Manuela Rolim
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“Foi amor à primeira vista”, lembra Angélica Ribeiro Reis sobre o primeiro encontro com o crack. Mas parou por aí. Da segunda dose em diante, o gosto ficou amargo e aquela satisfação inicial deu lugar ao desejo – quase sempre vencido – de largar o vício. Três anos, cinco meses e alguns roubos, internações, tiros, facadas e detenções depois, ela comemora o fato de estar limpa “só por hoje”.Aos 33 anos, sua história admitiria outras várias protagonistas. Atualmente, das 623 mulheres presas no DF, 314 estão nessa condição por tráfico de drogas, informa a Secretaria de Segurança. Esta reportagem inicia uma série sobre mulheres no mundo das drogas.
Mãe de quatro filhos, Angélica teve contato com as substâncias – lícitas e ilícitas – muito antes da primeira gestação. Aos sete anos, provou bebida alcoólica. Aos 14, experimentou maconha e, na sequência, a cocaína. Apesar do consumo acontecer na rua, seu maior exemplo estava dentro de casa. “Vim de uma família completamente desestruturada. Meus pais eram alcoólatras e ambos morreram muito novos por causa do vício. Minhas irmãs mais velhas também usavam droga, mas conseguiram parar. Eu, não”, relata.
A situação piorou depois que ela ficou órfã. Com a perda da mãe, um sentimento de culpa a deixou emocionalmente vulnerável. “Meus pais estavam sempre bêbados. Consequentemente, as brigas eram diárias. Até que optaram pela separação e eu fui morar com ele. Ela já não conseguia mais cuidar de mim”, conta. Antes de sair de casa, porém, Angélica falou para a mãe que iria embora se ela não parasse de beber. “Mesmo assim, ela disse que insistiria no vício até morrer. Foi o que aconteceu”, completa. Na época, ela tinha 11 anos. “Por muito tempo acreditei que a morte da minha mãe era responsabilidade minha. Carreguei essa culpa e usei isso contra mim”, acrescenta.
Dois anos depois, a menina também perdeu o pai para o álcool e foi morar com as irmãs, período que marcou o início do uso de entorpecentes. Aos 16, teve a primeira filha e parou de estudar. Quando a criança completou três anos, Angélica já não conseguia mais assumir essa responsabilidade. “Fui morar na rua e a deixei com a minha irmã. Já usava tudo, menos o crack”, diz.
Aos 18, ela teve a segunda filha e, aos 23, o terceiro. Na rua, onde morou por quatro anos, também se casou com o pai das crianças, que compartilhava do mesmo vício. “Fiquei esse tempo todo sem vê-los. Deixei os mais novos com a minha família, assim como fiz com a primeira. Nunca usei droga dentro de casa. Sempre pensei que seria uma dor menor para eles eu estar na rua. Meu maior medo era fazer dívida com traficante e prejudicar as pessoas que eu amava”, declara.
Não demorou muito para Angélica ter contato com o crack. Foi por meio de um amigo que roubava com ela para conseguir dinheiro e alimentar o vício. “Ele sempre ficava me devendo porque eu não fumava crack e ele sim. Um dia o chamei para usar de novo e ele recusou. Disse que não queria mais ficar em dívida comigo. Sabe o que eu fiz? Virei para ele e disse: ‘hoje, vou te fazer companhia'”, relata.
Do estado de euforia às alucinações
Angélica lembra da primeira sensação ao provar o crack. “Foi maravilhoso. Não quis mais saber de outra droga. Nada mais fazia o efeito que eu queria. A pedra me deixou agitada, com energia. O problema é que isso só aconteceu na primeira dose. Na segunda vez, os efeitos foram medo, paranoia e alucinações. Um verdadeiro terror”, afirma. A substância a tirava de sua realidade.
“Era o que eu queria. Não conseguia olhar para trás e ver o rastro de destruição que tinha deixado”, completa.
Sempre em Ceilândia, Angélica morou na rua até os 27 anos. “Fumava dez gramas de pedra por dia e passava quase dez dias sem dormir e comer. Ainda misturava com bebida alcoólica. Cheguei ao ponto de beber álcool de posto”, lembra. Ela já queria largar aquela vida, mas não conseguia sozinha. “Cheguei ao fundo poço. Me vi dentro de um bueiro, com uma grande quantidade de droga no colo e muita dor na perna porque tinha sido baleada no dia anterior. Comecei a chorar e decidi parar”, explica. O tiro aconteceu durante briga após o roubo de um carro perto do ponto de tráfico. “Acharam que tinha sido eu e saíram disparando”.
Apesar dos riscos, a ex-usuária confessa que a rua era muito atrativa. “Era difícil me desvincular. Eu gostava daquilo. É uma doença física, mental e espiritual. Cheguei a pesar 28 kg com 1,60 m de altura”, completa. Nesse momento, decidiu ligar para uma amiga e pedir ajuda. Angélica ficou seis meses internada em uma clínica em Brazlândia. “Foi lá que conheci o programa de 12 passos para largar o vício. Reaprendi a viver”, ressalta.
A recaída, porém, foi inevitável. “Foi depois que saí da clínica. Eu queria tudo muito rápido. A aceitação dos meus filhos, um emprego legal, dinheiro para pagar o aluguel, e não tinha nada. Fiquei com raiva de mim mesma e procurei de novo o crack. Saí do trabalho de doméstica, parei num bar, tomei um copo de cerveja e fui comprar uma pedra. Não estava satisfeita, queria mexer com gastronomia. Não conseguia me ressocializar”, lamenta.
Foram mais nove meses na rua. “Minha consciência gritava: ‘Perdeu de novo’. A vergonha era enorme. Nesse período, fui presa roubando uma loja para vender os produtos e comprar droga. Passei a noite na delegacia e fui levada à Colmeia. Isso já tinha acontecido, mas sempre me liberavam. Achavam que eu era menor de idade”.
A prisão também não foi suficiente para fazer Angélica deixar o crack. Assim que saiu, ela fumou mais uma vez. “Quando passei por aquele corredor, pensei que fosse meu fim. Aliás, a prisão é o destino de qualquer pessoa que opta pelo tráfico. Passei pouco tempo detida e saí de lá direito para a boca. Fui comprar mais crack”, relata.
Dias depois, Angélica parou de vez e por conta própria. “Acho que tive um lapso de sanidade. Estava no mesmo bueiro e pensei nos meus filhos. Quando perguntassem para eles sobre a mãe, o que responderiam? Que morreu de overdose ou assassinada? Não queria isso”, declara.
Versão oficial
Segundo a secretaria de Saúde, 100 servidores trabalham nas sete unidades de saúde prisional. A pasta destaca ainda que as especialidades são: médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, cirurgiões dentistas, técnicos em saúde bucal, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, psicólogos e assistentes sociais. “Além de outros dois profissionais das áreas de psiquiatria e infectologia que atuam em todas as unidades e cumprem expediente de segunda a sexta-feira”, completa o órgão por meio da assessoria.
Já a Secretaria de Segurança Pública informa que a unidade prisional localizada no Gama (Colmeia) conta com 954 vagas, incluindo a ala de tratamento psiquiátrico. “Com essa capacidade, sobram vagas na penitenciária. Isso ocorre porque, em setembro do ano passado, a pasta inaugurou dois blocos na penitenciária, com 400 vagas, ao todo”, finaliza.
Ponto de Vista
Segundo a defensora pública e mestre em Direito e Políticas Públicas pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub) Andrea Souza Tavares, atualmente, 65% das mulheres presas no Brasil estão nessa condição por tráfico de drogas. “Não significa dizer que são todas dependentes químicas. Pelo contrário, normalmente, elas ocupam as posições mais vulneráveis do tráfico e, por isso, acabam entrando nesse meio porque trabalham como ‘mulas’, fazendo o transporte da droga ou por influência dos companheiros”, explica.
Andrea ressalta que a Defensoria Pública tem um núcleo de saúde específico para essa questão. No entanto, o tratamento não contempla mulheres encarceradas. “Cabe ao governo e à Secretaria de Segurança Pública pensar nessas mulheres. De fato, faltam estrutura, verba, servidores e viaturas, mas também existe muita falta de vontade. Infelizmente, a defensoria não tem autonomia para isso. Fazemos encaminhamentos para os usuários que desejam largar o vício, mas todos estão em liberdade”, completa.
A defensora acrescenta ainda a influência da droga na criminalidade. “Essas mulheres roubam para alimentar o vício. O Estado precisa dar condições para que elas saiam da penitenciária melhores do que entraram e não o contrário”, conclui.