A médica que atendeu Marcelo Dino – de 13 anos, que morreu na UTI do Hospital Santa Lúcia, após uma crise de asma – disse, em depoimento à polícia, que deixou o local para ajudar um colega a fazer um parto. Izaura Costa Rodrigues, que chegou ao Santa Lúcia após um plantão de 12 horas no Hospital Regional de Taguatinga, negou, no entanto, que tenha havido falhas no atendimento ao filho do presidente da Embratur, Flávio Dino.
Izaura tem 39 anos e é especialista em pediatria e terapia intensiva. Ao assumir o plantão, no inicio da noite do dia 12 de fevereiro, ela visitou o leito de Marcelo. “Ele estava conversando normalmente. Estava ansioso. Não estava cansado”, disse a médica à polícia, segundo relato publicado na revista Época desta semana. Durante a madrugada, Izaura teria voltado outras duas vezes à UTI pediátrica e avaliado que Marcelo apresentava “saúde estável”.
Às 4h, segundo relato da família à revista, o menino precisava receber dois remédios para asma, mas isso não ocorreu. Às 5h30, Izaura teria sido chamada para ajudar em um parto no centro obstetrício, ao lado da UTI pediátrica. Marcelo só foi tomar o remédio às 6h, quando teria começado a passar mal.
A mãe, Deane Maria, pediu que uma auxiliar de enfermagem chamasse a médica. Quando ela chegou, a crise havia se agravado e Izaura, então, pediu o equipamento para entubar o garoto que, segundo a mãe, já estava com os lábios roxos. Quando o material chegou, a médica pediu a presença de um anestesista, que estava em outra parte do hospital. O anestesista teria chegado à UTI às 6h20 e , então, pediu à equipe de enfermagem que substituísse o aparelho de entubação. Às 7h, Marcelo foi dado como morto.
Procurada pela revista, Izaura disse que caberia à direção do hospital prestar informações sobre o caso. O diretor técnico do hospital, Cícero Henrique Dantas, disse que “o paciente recebeu todo o atendimento que a situação exigia e no tempo adequado”.
serviços inadequados
Em entrevista à revista Época desta semana, Flávio Dino disse que está tentando reorganizar sua vida, após a perda precoce do filho e criticou a forma como agem os hospitais particulares. “A busca do lucro máximo impede a prestação adequada dos serviços. Afinal, um hospital é uma empresa como outra qualquer, feita para lucrar, o tem compromisso com a qualidade? E quem fiscaliza essa qualidade?”, questionou.
“Por cima de tudo, existe a desumanidade, a coisificação da vida humana. É como se fosse produção de estatística. Nos hospitais públicos, é uma dificuldade histórica, que não distingue governos. Nos particulares, o problema é empresarial, que chama de indústria da morte”, desabafou.