O governo de Brasília anuncia que agora a residência oficial de Águas Claras está aberta à visitação pública agendada. O programa é denominado “Roac Portas Abertas” – Roac, que parece o som que o sapo emite, é a sigla burocrática da mordomia.
Mas em vez de abrir o melhor mesmo era fechar as portas da “residência oficial”. Não tem sentido manter uma residência para o governador em uma área imensa, com um custo altíssimo de manutenção e pessoal, inclusive segurança.
O governo tem três boas casas no Lago Sul que dariam perfeitamente para moradia e atividades de representação do governador. Uma está ocupada pela Secretaria de Planejamento, outra é subutilizada pela Casa Civil e a terceira é a residência oficial do vice-governador, que continua morando na Ceilândia.
Manter a residência em Águas Claras, em tempos de contenção de gastos, chega a ser um acinte.

Rarafela Felicciano/Cedoc
Privilégio que vem de longe
Nos anos 1960 a residência do presidente da Novacap era na granja-modelo de Águas Claras. Esse era, na época, o segundo cargo mais importante na então Prefeitura do Distrito Federal. Os prefeitos moravam na granja do Riacho Fundo. Só depois é que Águas Claras passou a abrigar os prefeitos e governadores.
Com o tempo, Águas Claras deixou de ser granja e passou a ser mordomia cercada de vegetação e pomares. Construíram churrasqueira, campo de futebol, quadras esportivas, alojamentos para seguranças e empregados, instalações para escritórios e salas para reuniões.
No governo de Agnelo Queiroz foram feitas muitas reformas e foi construído um grande salão e outro, menor, para reuniões e eventos.
Obras caras e dispensáveis.
Boas ideias foram abandonadas
Antes de assumir, o governador Rodrigo Rollemberg pensava em destinar a enorme área da residência oficial para projetos ligados à saúde, à educação ou à reeducação de jovens. Mas, não se sabe exatamente por que – pois ele nunca explicou o motivo –, acabou mantendo lá a residência oficial.
A casa e as instalações são usadas para receber convidados e integrantes do governo em eventos, almoços ou jantares às custas dos cofres públicos. Nos prédios ao lado são realizadas reuniões de governo e seminários.
Nada que não pudesse ser feito no Buriti, no centro de convenções ou em uma casa do Lago Sul, com custo bem menor.
Só pretexto para legitimar
A Roac tem até um site próprio, de péssima qualidade na forma e no conteúdo, no que já é possível visualizar. Nele, há informações ligeiras sobre a origem da residência, dados totalmente dispensáveis e algumas bobagens. É dito, por exemplo, que se trata de “um ambiente que revela a história de Brasília”. Na verdade, não há nada, ali, que conte algo da história de Brasília.
Diz também que o local tem “dimensão política ao abrigar o governo da capital do país”. Quem abriga o governo é o Palácio do Buriti. Águas Claras é apenas uma extensão da sede, para maior conforto dos governadores. E daí a ter dimensão política vai uma longa distância.
A impressão que passa é que foram inventados motivos para as “visitas” ao local apenas para justificar a caríssima manutenção de uma mordomia dispensável e fora de época.
Otimismo ou enganação?
Tem gente no governo de Brasília dizendo que são esperados 70 mil espectadores em cada um dos 10 jogos de futebol olímpico que serão disputados na cidade. Ou seja, Mané Garrincha lotado, como só se viu na Copa do Mundo.
É interessante pensar que alguém possa acreditar mesmo nisso. Ou seja, lotação completa para assistir o Iraque jogando com a Dinamarca, a Coreia do Sul com o México ou mesmo o Brasil contra o Iraque ou a África do Sul. E não são as seleções principais, são as olímpicas, formadas com enorme dificuldade.
A Argentina, por exemplo, vai jogar no Mané contra Honduras. Mas, assim como outras seleções olímpicas, os argentinos não estão conseguindo sequer convocar 18 jogadores para o torneio.
Vai que dá certo!
Na onda de otimismo ou enganação a respeito das sete partidas de futebol masculino e três de futebol feminino em Brasília, há quem diga que a cidade arrecadará R$ 156 milhões com os jogos. Os R$ 32 milhões gastos pelo governo com as Olimpíadas, assim, se justificam.
Para quem acredita em 70 mil espectadores em cada jogo, faz sentido. Mas só para quem acredita mesmo nisso.
Irresponsáveis, como já se sabe
Já é rotina: duas leis aprovadas pela Câmara Legislativa foram declaradas inconstitucionais pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal. Ambas por vício de iniciativa, o que quer dizer que teriam de ser apresentadas pelo Executivo, e não por distritais.
Muitas vezes os deputados são advertidos por assessores de que estão aprovando leis inconstitucionais, mas geralmente desprezam os avisos para ficar bem com os segmentos beneficiados por seus projetos.
As leis são aprovadas, eles faturam politicamente e depois colocam a culpa nos procuradores e desembargadores atentos à inconstitucionalidade.