Jurana Lopes
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Nas ruas de Brazlândia, cidade do DF onde foram confirmados 488 casos de dengue desde o início do ano, moradores asseguram que têm tomado providências para evitar a proliferação de focos do mosquito Aedes Aegypti, também causador do zika vírus e da febre chikungunya. E, com a proximidade do início do ano letivo nas escolas públicas, no próximo dia 29, os professores, desde já, se previnem como podem.
No Centro Educacional 2, os servidores estão com a mão na massa para combater qualquer tipo de inseto. Foi feita limpeza de bueiros, telhado e arredores das árvores. Vários alunos e servidores do colégio contraíram dengue ao longo do ano passado.
“Estamos preocupados com o surto aqui em Brazlândia. Por isso, sugeri, na reunião que tivemos na Regional de Ensino, que fosse feita grande mobilização por parte das escolas. Queremos conscientizar os alunos para que eles aprendam a investigar os focos dentro de casa e saibam a importância de combater o Aedes Aegypti”, explicou Nirley do Carmo, vice-diretora do CED 2.
Ação nas ruas
De acordo com a educadora, a ideia foi bem aceita pelos docentes da cidade e ficou prevista para março uma grande mobilização, que reunirá alunos de diversas escolas em uma ação nas ruas da cidade.
“Levaremos os alunos para as ruas e vamos esclarecer a população sobre a importância de combater o mosquito da dengue. É preciso união para acabar com os focos”, afirmou.
Multiplicadores
A supervisora pedagógica da instituição, Maria Eliana Lagares, explica que o objetivo da escola é tornar os alunos multiplicadores do combate à dengue, pois a doença foi uma preocupação frequente em 2015.
“Toda a comunidade escolar deve se preocupar com essa doença, que apresenta índices alarmantes na cidade. Por isso, estamos fazendo a nossa parte. Vamos orientar os alunos a utilizar agasalhos de cores claras, com mangas. Além disso, plantamos em nossa horta vegetais com aroma mais forte, como hortelã, erva cidreira e alfavaca, pois dizem que o cheiro espanta os mosquitos”, detalhou.
Ponto de vista
Infectologista e consultor médico do Laboratório Sabin, Alexandre Cunha explica que os sinais das enfermidades transmitidas pelo Aedes aegypti são muito parecidos, o que pode dificultar o diagnóstico. “Os pacientes podem apresentar lesões na pele, dores musculares e articulares, dor de cabeça, febre alta e fadiga. Mas, apesar das semelhanças, há diferenças em relação à intensidade e à gravidade”, pondera.
Segundo o especialista, o paciente com chikungunya pode ter dores nas articulações mesmo após meses da infecção inicial. A dengue, por sua vez, pode evoluir para quadros mais graves caracterizados por hemorragias e levar à morte, especialmente, em reinfectados e idosos. A zika, considerada de menor mortalidade, manifesta-se de forma mais branda, com exceção do quadro cutâneo e com conjuntivite mais frequente.
O infectologista esclarece que todos esses vírus podem desencadear sintomas neurológicos, como a síndrome de Guillain-Barré e encefalite. “A zika, em especial, foi recentemente identificada como agente causador de microcefalia, uma malformação cerebral no feto, o que representa risco adicional às gestantes”, pontua. A recomendação do médico é que as grávidas tomem medidas protetoras, como uso de mosquiteiros, roupas longas e repelentes.
Terreno sujo ao lado de colégio
As professoras do CEF 2 de Brazlândia se preocupam com o fato de a escola estar localizada ao lado de um terreno abandonado, onde há mato alto, lixo e água parada. Segundo elas, o espaço concentra focos de proliferação do Aedes Aegypti e, no fim da tarde, surgem mosquitos e insetos oriundos dali. Em uma volta pelas principais vias da cidade, também é possível encontrar entulhos, pneus abandonados e recipientes que podem acumular água parada.
Muitos moradores estão com medo de pegar a doença e, por isso, são cautelosos. O agricultor Antônio Gonçalves, de 67 anos, trabalha em uma horta comunitária de Brazlândia e faz de tudo para manter o terreno limpo.
“Não deixo latas, pneus nem sacos que possam juntar água. Eu faço a minha parte para combater o mosquito da dengue, mas tem gente que não faz. Minha esposa está com a doença e, lá na minha casa, não tem nenhum foco. Ou seja, pagamos pelas pessoas que não se previnem”, lamentou.
Tenda de atendimento
Para atender à demanda que tem crescido, a Secretaria de Saúde instalou, no último dia 11, uma tenda de atenção à dengue, localizada no estacionamento do Hospital de Brazlândia (HRBz). Segundo a coordenação da tenda, a procura é constante.
Em uma semana, foram realizados cerca de 900 atendimentos, sendo 30% deles casos confirmados. Somente na manhã de ontem, 106 pacientes procuraram o local para fazer o teste rápido de identificação da dengue. Os dois casos mais graves foram encaminhados para internação no hospital.
Avaliação, triagem e teste
Em uma das tendas em Brazlândia, de 33 m2, é feito o atendimento primário, com avaliação clínica, que serve de triagem para descobrir se a pessoa está com dengue, zika ou chikungunya. Nos dois últimos casos, os pacientes serão direcionados ao hospital. Nas outras duas barracas, de 33 e de 44 m2, são feitos teste rápido e hemograma. O local conta com cinco médicos durante todo o dia, além de dez leitos com suporte para soro para os pacientes que necessitam de medicação.
O estudante Jorge Luiz Neves, 17 anos, foi ao local porque apresenta os sintomas de dengue desde o início da semana. Ele mora em Águas Lindas (GO), mas acredita que pegou a doença em uma chácara em Brazlândia, onde passou o domingo. “Na minha casa, não há focos do mosquito. No domingo, passei o dia aqui e, na segunda, acordei com os sintomas. Fiquei em casa para ver se os sintomas iam melhorar, mas, como piorou, decidir vir aqui”, explicou. Ele procurou o hospital de Águas Lindas, mas, como lá está lotado, a orientação é que os pacientes procurem a tenda no Hospital de Brazlândia, segundo o rapaz.
José da Conceição da Silva, 47 anos, teve dengue confirmada na última segunda-feira e, desde então, faz acompanhamento na tenda. “Não precisei ser internado. O médico me mandou ficar de repouso em casa, aqui em Brazlândia. Mas tenho que vir à tenda para fazer exames de sangue. Já estou melhor, mas, na segunda, me sentia muito mal”, relatou.
Ele acredita que pegou dengue em uma viagem ao interior de Goiás, no Carnaval. O jardineiro criticou a população por não combater o mosquito. Para ele, nada adianta se prevenir se os vizinhos não tomarem os devidos cuidados.
Mais de 200% de aumento dos casos
De acordo com a Secretaria de Saúde, foram registrados, até o último sábado, 1.912 casos de dengue confirmados em moradores do DF em 2016. Comparando com o mesmo período do ano passado, houve aumento de 216,03%. As cidades que lideram os casos confirmados são Brazlândia, São Sebastião, Ceilândia e Planaltina. Os dados fazem parte do último boletim epidemiológico, de nº 6 de 2016, divulgado na última quarta-feira pelo órgão.
Foram notificados ainda 249 casos da doença em moradores de outros estados que realizaram o diagnóstico no DF. Até o último sábado, o DF registrou seis casos de dengue grave, sendo três pacientes que residem no DF, e os outros três, de Goiás. Desses, cinco morreram.
Chikungunya e zika
Os registros de febre chikungunya mostram que os seis casos confirmados da doença em moradores do Distrito Federal foram contraídos em outros estados. Entre os casos de zika vírus, das seis confirmações deste ano, quatro pacientes são residentes no DF e dois são moradores de Goiás.
A ocorrência do zika em gestantes no DF neste ano foi identificada em duas residentes do DF (Taguatinga e Guará) e em uma moradora de Santo Antônio do Descoberto (GO). As pacientes do DF serão acompanhadas ao longo da gestação pela Secretaria de Saúde.