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Brasília

Menor acusado de matar professor Guilherme se entrega

Arquivo Geral

07/05/2014 9h12

Renan Bortoletto e Jéssica Antunes

redacao@jornaldebrasilia.com.br

Aos 13 anos, ele roubou e matou o professor Guilherme Moura de Jesus, de 28 anos, com um tiro na cabeça, em Planaltina. Quatro dias depois do crime, foi à delegacia confessar a autoria do assassinato. Agora, o menino está apreendido, à espera da definição de seu destino. Chorosa, a mãe do menor avalia que a apreensão foi uma consequência justa e afirma, categórica: “Sou a favor da redução da maioridade penal”.

A mãe  diz que quer  que o filho pague pelo que fez. Mesmo assim, acredita que a criança ainda não tem noção da gravidade de sua atitude. Deitada no  carro, na delegacia, tenta fazer o que não consegue desde o dia do crime: dormir.

Tremendo e entre lágrimas, ela conta que o filho nunca apresentou atitudes agressivas “Estamos com os pés fora do chão, parece um pesadelo. Ele sempre foi calmo, nunca se envolveu em brigas, é um bom menino. Nunca imaginaríamos!”, disse, enquanto enxugava uma lágrima. “Há dois anos ele parou de estudar e começou a ficar muito tempo na rua. Foi quando os problemas começaram. Tentei fazer ele voltar, mas o Conselho Tutelar não me ajudou em nada. Neste ano, consegui fazê-lo voltar à escola”, observou.  

Temor por represálias

A mãe do menor, que não quis ser identificada, conta que nunca viu o filho usar drogas ou andar armado, mas teme represálias. “Eu queria que o governo me ajudasse e o colocasse em algum lugar que ele possa estudar e virar um cidadão de bem”, destacou. ”Não quero que ele volte pra casa, pelo menos não nesse momento. Quero que passe um tempo porque eu tenho muito medo de o fazerem algum mal. O acidente aconteceu muito perto de casa e não sei o que podem fazer com ele”, confessou, apertando as mãos trêmulas contra as pernas.

Internação

Grávida do quinto filho, ela continuava a esperar a ordem do juiz na porta da DCA, que decidiu pela internação. Abalada, ela destacou que o menor está arrependido e pede: “Quero que ele fique em algum lugar como um internato, que  possa refletir no que fez, na gravidade… Ele tirou uma vida!”

Revólver comprado para se defender

Depois de passar dois dias longe de casa, o adolescente teria confessado à mãe que   praticou o crime. Para a delegada-chefe da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA I), Mônica Ferreira, o menor teria dito que comprou o revólver “para se defender de uma guerra contra outro grupo de Planaltina”. A DCA pediu a internação provisória do menor, que responderá por ato infracional análogo a latrocínio (roubo seguido de morte) e pode ficar internado em uma unidade de recuperação por um período de seis meses a três anos.

A polícia afirmou, porém, que este não é o primeiro ato infracional praticado pelo adolescente. Em 2013, quando ainda tinha 12 anos, o menor foi apreendido por furto. De acordo com o delegado da 16ª DP (Planaltina), Aelio Caracelli, o pai do menor também está preso.

Reação

O garoto confessou que queria apenas roubar o celular da vítima, que fazia uma caminhada na Vila Vicentina. “Ele abordou a vítima e pediu o celular dizendo que estava com um revólver preso à bermuda e fazendo gestos. O professor disse que só ia retirar algo do celular e entregaria e, segundo o menor, foi quando ele reagiu e deu início a uma luta corporal. Certamente, a vítima não acreditou que ele estava armado, já que ele apresenta porte físico de criança”, disse a delegada Mônica.

Disparo

Em seguida, o menor teria conseguido tirar o revólver preso à bermuda e efetuou um único disparo na nuca do professor. “Os dois caíram em cima da bicicleta do adolescente, e neste momento ele conseguiu sacar a arma e atirou. Inclusive relatou à polícia que puxou o gatilho com o polegar”, completou.

Com a bicicleta quebrada, o menor fugiu a pé e não voltou para casa. A arma do crime, um revólver calibre 32, ainda não foi encontrada. “Ele contou que jogou a arma em um matagal e não disse onde”.

Não há outro menor envolvido

Familiares do professor morto acreditam que um segundo menor teria participado da ação em Planaltina. “Nós temos testemunhas, pessoas que afirmaram que um menino com idade de 11 anos participou. Nós queremos que tudo seja esclarecido, exigimos uma investigação melhor por parte da polícia”, sustentou a tia da vítima, Marta Rosa de Moura.

Para ela, a atitude da mãe ao entregar o filho é “correta” e também “o mínimo que ela poderia fazer”. “A gente fica um pouco mais aliviado não só pela família, mas também pela sociedade.   Guilherme era um homem de bem, educado e idolatrado. Ela também é mãe e deve ter entendido a dor de perder um filho. Sei que deve ser duro entregar um filho à polícia, mas ela agiu corretamente. O histórico dele mostra que é problemático, ele precisa ser abraçado pelo Estado”, considera.

Hipótese descartada

A hipótese de que um outro menor teria participado da ação foi totalmente descartada pela investigação. “Falou-se muito disso, principalmente na região onde ele mora, mas não há uma outra pessoa na cena do crime. Inclusive, a mãe disse que apresentou o filho por ter ficado com medo de que alguém fizesse algo contra ele”, garantiu o delegado Aelio Caracelli.

Adolescente pode voltar às ruas em 45 dias

Apesar de a Delegacia da Criança e do Adolescente ter pedido a internação provisória por 45 dias do menor, o adolescente pode voltar às ruas bem antes do previsto. Tudo porque 45 dias podem ser insuficientes para que a Justiça determine sua sentença. Caso isso aconteça, ele será automaticamente liberado da unidade de recuperação e só será apreendido novamente quando houver uma decisão da Justiça.

A delegada-chefe da Delegacia da Criança e do Adolescente (DCA), Mônica Ferreira, afirmou que dificilmente essa sentença sairá antes do término da internação provisória do menor. 

“Tudo vai depender da agilidade do processo e também de reunirmos provas suficientes. O fato de não termos encontrado a arma usada no crime também pode dificultar”, explicou. Ainda que seja internado em uma unidade de recuperação, o menor pode ser liberado após os primeiros seis meses se apresentar bom comportamento.

Debate

A  discussão a respeito da punição de menores infratores foi levantada pelo Jornal de Brasília  nos últimos dias. Enquanto tramita no Congresso uma série de projetos que podem modificar as leis, especialistas e a população divergem quanto à redução da maioridade penal.

Saiba mais
 
Se fosse maior de 18 anos, o responsável pela morte de Guilherme poderia ficar preso por até 30 anos. Já o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) prevê como punição desde a advertência e obrigação de reparar o dano, prestação de serviços à comunidade (em casos mais simples) até a liberdade assistida, inserção em regime de semiliberdade ou internação.
 
Perante a lei, se o menor tivesse 12 anos incompletos, não haveria nenhum tipo de punição a não ser um acompanhamento pelo Conselho Tutelar e um estudo de sua vida pessoal, bem como medidas protetivas. A internação é possível a partir dos 13 anos.
 
Depoimento da mãe
 
“Ele apareceu em casa dois dias depois do acidente, para que se passassem  as 24h e ele pudesse fugir do flagrante. Quando ele chegou, conversei com ele, mas estava muito assustado. Ele se prontificou a se entregar. Acho que ele não tem noção do que fez e precisa refletir. 
 
Ele me disse que não tinha intenção nenhuma de matar o cara, mas eles lutaram. Foi quase por legítima defesa, tanto que foi um tiro só. Nunca o vi andar armado ou usar drogas. Identifiquei a bicicleta e quis conversar com ele e ajudar a polícia. Quando ele aparecesse, eu o apresentaria à polícia. Eu fiquei com medo por ele, de alguém fazer mal ao meu filho. E esse medo continua. Eu queria que o governo me ajudasse e o colocasse em algum lugar que ele possa estudar e virar um cidadão de bem. Não quero que ele volte pra casa, pelo menos não nesse momento. Quero que passe um tempo porque eu tenho muito medo de   fazerem algum mal a ele. O acidente aconteceu muito perto de casa e não sei o que podem fazer com ele.
 
Eu não durmo direito desde sábado, quando soube do que aconteceu. Cheguei na delegacia às 21h e passei a noite. Cochilei no carro, mas acordo assustada toda hora. Minha família ainda não acredita no que aconteceu. Estamos com os pés fora do chão, parece um pesadelo. Ele sempre foi calmo, nunca se envolveu em brigas, é um bom menino. Nunca imaginaríamos!
 
Há dois anos ele parou de estudar e começou a ficar muito tempo na rua. Foi quando os problemas começaram. Tentei fazer ele voltar, mas o Conselho Tutelar não me ajudou em nada. Neste ano, consegui fazer ele voltar à escola. 
 
Eu sou a favor da redução da maioridade penal, porque senão não vai mudar nada. Tudo vai continuar ileso. Quero que ele fique em algum lugar como um internato, que  possa refletir no que fez, na gravidade.. Ele tirou uma vida!”
 

 

 

 

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