ou apanha os animais por lazer. Em um trecho de mais de um quilômetro na altura da QL 6/8 do Lago Sul, é forte o mau cheiro exalado pela decomposição dos bichos que se acumulam há pelo menos cinco dias na beira do espelho d’água. A causa ainda é um mistério, mas o governo investiga.

Aos domingos e feriados, Fábio William, lavador de carros de 26 anos, costuma ir à orla para pescar. Anteontem, ele se surpreendeu com a fila de peixes mortos. “Em 15 anos, nunca vi algo parecido. Quando notamos a situação, desistimos de pescar. Não sabemos o que causou essa morte em massa. Acho perigoso, mas teve quem insistiu e pegou os peixes”, conta.

Ponto de vista

Carlos Augusto Figueiredo, coordenador do curso de Ciências Ambientais da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), explica que vários fatores podem influenciar na morte dos peixes, desde lançamento de dejetos de esgoto até aumento da carga orgânica ou evento climático. “Uma chuva ou vento fortes podem ter liberado a carga orgânica sedimentada no fundo do lago. Em via de regra, é isso o que acontece”, aponta. De acordo com o especialista em conservação de peixes, quando a matéria orgânica se torna disponível, os micro-organismos consomem mais oxigênio, restringindo aos animais. Em uma região com pouca circulação, o fenômeno pode ficar restrito a apenas uma região.

Para ele, é necessário que autoridades e comunidade entendam a importância da preservação: “O lago é nosso e são peixes que vão demorar anos para aparecer por aqui. Tem gente que depende disso para viver, é triste”.

Osmar Rodrigues, 65, vive da pesca no Lago Paranoá há mais de 20 anos. Há cinco dias, porém, não tira um único peixe da água. Foi quando, segundo ele, os animais começaram a morrer. “Não confio”, explica. “Toda a orla está com animais mortos e o cheiro de carniça só aumenta. Todos morreram de uma vez, do dia para a noite. Não dá para entender”, lamenta.
Para o pescador, a combinação da seca com a poluição pode explicar o caso. “Desde os anos 1990 eu não via algo assim. Naquela época foi horrível. Tenho medo de ter de mudar de profissão”, ressalta.

Foi justamente no início da década de 1990 que o Lago Paranoá viveu seu pior momento. As estações sobrecarregadas eram incapazes de tratar o esgoto da população, que só crescia. Ali, o mau cheiro, a fauna morta e a água poluída passaram a compor a paisagem. Naquela época, centenas de peixes mortos boiaram nas margens, e a água, declarada como imprópria para banho. Desde então, muita coisa mudou e, em dezembro do ano passado, a Caesb conseguiu licença ambiental para captar água para consumo.

“O lago tem um volume de água muito grande e não há motivo para peixes morrerem naturalmente em grandes quantidades”, opina Francisco Baia, presidente da Associação dos aquicultores e pescadores artesanais da Região Integrada de Desenvolvimento do DF e Entorno (Hajapeixe).

De acordo com ele, normalmente, isso acontece quando algum produto tóxico aos animais é lançado por esgotos clandestinos de residências e clubes localizados na margem do espelho d’água. “Tem que investigar o que é e de onde partiu”, pede.

Versão oficial

A Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb) encaminhou técnicos ao local. Segundo a empresa, nenhum vazamento de esgoto das redes que pudesse justificar a morte dos peixes foi identificado. A Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico (Adasa) também enviou uma equipe, que fez coleta da água para análise e aguarda o resultado para orientar providências, se necessárias.

O Instituto Brasília Ambiental (Ibram) informou que a fiscalização do órgão já iniciou a apuração dos fatos para esclarecer o que pode ter provocado a morte dos peixes. A região com maior incidência passou por uma operação de desobstrução pela Agência de Fiscalização (Agefis) em setembro, mas o órgão nega que qualquer ação recente tenha acontecido.

Memória

  • Há cinco anos consecutivos, a fauna do Lago Paranoá sofre. Geralmente, ocorre com vazamento de produtos tóxicos. Em julho deste ano, um vazamento de lodo da estação de tratamento de esgoto da Caesb atingiu o Lago Paranoá. O material, altamente poluente, transbordou durante meia hora de um dos tanques da estação de tratamento na L4 Norte durante greve dos servidores da empresa.
  • No ano passado, uma nódoa de óleo envolveu uma embarcação usada como espaço de festas no Setor de Clubes Sul. Na época, não foi possível precisar a origem do derramamento. Em 2014, uma mancha de óleo de 180 metros contaminou por mais de uma semana após vazamento em uma caldeira de um restaurante do Palácio do Planalto. Em 2013, a origem de uma cortina de óleo de três metros foi a caldeira do Hospital Regional da Asa Norte, o que já havia acontecido no ano anterior.

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