Não se trata apenas de coragem ou de mudar a sociedade. Não se trata de romper paradigmas. É amor. Aquele que legitima as relações. Que começa antes de se saber amor. Elas se tornaram mães depois de amarem uma a outra. E casaram. Decidiram, juntas, aumentar a família. Formaram um lar. Alteraram as mobílias, tropeçam em brinquedos e lidam com a descoberta de seus filhos. Crianças que têm não só uma, mas duas mães, dois colos, dois portos seguros.
Essa é a história da servidora pública Déia Barros, 46 anos, e do casal Marilia Serra e Vanessa Bhering, ambas de 43 anos. A primeira é mãe de duas crianças: um menino, de nove anos, e uma menina, de 11. Os dois foram adotados em 2010, quando ela era casada. Hoje, a guarda é compartilhada, e eles têm o sobrenome das mães. O segundo relato é de duas mulheres que, após dez anos de casadas, decidiram engravidar. As duas fizeram fertilização in vitro. Primeiro, nasceu Samuel, hoje com quatro anos. Menos de dois anos depois, vieram os gêmeos, Felipe e Mateus.
Diferenças?
O que as três têm de diferente em relação às outras mães? Quase nada. Sofrem do mesmo jeito. Têm as mesmas dúvidas e, principalmente, amor de sobra. Quiseram se tornar mães. Choraram ao ver seus filhos pela primeira vez. Levam ao médico quando adoecem. Buscam as melhores escolas. Acompanham a evolução deles. A única distinção é serem assumidamente gays e temerem que os pequenos sofram discriminação. O que, até agora, não ocorreu em ambos os casos.
Para a servidora pública Déia, não há absolutamente nada de diferente entre famílias de casais heterossexuais e homossexuais. “É do mesmo jeito. Eu tento apenas esclarecer que nós temos gostos diferentes, mas somos todos iguais. E isso faz com que a própria escola, durante esses anos, nos olhe de maneira igual. Todos sabem que somos gays, mas não somos questionadas. A base de tudo é amor. Isso, eles têm de sobra”, diz.
Medo de preconceito
Apesar da segurança de hoje, quando decidiu adotar, há mais de cinco anos, Déia confessa que teve medo do preconceito. Por isso, em um primeiro momento, se apresentou sozinha à Vara da Família como solteira, mesmo casada com Cristina. Para a surpresa das duas, a resposta foi mais do que positiva. “Na hora da entrevista, a psicóloga disse: ‘o processo está no seu nome, mas vejo que você tem uma relação com a senhora Cristina’. E ela disse que não tinha problema algum, e as crianças foram apresentadas para nós como um casal”, lembra.
Hoje, Déia e Cristina não estão mais juntas. Separaram-se há mais de dois anos. Momento dolorido para todos. Mas, com o amor das duas pelos meninos, tudo pôde ser contornado e hoje elas compartilham a guarda das crianças, que carregam os sobrenomes das duas.
“É diferente, mas muito legal”
Déia é o tipo de pessoa que não gosta de ressaltar momentos ruins. Para ela, desde que se tornou mãe, há motivos de sobra para sorrir. O único momento em que ela deixa escorrer uma lágrima dos olhos é quando se lembra da primeira vez em que viu os meninos, em Mato Grosso do Sul. “O nosso nome foi parar no cadastro nacional de adoção. Em 2010, nos ligaram de lá, explicando que havia um casal de irmãos. Fomos conhecê-los. Quando olhei, falei: ‘esses vão ser meus filhos’”.
A servidora memorizou cada instante daquele momento. Eles iam passar o final de semana com elas. “Quando eu olhei para a Patrí cia saindo do carro, ela saiu por um lado e o Davi pelo outro. Ela ajeitou a blusa, arrumou o Davi e pegou na mão dele. Nesse momento, eu soube que eles seriam meus filhos. A viagem de volta, depois de conhecê-los, foi a mais longa da minha vida. Eu chorava do início da viagem até chegar aqui”, ressalta.
Mesmos pais biológicos
Tanto Patrícia quanto Davi são filhos dos mesmos pais biológicos. Déia conta que eram oito filhos da mesma família. Eles foram parar no abrigo por falta de condições financeiras dos pais. “Como a Patrícia chegou com seis anos, ela lembrava de muita coisa. Tivemos o cuidado de colocá-la em acompanhamento psicológico, do qual ela foi liberada há duas semanas. Ela se comportava como mãe do Davi. Então, foi preciso desse apoio psicológico”, conta a mãe.
Superados os traumas do que viveram antes de encontrar as mães Déia e Cristina, os meninos parecem seguros. Quando questionada o que acha de ter duas mães, Patrícia responde: “é diferente, mas muito legal”. Davi, mais tímido, observa. Na hora das fotos, é no olhar que ele dirige à mãe que todo o amor existente entre os dois se revela.
Sonho de ser mãe chega em dose dupla
Para Marilia e Vanessa, o modo como encaram a vida reflete no comportamento do próximo. “No trabalho, por exemplo, as pessoas falam ‘ah, que legal, você tem três filhos’. E eu falo ‘sim, eu e minha esposa temos’. Mas não saio falando. É muito tranquilo, na verdade. Como agimos dessa forma, com naturalidade, isso desarma a pessoa. Não tem polêmica”, afirmam as duas.
A diferença de idade entre os meninos é de exatamente um ano e três meses. O curto espaço de tempo entre uma gravidez e outra aconteceu devido à idade das duas, que acreditavam estar “passando do tempo” por conta da idade. Vanessa ficou grávida aos 39 anos. A fertilização ocorreu depois de pesquisarem sobre bancos de sêmen e todo o processo em si. Meses depois, foi a vez de Marilia realizar sua vontade de ter uma barriga. O sonho aconteceu. E em dose dupla. Para a surpresa das duas, eram gêmeos. “A gente não esperava. Foi um susto. Uma loucura. Assim que descobrimos, saímos da clínica e fomos direto à concessionária para trocar de carro e comprar um maior”, lembram rindo.
Espaços maiores
Além de mudarem de carro, reformaram toda a casa. A sala ficou menor. “Quando nasceram os gêmeos, a gente ainda os colocava em quartos separados. Agora que eles estão nessa fase brincando juntos e tal, a gente transformou o antigo quarto deles no cantinho da bagunça, onde ficam os brinquedos. É ótimo porque concentra tudo ali. A gente tropeça menos nos brinquedos agora”, brincam.
Como todas as mães de filhos pequenos, elas ficam atentas a ruídos e gestos dos meninos. “Silêncio é perigoso”, diz Vanessa.
Confusão como em qualquer família
Como todas as mães que seguraram seus filhos pela primeira vez no colo, Marilia e Vanessas se lembram da emoção. “Foi uma coisa muito forte. A gente não consegue conter”, ressalta Marilia. “Cada vez que olho a foto, choro. É muito forte”, completa Vanessa.
Marilia é arquiteta. Vanessa é servidora pública. O casal está junto há mais de 13 anos. Ao chegar à casa da família, Marilia abre a porta com Felipe no colo. O pequeno, de dois anos e meio, havia machucado o dedo. E, óbvio, quis o aconchego da mãe para curar o pequeno ferimento. Samuel, o mais velho, de quatro anos, estava no quarto das mães. Mateus, gêmeo de Felipe, foi correndo assim que a mãe o chamou. E chegou cantando, pulando e gritando no quarto dos brinquedos, feito para eles.
Família maior
“A gente sempre pensou que queria uma família maior. Desde que nos conhecemos, aliás, isso foi conversado. E eu animei mesmo quando passei no concurso. Aí fiquei mais tranquila com a estabilidade”, conta Marilia, mãe biológica dos gêmeos. “Isso tem que ser conversado mesmo desde o início porque, se um não quer, você já pula fora. Então, falávamos abertamente sobre ter filhos”, completa Vanessa, mãe biológica de Samuel, o primogênito.
O casal vive uma loucura diária. Não tem nada de normal na rotina delas. Também, quem teria com três filhos pequenos dentro de casa? “É uma loucura. Confusão para colocar uniforme, briga por causa de brinquedo. Tem sempre alguém que não quer ir para a escola. Vão todos berrando para o elevador. Os vizinhos devem pensar: ‘lá vão eles pra escola’”, contam rindo as mães.