Eram 10h da manhã de quarta-feira (10), quando o advogado Érick Medeiros Amorim, 35 anos, chegava a sua chácara numa área rural em frente à Ponte Alta do Gama. A propriedade é vizinha do famoso Bar do Adão – reduto brasiliense da música sertaneja às segundas-feiras.
Descontraído como costumava a ficar todas as vezes que ia para a roça, o morador do Gama se dirigiu calmamente para a propriedade quando se deparou com um bilhete fixado na porteira. Logo pensou que aquela folha de papel pudesse conter mensagens de alguma garota frequentadora do estabelecimento vizinho pudesse estar interessada nele.
Mas a missiva, no entanto, não continha mensagens afetuosas nem declarações de amor. As palavras escritas nela soavam como uma ameaça a ele e à família. O texto parecia ter feito mal escrito de propósito. Como se a intenção do autor fosse mascarar algo, uma vez que os erros de português soavam tão forçados que dava a nítida impressão de que se tratava de alguém que sabia escrever, mas que não queria deixar sua digital para não ser reconhecido pela vítima.
Para a uma compreensão melhor, a reportagem reescreveu o bilhete, corrigindo os erros mais graves de português, mas sem alterar a sua essência. No texto, o autor desconhecido mandava o seguinte recado: “Aviso pro comédia que fica embaçando as Copas das Machas de Brasília: ou você fica quieto na sua, e larga de xaropar, de ficar enchendo o saco, e deixa os caras trabalharem. Ninguém rouba lá não. Tá? Pensando o quê, comédia, otário? Estamos de olho em tu. Na loja do teu pai, (que é) leiteiro. Tua filha saindo de tarde com o avô dela (e) de pé… (sic)”.

O caso foi registrado na 20ª Delegacia de Polícia do Gama como ameaça. Segundo Érik relatou aos policiais, “o fato pode estar ligado a um evento de criadores de cavalo chamado Copa de Marcha, promovido pela associação de criadores de cavalo de Brasília”, à qual ele é associado”.
Érik é membro da Associação dos criadores do Cavalo Mangalarga Marchador de Brasília (ACCMMB). Recentemente, ele acionou a presidência da entidade na justiça a fim de obrigá-la a abrir o que ele denomino de “a caixa preta” da contabilidade. O associado exigia que fosse feita a prestação de contas.
A medida extrema foi tomada porque o presidente da ACCMMB, Dario Oswaldo Garcia Júnior, se recusava a dar acesso aos sócios às contas da associação, que chega a arrecadar mais de R$ 1 milhão só com inscrições, eventos e repasses anuais. Mas a receita pode ser maior. É o que admitem os próprios autores de denúncia.
Dario Oswaldo Garcia Júnior é o número dois do Banco de Brasília (BRB). No site do banco, ele está abaixo apenas do presidente, Paulo Henrique Costa. Dário é apresentado no site do BRB como diretor Executivo de Varejo (Divar).
O associado temia que Dário estivesse tentando esconder um possível rombo. A base dessa suspeita ocorre por um movimento semelhante ocorrido em outra entidade, a Associação dos Criadores do Planalto. Esta, por sua vez, possui uma dívida de R$ 5 milhões contraída na gestão do ex-presidente Oswaldo Rocha Mello Filho, que, além da semelhança com o nome do atual mandatário da ACCMMB, possui outro fato em comum: ele também foi associado desta última associação, ocupando inclusive por vários anos a presidência da ACCMMB.
Apesar de não fazer mais parte da ACCMMB, mantém suas raízes nela. A filha dele Renata Scafuto Rocha Mello Guerra é vice presidente. “Após varias negativas e solicitações formais dos sócios, bem como no grupo oficial da entidade, procuramos a justiça, pois não entendemos o porquê das dificuldades impostas pelo presidente da ACCMMB em nos negar esses dados”, disse Erick.
A diretoria da associação afirmou que as insinuações acerca da transparência na gestão não procediam. “Temos a tranquilidade e a consciência em paz, pois todas as contas estão dentro da legalidade. Só quem não conhece a realidade do núcleo pode achar que a Diretoria estaria agindo de maneira espúria. Cada um dos diretores faz o possível para realizar a gestão da melhor forma, inclusive gastando do próprio bolso em prol dessa paixão que é criar cavalo. Em resumo, o trabalho na direção do núcleo é voluntário, não remunerado e cada um que aqui está tem uma história, que deveria ser respeitada”.