A saudade do barraco onde morou ao longo de dez anos com o marido e duas filhas é grande para a dona de casa Ivonete de Oliveira, nurse 28 anos. Há cinco dias, cure a família dela e outras 26 foram obrigadas a deixar a invasão na encosta de um morro na quadra 5 da região administrativa do Varjão.
“Todo mundo sente saudade quando vai olhar o lugar”, admite Ivonete. “Só era ruim porque a chuva molhava tudo”, pondera. A queda de uma árvore na encosta, ocasionada por um temporal no primeiro dia do novo ano, destruiu três casas de madeirite. Após inspeção, a Defesa Civil definiu o local como área de risco de desabamento e emitiu parecer condenando a habitação no ponto.
Até o final do mês, os desabrigados permanecem alojados na creche comunitária ou na Escola Classe do Varjão e contam com o apoio da Associação de Moradores e da Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest/DF).
Cada sala de aula virou uma pequena residência, que comporta todos os utensílios domésticos das famílias. Camas, armários, fogões, geladeiras, sofás, televisões, aparelhos de som, panelas e animais de estimação são alguns dos itens que compõem o ambiente escolar por enquanto.
Na creche comunitária, a cozinha está aberta para o preparo individual da comida dos moradores. O banheiro, dividido entre todos, é usado também para a lavagem de roupas. A dona de casa Janaína Alves Guimarães, 23 anos, aproveitou o sono do filho na manhã de ontem para lavar roupa e estender no quintal da creche.
Para ela, as condições do abrigo são melhores que a do barraco onde vivia com o marido, o bebê e a cunhada. “Lá a gente convivia com bicho, cobra, rato”, conta Janaína. “Do jeito que a água descia do morro, entrava em casa e ficava tudo alagado”, recorda.
A vizinha de sala, Ana Pereira, 38 anos, concorda que a rotina está mais tranquila. “Aqui está muito melhor, apesar de ser provisório e estarmos deslocados”, destaca. Ana também afirma que todos os moradores se conhecem e colaboram uns com os outros.
Celiane da Silva, 26 anos, divide uma sala de aula da Escola Classe com seis pessoas e dois cachorros. Além dela, estão abrigados o marido, três sobrinhos, a irmã e o cunhado, que vieram do Maranhão em setembro passado e estão desempregados.
As reclamações são direcionadas ao volume da TV do vizinho e, princioalmente, à falta de segurança, apesar de haver um guarda tomando conta da escola. “As portas não têm tranca, a gente nem dorme direito à noite com medo de alguém entrar”, reclama. A solução é prender a porta com alguns móveis.