
Em busca da perfeição fotográfica, cada um tem seu jeito e suas técnicas. O ângulo mais fotogênico, a expressão que melhor aparece na imagem, a posição certa da câmera e, até mesmo, as intervenções estéticas. As selfies, autorretratos, viraram mania entre os internautas e estão cada vez mais elaboradas em busca de curtidas e elogios. Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica revela que o número de procedimentos estéticos aumentou 10% só em 2014 e, para especialistas, a “ditadura” da selfie pode ser uma justificativa.
O cirurgião plástico Evando Lucena conta que a procura de jovens por intervenções estéticas teve aumento considerável no último ano, quando o conceito de selfie estourou. Isso ocorre com mais frequência com a aplicação de toxina botulínica – o botox –, substância que bloqueia os sinais nervosos musculares, diminuindo as rugas faciais. “A proximidade da câmera para tirar essas fotos revela visões diferentes do que a pessoa está acostumada. A imagem fica deturpada”, observa o especialista.
Nessas ocasiões, podem aparecer rugas “muito pequenas e naturais que passam a incomodar com a frequência com que se observa nas fotos. Ou, ainda, mostra uma ruga que é apenas simulada pela posição”. Em 2013, o Brasil fez 2,1 milhões de aplicações da toxina apenas para atenuar rugas de expressão, aponta levantamento da Associação Internacional de Cirurgia Plástica Estética (Isaps, em inglês).
As intervenções estéticas não param por aí. Há quem chegue ao extremo de realizar cirurgias plásticas para “ficar bem na foto”. Entre elas estão a lipoaspiração e prótese de silicone nos seios. São muitas opções, mas o especialista alerta: “É perigoso quando a insatisfação faz querer mudar completamente a fisionomia. Isso não pode”.
Números
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), o Brasil realiza aproximadamente 629 mil cirurgias plásticas por ano. Desse total, 73% são operações estéticas. Em 2013, cirurgias plásticas como o implante de prótese de silicone e lipoaspiração foram as mais procuradas no País.
As mulheres foram responsáveis por mais de 20 milhões de procedimentos cirúrgicos e não-cirúrgicos em 2013, 87,2% do total. Já os homens fizeram mais de 3 milhões de procedimentos cosméticos, representando 12,8% do total.
Insatisfação com a aparência física
Entre os jovens, a insatisfação com a aparência física levou mais de 91 mil pessoas entre 14 e 18 anos às salas de cirurgia em 2012. O número quase triplicou em quatro anos, já que, em 2008, as intervenções foram feitas em pouco mais de 37 mil, de acordo com a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP). A prevalência é de mulheres, que são 80% dos pacientes, que procuram mais operações estéticas.
Para o cirurgião Sérgio Feijó, as selfies não são um dos principais incentivos a intervenções estéticas. Formado há 35 anos, ele afirma que, “considerando o meu público, não concordo que elas interfiram no número operações”. Ele aplica um questionário em todos os pacientes que o procuram. “O número de pessoas que relatam fotos é muito ínfimo”, constata.
Hoje, a estudante Lorena Araújo, 20, gosta do que vê nas fotos, mas nem sempre foi assim. “Sou ex-obesa. Por muito tempo, fiquei incomodada por conta da minha aparência. Emagreci com acompanhamento médico e dieta”, diz.
Ela perdeu 35 quilos e depois se deparou com outro problema: “Fiquei flácida na barriga e nos braços. No fim de julho, fiz abdominoplastia, redução dos seios e coloquei prótese”. Com as mudanças, sua autoestima cresceu.
O assistente de marketing Philipy Lopes Ferreira, 20, também enfrentou problemas relacionados à insatisfação com a aparência. Entre os motivos, o nariz, que foi alvo de uma cirurgia estética. “Em uma luta de muay tai quebrei o nariz. Aproveitei que teria que mexer para melhorar a aparência dele”, explica ele, que desembolsou mais de R$ 4 mil só pela intervenção estética, já que o plano de saúde cobria apenas a corretiva.
O nariz também incomodou Bárbara Melo, 24, por muitos anos. “Desde criança sentia vontade de mexer”, conta a publicitária que, como Philipy, aproveitou uma operação corretiva para reestruturar o nariz. “As selfies evidenciam os problemas e ajudam a pensar em algo que incomoda”, entende, mas não acredita que seja suficiente ao ponto incentivar uma cirurgia.
Fotos podem incentivar mudanças
A estudante Ana Carolina Alves, 27, evita aparecer em fotos com o rosto muito perto da câmera. “Acho que o nariz fica imenso”, justifica. “Considero um dia fazer uma cirurgia para corrigir isso. Meu nariz tem uma ‘bolinha’ na ponta que me incomoda bastante. Acho que se fosse mais empinado ficaria melhor”, explica.
Para ela, a cultura das selfies pode interferir na vontade de mudar a fisionomia. “Representam uma maneira de autoafirmação perante amigos ou seguidores e, consequentemente, as pessoas podem desejar que sua imagem apareça da melhor forma possível”, analisa.
Carlos Alexandre, 25, está sempre com o celular a postos para uma foto, mas confessa que mudaria suas orelhas para ficar melhor nas imagens. “Me incomoda, mas normalmente depende do meu humor”, revela. Ele acredita que as fotografias podem incentivar as intervenções estéticas.
Ranking
Na tentativa de levantar as cidades do mundo nas quais o costume de tirar selfies é mais popular, o site da revista Time divulgou uma pesquisa na qual vários municípios brasileiros aparecem. A partir daí, foi criado um banco de dados com mais de 400 mil fotos com a tag selfie, que incluíam alguma coordenada geográfica.
Com isso, foi possível chegar ao resultado visto no site, em que o DF ocupa a 330ª posição no ranking mundial. Das 36 cidades brasileiras que apareceram na pesquisa, o DF ocupou o 22º lugar em número de selfies contabilizadas.