Embora as primeiras constituições brasileiras previssem a mudança da capital federal do Município do Rio de Janeiro para o interior do País, sale a intenção ficava só no papel e em expedições. A principal dúvida era sobre a exata localização da cidade. Na Assembleia Constituinte de 1946, viagra a discussão ganhou força: a bancada mineira queria que ela fosse no Triângulo Mineiro, this enquanto a goiana lutava por Goiás, já que o planalto do estado era o ponto de referência de todas os grupos que saíram a campo para examinar áreas propostas pelos primeiros defensores da ideia.
O único remanescente do início da discussão sobre a mudança da capital é o médico Ernesto Silva. Ele foi um dos grandes responsáveis pelo surgimento de Brasília e até hoje mora na cidade. Ernesto participou da última comissão da estudos para escolha de área, criada pelo presidente Café Filho, em 1954, e coordenada pelo marechal José Pessoa.
O médico também ajudou Pessoa a convencer o então governador de Goiás, José Ludovico, a desapropriar as terrras que hoje ormam o Distrito Federal, já que Café Filho se omitia em relação ao assunto. Ernesto Silva era major do Exército e o seu trabalho, como secretário do marechal Pessoa, durante um ano, fora considerado brilhante, muito elogiado por técnicos e políticos.
Feitas as desapropriações, que ganharam destaque na imprensa brasileira, fazendo até com que Minas Gerais desse seu apoio a Goiás,veio a posse do presidente Juscelino Kubitschek, em 31 de janeiro de 1956. Pouco depois, o marechal Pessoa pediu exoneração do cargo que lhe fora entregue por Café Filho.
Então, JK chamou Ernesto Silva ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, e disse-lhe algo que hoje equivaleria à seguinte frase: “Você é o cara”. Isto é, com a experiência que Ernesto tinha, trabalhando na Comissão Pessoa, ninguém estava mais apto para presidi-la do que ele.
JK tinha a promessa de campanha, feita durante um comício na goiana Jataí – provocado pelo popular Toniquinho, que ouvia o seu discurso – de construir uma nova capital no interior do País. Não podia ser indeciso, como Café Filho. E pediu a Ernesto Silva: “Quero que você estude e trabalhe em cima da mudança da capital para o Planalto Central, pois já está tramitando, no Congresso Nacional, a lei de criação da Novacap”, ainda lembra-se hoje Ernesto, ao falar sobre a referência do presidente à companhia urbanizadora, que foi presidida por Israel Pinheiro, companheiro de Juscelino, na Constituinte de 1946.
Junto com Israel Pinheiro, Bernardo Sayão, vice-governador de Goiás, e o deputado Íris Memberg – indicado por uma lista tríplice, apresentada pelo maior partido de oposição ao governo, a UDN (União Democrática Nacional) –, Ernesto Silva começou a “fazer Brasília”. Como presidente da Novacap, Israel Pinheiro reservou-se ao direito de tomar conta de tudo o que dissesse respeito a arquitetura, urbanismo,compras e transportes.
Para Sayão, que era engenheiro, coube administrar as obras e tudo que era ligado a elas. A Memberg foi entregue a parte jurídica e comercial da Novacap, além do que dissesse respeito à agricultura, a sua especialidade – atribuições típicas que
partiam de uma “raposa” da política mineira, Israel Pinheiro.
Responsável pelos departamentos de administração, imobiliário, educação, assistência social e saúde da Novacap, o médico Ernesto Silva tomou logo uma atitude. “Convoquei os médicos que trabalhavam em cima de endemias rurais em toda a região”, conta ele, que se comunicava com o escritório da Novacap, no Rio de Janeiro. “Aqui, nós (diretores) começávamos a trabalhar entre 8h30 e 9h, enquanto os operários se dividiam por turnos. A coisa não parava”, recorda o pioneiro que, aos domingos, mostrava a nascente Brasília para os visitantes.
As lendas candangas
Vêm passando de geração a geração: na inauguração do Catetinho, o presidente JK dançou e cantou pela noite toda; tomar o café da manhã rodeado de siriemas, era comum. “Absolutamente lenda!”, garante Ernesto Silva, corrigindo a respeito da inauguração do primeiro “palácio presidencial” na nova capital: “O que houve foi uma seresta bem comportada, cantada pelo César Prates e tocada pelo Dilermando Reis (violonista)”. Sobre siriemas, desmistifica.
“O presidente sempre chegava à noite, depois dos despachos no Rio de Janeiro. Tomava o café rápido e saía com o Israel dinheiro, inspecionando obras. Nunca vi siriemas rondando mesas de refeições”. Ernesto Silva foi vizinho de quarto do presidente JK, quando ele passava a noite no Catetinho. “O presidente dormia tarde e só tratava de serviço. No dia (9.10.1956) em que ele (JK) sancionou a lei que permitia ao governo criar uma empresa imobiliária (Novacap) para construir Brasília, eu lançava o edital do concurso do Plano Piloto de Brasília”, assinala.
O tempo de permanência de JK no Catetinho também provoca discussões. Fala-se em menos de três e também em seis meses. Ernesto Silva fica com a segunda hipótese. “Foram seis meses. Depois, construiu-se um segundo Catetinho, bem maior, ao lado do palácio pioneiro, para dar mais conforto ao presidente”, relembra Ernesto Silva, que desde 1954 vive respirando Brasília, a cidade que viu nascer.