Raphaella Sconetto
raphaella.sconetto@grupojbr.com
“Meu filho não. Acorda, meu bem”. Aos gritos, Vera Lúcia Rodrigues, 41 anos, caminhou ao lado do caixão do filho de 19 anos e o enterrou. Milton Junio Rodrigues de Souza foi esfaqueado na madrugada de terça-feira (15), não resistiu aos ferimentos e morreu no chão da Rodoviária do Plano Piloto. O sepultamento ocorreu na tarde desta quarta-feira (16) no cemitério do Gama.
A fatalidade deixou amigos e familiares sem palavras. Todo o velório foi feito em silêncio. Apenas se ouviam as lamentações da mãe e choro dos presentes. Antes de o caixão ser levado, a mulher chegou a passar mal. Uma única oração foi feita e, antes do enterro, aplausos encerraram o rito.
Outro fator que chamou a atenção foi a quantidade de jovens. Entre eles, Ícaro Carlos de Souza, 19 anos, que estava no terminal com Junio. Abalado, ele relembrou os momentos vividos naquela madrugada. “Saímos da festa e fomos para a rodoviária. Lá, compramos um lanche e sentamos perto do terminal do BRT para comer, só que o segurança falou para a gente sair, e fomos sentar na escada”, lembra.
“Na escada tinha um mendigo. Ele pediu o isqueiro, que era meu e eu que emprestei. Só que ele não quis devolver. Aí meu amigo (um terceiro jovem que acompanhava os dois) perguntou se ele não iria devolver e ele disse que não”, acrescenta.
Nessa hora, o trio percebeu que o morador de rua portava um alicate e um menor de idade caminhava em direção a eles. “Aí chegou o outro cara e perguntou para o mendigo se a gente estava mexendo com ele, e ele disse que sim”, aponta. O terceiro jovem seguiu em direção ao posto policial da Polícia Militar para pedir ajuda, enquanto Ícaro aproveitou e foi ao banheiro. Quando retornou, viu o amigo sendo agredido. “Ele foi para cima do Junio. Vi que ele tentou se defender com a mochila, mas não deu”, lamenta.
O jovem conta que, apesar de haver mais pessoas no local, ninguém o ajudou para pedir socorro. “Tinha muita gente da limpeza em volta. Eu que tive que ligar. O socorro demorou 20 minutos para chegar”, diz.
Para ele, o que fica são lembranças. “Nos conhecemos há dois anos. Era uma pessoa muito querida e alto astral”.
- Myke Sena/Jornal de Brasília
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- Mãe de jovem morto a facadas não quis falar com a imprensa, mas família alega que ela não acredita na morte do filho. Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília
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Mãe está desnorteada
Uma das primas do jovem, a estudante Thaís Ângelo, 21, diz que a família está completamente abalada. “Estamos sem acreditar. Era uma pessoa tão nova, tão boa. Como pode alguém tirar a vida do outro por causa de um isqueiro?! Ele estava com tantos planos”, lamenta. Ela descreve o primo como brincalhão, extrovertido e alegre.
Os pais de Junio preferiram não dar entrevista. Conforme Thaís, os dois não conseguem falar. “A mãe está muito abalada. Pergunta por ele o tempo todo, pede para ligar para o celular pra ver se ele atende. Ela não está acreditando”, diz, chorando.

Thaís, prima de Milton Junio Rodrigues de Souza, 19 anos, morto a facadas na madrugada de terça-feira (15) na Rodoviária do Plano Piloto. Foto: Myke Sena/Jornal de Brasília
A mãe do jovem, Vera Lúcia, estava no interior da Bahia, cuidando do pai que é idoso, quando soube da morte do filho. A mulher chegou em Brasília nesta madrugada.
A prima ainda critica a atuação das polícias Civil e Militar. “Ninguém nem avisou a gente da morte. A gente foi avisado pela mãe do amigo que estava com ele. Não sabemos de nada que está acontecendo”, destaca.
Procurada, a Polícia Civil informou que as investigações estão em andamento e que, até a publicação desta matéria, não havia novas informações para repassar à imprensa. “A autoridade policial irá se manifestar no momento oportuno”, informou, apenas, a Divisão de Comunicação da corporação.
Justiça
Para a família, o que resta, além das lembranças, é a sede por justiça. “Não pode ficar assim. A gente quer que o responsável pague pelo que fez”, enfatiza a estudante.
Já para a tia do garoto, a faxineira Patrícia da Conceição Souza, 41, o caso de Junio não foi o primeiro e nem será o último. Ela pede por mais segurança. “Está terrível. Tanto que na quadra em que a gente mora não se pode nem sair direito”.
Milton Junio Rodrigues de Souza nasceu e foi criado no Gama. Ele morava com a mãe, pai e irmão, no Setor Leste.

Milton Junio, assassinado na Rodoviária do Plano Piloto. Foto: Reprodução/Facebook
Relembre
Junio, como era conhecido entre os amigos, voltava de uma festa que aconteceu no Setor Bancário Norte, no bar Outro Calaf. Na rodoviária, ele estava acompanhado de mais dois amigos, quando começaram a discutir com um menor de idade em situação de rua por conta de um isqueiro. Revoltado, o adolescente desferiu as facadas e roubou os pertences do jovem. Junio, como era conhecido entre os amigos, chegou a ser socorrido pelo Corpo de Bombeiros, mas não resistiu aos ferimentos e morreu no local.




