Francisco Dutra
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Da mesma forma como outras mães de pessoas desaparecidas na ditadura militar, Maria Rosa Leite Monteiro, 84 anos, morreu sem ter tido o direito de enterrar o próprio filho. Mãe de Honestino Guimarães, líder estudantil da Universidade de Brasília (UnB) desaparecido aos 26 anos em 1973, Maria Rosa dedicou grande parte da vida na busca pela verdade dos fatos ocorridos durante os anos de chumbo no Brasil. Ela faleceu na madrugada de ontem, em função de complicações no estado de saúde, logo após ter sido submetida a uma cirurgia em um hospital particular.
Nos últimos quatro anos, Maria Rosa havia adotado um estilo discreto de vida. Debilitada, ela ainda sofria com o agravamento do Mal de Alzheimer, uma grave doença degenerativa que, entre outros problemas, provoca a perda da memória. Era um quadro preocupante para a família. A situação, no entanto, não apagou a história de luta pela verdade de Maria Rosa. “A coragem dela me marcou. Ela nunca teve medo de colocar e debater suas revoltas. Minha avó foi um ícone que encorajou a luta de outras famílias. E a dor de ter um filho desaparecido é muito grande, ainda mais para uma mãe”, comentou Mateus Dounis Guimarães, 26 anos, neto de Maria Rosa e sobrinho de Honestino.
Servidor público, Mateus também é participante do Comitê pela Verdade, Memória e Justiça do Distrito Federal. Segundo o jovem, a imagem da avó era a de uma mulher forte e de ideias firmes. “A luta dela foi inspiradora. Após o processo de redemocratização, da Lei da Anistia, lembro que ela foi muito crítica porque muitas pessoas começaram a esquecer da coletividade e passaram a pensar apenas em resolver problemas pessoais ou questões partidárias”, explicou.
Para o neto, foi muito triste saber que a avó morreu sem ter visto a história de Honestino ter um ponto final.
Atualmente, o Governo Federal vem trabalhando em um processo de tentativa de esclarecimento dos casos do período da ditadura. “A presidenta Dilma Rousseff diz que não é para as pessoas buscarem revanchismo, mas para as famílias de desaparecidos, insinuar que elas querem revanche é uma afronta. Ninguém quer ver um torturador em um pau de arara. O que queremos é justiça. Meu tio, como tantos outros, foi perseguido, sequestrado, torturado, mantido em cárcere privado, assassinado e teve o corpo ocultado”, declarou Mateus.
Maria Rosa marcou seu processo de luta por esclarecimentos do período da ditadura ao publicar o livro “Honestino, o bom da amizade é a não cobrança”. No texto, ela sensibilizou leitores ao contar a história do desaparecimento do filho utilizando o ponto de vista e argumentos de mãe.
Comissão da memória
O historiador da UnB Daniel Faria é membro da Comissão de Memória e Verdade Anísio Teixeira. A instituição tem por objetivo trazer à luz os esclarecimentos dos casos ocorridos com alunos e professores da instituição naquele período. Faria participou da organização de um evento em homenagem a Honestino que contou com a participação de Maria Rosa. Na ocasião, o historiador aproveitou para gravar uma entrevista com ela. Segundo o especialista, a morte de Maria Rosa é mais um desdobramento do regime militar.
“Para Maria Rosa, foi uma violência ter morrido sem poder sepultar o próprio filho. A morte por si só é dolorosa, mas é pior quando não se sabe onde e quando. Mas não podemos nos esquecer de que existem outros casos”, ponderou. Faria diz que a falta de esclarecimentos sobre a ditadura alimenta uma perigosa política de esquecimento.