Jurana Lopes
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Cursar Medicina sem prestar vestibular é o sonho de muita gente devido à disputa acirrada. A façanha é prometida por faixas espalhadas pelo Distrito Federal, mas a questão não é tão simples quanto parece. A facilidade não vale para vagas em universidades brasileiras, mas para países próximos, como Argentina, Bolívia e Paraguai. Além dos custos com o curso e a moradia, os candidatos terão de revalidar os diplomas por meio de prova em alguma universidade pública brasileira.
A equipe do JBr. ligou para um dos telefones indicados nas faixas e foi informada de que as vagas são para a Argentina. A empresa diz prestar serviço de intercâmbio estudantil, providenciar a documentação para o ingresso na Universidade de Buenos Aires (UBA) e oferecer assistência por um ano. O valor cobrado é de R$ 2,5 mil, a ser dividido em até cinco vezes.
“Na Argentina, não é necessário vestibular. Cuidamos da burocracia, fazemos a matrícula. Geralmente, os estudantes escolhem instituições públicas. Além disso, providenciamos o material de estudo do primeiro ano e orientamos em relação à moradia. O gasto é apenas com a parte burocrática e, depois, com moradia, transporte e alimentação, que deve ser entre R$ 1,5 mil e R$ 2 mil por mês”, explicou uma atendente da CMA Assessoria e Intercâmbio Estudantil.
De acordo com ela, os estudantes costumam optar por morar em grupos, como repúblicas, pois os gastos são menores. Questionada sobre o exercício da Medicina após o curso, ela explicou que os profissionais podem atuar na Argentina e, caso queiram voltar ao Brasil, é necessário fazer a prova do Revalida, ou tentar o programa Mais Médicos.
Caso o aluno queira fazer uma especialização fora da Argentina, pode escolher países como Canadá, França, Itália e Estados Unidos. A atendente informou ainda que é possível tentar transferência para universidades brasileiras após o primeiro ano de estudo.
Atalho
Para Alexandre Crispi, especialista em Educação do Grupo Alub, não existe caminho mais fácil para cursar Medicina. “A consequência de entrar em uma universidade sem prestar vestibular está no futuro. Hoje, os exames para residência e especializações estão altamente complexos, exigem um grau de qualificação bastante elevado. Se o candidato começa o curso sem um bom preparo, o nível ao se formar será mais baixo, e ele pode encontrar dificuldades ao tentar fazer a residência”, explica.
Paraguai oferece 208 vagas
A Universidade Santa Clara de Asis, no Paraguai, divulgou, nesta semana, que vai abrir 280 vagas para o curso de Medicina.
Enquanto, no Brasil, o curso em uma faculdade particular sai, em média, por R$ 5 mil por mês no primeiro ano, no Paraguai, o custo mensal é de R$ 850.
A USCA aceita convalidar matérias e portadores de diplomas nas áreas de saúde para ingressar no 2º ano.
A universidade convalida as disciplinas básicas cursadas em graduações como Odontologia, Farmácia e Bioquímica, Biomedicina, Fisioterapia, Enfermagem e outros. Ou seja, pode-se reduzir em um ano a duração total do curso.
O início das aulas será no dia primeiro de agosto de 2016. Informações ou contato podem ser obtidos pelo site da universidade: www.usca.edu.py.
Consequências da exigência mais branda
Na opinião do especialista em Educação Alexandre Crispi, as consequências de o candidato se formar em uma universidade “menos exigente” é a reprovação na Residência. “Há vários médicos que nunca conseguiram passar nos exames de especialização. O resultado são profissionais que deixam a desejar”, analisa.
Crispi avalia ainda que o fato de as universidades oferecerem cotas para estudantes da rede pública já deixa a disputa mais equilibrada. Segundo o especialista, é importante que o estudante se prepare e se dedique ao máximo.
Ele calcula que pelo menos 15% dos 3,5 mil matriculados no Alub vão fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e prestar o vestibular para Medicina. “Hoje está mais fácil, pois algumas universidades utilizam a nota do Enem. Além disso, com a criação do programa Mais Médicos, existe uma pré-disposição maior para regulamentar diplomas de outros países. Porém, é preciso tomar cuidado, pois alguns têm cursos ruins, de baixa exigência dos alunos”, alerta.
Revalidação do diploma
Para atuar como médico no Brasil, o estudante formado no exterior precisa revalidar o diploma. Em 2011, foi instituído o Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos expedidos por Universidades Estrangeiras (Revalida), que simplifica o processo.
O exame é aplicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), em colaboração com a subcomissão de revalidação de diplomas médicos, da qual participam os ministérios da Saúde, Educação e Relações Exteriores e a Associação Nacional dos Dirigentes de Instituições Federais do Ensino Superior (Andifes). As provas ocorrem em universidades públicas.
67% reprovados em 2014
Quem acredita que o Revalida é um exame tranquilo engana-se. Nem todos conseguem passar no teste, composto por duas etapas: provas objetivas e práticas. Segundo dados do Inep, em 2014, dos 1,9 mil candidatos inscritos, 32,6% foram aprovados, enquanto, nos anos anteriores, as médias foram bem menores. Em 2013, o índice de aprovação foi de 6,8%; em 2012, de 9,8% e; no primeiro ano do exame, em 2011, a média foi de 12,1%.
Os dados revelam que os diplomas com maiores índices de aprovação no Revalida são oriundos de Portugal (72,7%), Uruguai (70%), Argentina (60,7%), Colômbia (60,6%) e Espanha (43,7%). Os com menores índices de aprovação são da Bolívia (23,9%), Venezuela (27%), México (27,2%), Paraguai (28,3%) e Rússia (29,4%).
Quanto à nacionalidade dos candidatos do Revalida, os que se saíram melhor em 2014 foram do Uruguai (81,8%), Portugal (72,7%), Colômbia (58%) Equador (53,8%) e Peru (41,5%), o que revela que o fato de a prova ser em português não faz os brasileiros saírem na frente. Em 2015, 4,2 mil candidatos se inscreveram no Revalida, sendo metade brasileiros. Desses, 1,8 mil passaram para a segunda etapa, que é prática. O resultado final tem previsão de divulgação em março.
Paulo Santos é professor do pré-vestibular do Alub e explica que o exame é o primeiro processo seletivo pelo qual passa um médico e, por isso, é necessário ser exigente, pois o curso tem alto grau de complexidade. “Há casos excepcionais, mas a preparação média varia de um ano e meio a três anos. Não é um caminho fácil. O candidato precisa se dedicar e ter muita paciência”, explica.
O professor informou que as notas de corte têm diminuído e orienta que os estudantes se formem no Brasil, pois é garantido o exercício da profissão: “Há bons cursos no exterior, mas a validação do diploma só passou a ser bem aceita após o programa Mais Médicos, mas isso pode mudar. Acho arriscado sair do Brasil para estudar. A revalidação pode ser alterada”.
Concorrência e nível elevados
O estudante Gabriel Rincon, 20 anos, estudou por três anos em um cursinho para passar no vestibular para Medicina. “Quando comecei, me deparei com uma realidade bem diferente. Vi que havia muitos concorrentes e como era alta a concorrência e elevado o nível de quem estudava”, relembra.
Para ele, o primeiro ano do cursinho foi de adaptação. Nos dois últimos, Gabriel estudou como jamais havia feito na vida. Ele entrava às 7h e ia embora às 22h todos os dias.
“Meu sonho era passar em uma universidade pública, principalmente na Universidade Federal de Goiás (UFG), pois é a minha terra. Apesar disso, prestei vestibular em diversas instituições, até no Paraná, Minas Gerais e São Paulo. Graças a Deus, dei sorte de passar na que eu mais queria”, comemora o calouro. Ele nunca pensou fazer Medicina em outro país por causa da distância, língua e dificuldade de retornar ao Brasil e exercer a profissão.
Segundo Gabriel, a sensação após estudar tantos anos é de realização e felicidade. “Valeu a pena todo o tempo de cursinho. Medicina não é fácil, é uma rotina de estudo massacrante, porque a concorrência é extremamente alta. A certeza que sempre tive em ser médico me ajudou muito a não desistir”, destaca. Gabriel foi aprovado no início do ano, e suas aulas vão começar no dia 30 de março. Ele pretende seguir carreira na área de cirurgia.
A maioria dos candidatos a uma vaga para o curso de Medicina sabe que a preparação é longa. Ingrid Pitman, 34 anos, é formada há 11 anos em Publicidade e Propaganda, mas decidiu realizar o sonho de sua vida: ser médica. “Minha família é formada por médicos. Me formei em outra área e hoje me sinto frustrada por não ser médica. Como eu casei e tive filhos, não tinha tempo, mas agora eles estão maiores e resolvi voltar a estudar. Desde agosto, faço cursinho preparatório”, relata.
A publicitária disse que chegou a ligar para o telefone das faixas, pois ficou intrigada com a propaganda de Medicina sem vestibular, mas logo foi informada de que se tratava de cursos na Argentina. “Era fácil demais para ser verdade. O melhor jeito é estudar bastante e se preparar da melhor maneira possível”, diz.
Ingrid não fez o Enem no ano passado, mas prestou dois vestibulares. “Eu me saí até bem, mas vou focar ainda mais nos estudos e me preparar para o vestibular da UnB e a prova do Enem. Se eu não passar, vou continuar estudando. Não vou desistir jamais de me formar em Medicina”, afirma.
Exceção
Passar na primeira tentativa em Medicina é muito difícil, mas não impossível. O estudante David da Silva, 18 anos, foi aprovado em uma das vagas da Universidade de Brasília (UnB) por meio do Programa de Avaliação Seriada (PAS) e inicia as aulas no próximo dia 7. A aprovação dependeu de muito esforço e dedicação do aluno, que sempre estudou em escola pública.
“Eu sempre fui muito estudioso e vi o PAS como uma oportunidade para realizar o meu sonho de ser médico. Então, foquei nos estudos. Nos dois primeiros anos do Ensino Médio, eu estudava normalmente. Porém, no 3º ano, decidi estudar integralmente. Fiz dois cursinhos preparatórios gratuitos e estudava nas horas livres”, explicou. David está muito feliz com a conquista e espera se preparar ao máximo para os desafios que enfrentará ao longo do curso. O estudante sempre quis ser médico, desde quando era criança, e, após formado, pretende se especializar em oncologia infantil.
Saiba mais
O DF possui atualmente cinco instituições que oferecem o curso de Medicina: Universidade de Brasília (UnB), Escola Superior de Ciências da Saúde (ESCS), Universidade Católica de Brasília (UCB), Centro Universitário de Brasília (UniCeub) e Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central (Faciplac). As duas primeiras são públicas e oferecem 50% e 40%, respectivamente, das vagas para estudantes oriundos da rede pública de ensino.
Quase a metade dos recém-formados em faculdades de Medicina de São Paulo foi reprovada no exame do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), feito em 18 de outubro de 2015. De 2.726 de egressos que fizeram as provas, 1.312 (48,13%) não alcançaram a nota mínima, ou seja, não acertaram 60% das 120 questões de múltipla escolha.
Segundo os dados divulgados na última quarta-feira pelo Cremesp, há 45 escolas médicas em atividade no estado, das quais 30 foram avaliadas. As demais não formaram suas primeiras turmas. Entre os egressos das escolas públicas, a reprovação foi de 26,4% e, entre os cursos privados, chegou a 58,8%.