A população vive amedrontada no Paranoá. Insegurança é a principal queixa dos moradores e comerciantes do local. A Avenida Paranoá é a mais movimentada pela existência do comércio e, adiposity em decorrência disso, uma das mais afetadas pela criminalidade.
“Os policiais militares daqui não fazem nada, ficam comendo rosquinha na padaria”, denuncia Margarida Gomes, de 25 anos (nome fictício). A trabalhadora diz que não
gosta de sair para festas à noite devido à falta de segurança: “Um louco pode levar um revólver e sair atirando. Quem vai impedir?”, questiona ela que já presenciou cenas de violência à luz do dia.
A babá Jaqueline Braga, 18 anos, mostra-se desesperançosa: “A cidade é muito perigosa e não acredito que mude. Desde que nasci não mudou nada”. Segundo ela, há alguns anos, via-se a dupla de policiais conhecidos como “Cosme e Damião” subindo e descendo a Avenida Comercial. “Mas isso não acontece mais”, lamenta.
Elas reclamam ainda que a ronda nas quadras não existe. E apontam aquelas consideradas como as mais perigosas – as 6, 7, 8, 10, 20, 26 e 29. Ao todo são 33 quadras no Paranoá. Jaqueline mora na 20, uma das mais críticas, de acordo com a moradora, em termos de segurança. Já Margarida afirma que a 12 é mais tranquila, sem muita incidência de assaltos e outros crimes.
Invasões
O policial civil aposentado Roberto Stecanela atribui o alto índice de criminalidade no local às invasões em torno da cidade e, na opinião dele, à desestruturação das famílias:
“Os pais não orientam mais seus filhos. Hoje em dia, eles (os filhos) fazem o que querem”. Stecanela acredita ainda que o Estatuto da Criança e do Adolescente precisa ser reformulado. “Um pai não pode mais reprimir um filho com uma palmada porque é ameaçado de ser preso por agressão. Isso é um absurdo!”, critica.
Manoel Alves, morador da cidade, concorda: “Na minha época, se eu levantasse a voz para meu pai ou desrespeitasse minha mãe, levava uns tapas”, lembra. O policial levanta uma antiga discussão. Para ele, a idade penal deveria ser reduzida. “Um adolescente de 15 anos já sabe pegar uma arma e apontar para a cabeça de um cidadão indefeso. Por que não pode ser preso e responder por isso?”, questiona.
Stecanela trabalhou 26 anos como policial, 16 deles atuando no Paranoá. O carinho pela cidade fez com que ele montasse um escritório de advocacia para continuar servindo a comunidade.
Experiências ruins
Odália de Almeida Neves, 62 anos, tem uma lanchonete no centro do Paranoá desde 1989 e foi assaltada duas vezes em 15 dias. “Agora eles me esqueceram um pouco”, agradece. Os crimes ocorreram por volta do meio-dia. O açougue de Rogério William, 30, foi mais um alvo dos criminosos. Em oito anos de comércio, já ocorreram quatro assaltos, todos durante o dia. O proprietário teve que colocar grades nas portas e deslocar o caixa para os fundos do estabelecimento. “Eu estou dando sorte, porque todos os dias vejo ônibus serem assaltados”, conta. Ainda assim, o comerciante acredita que o policiamento nas ruas melhorou.
Há dois meses, a padaria de Elison Correia, 33 anos, foi assaltada por volta das 16h, por um rapaz com cerca de 20 anos. “Ele estava armado e não usava capuz”, lembra. Para ele, a dupla Cosme e Damião deveria voltar a atuar. “Isso diminuiria a ação dos bandidos”, diz.
Há duas semanas, a loja de produtos agropecuários de Antônia Elza, 44 anos, foi assaltada. O funcionário lembra que os dois assaltantes também estavam com o rosto exposto. “Eles não têm medo de nada. A impunidade aqui é muito grande”, diz Washington Luís, 26.
A proprietária prefere se precaver não deixando valores muito altos no caixa. “Graças a Deus, em quatro anos de loja, foram dois assaltos, mas não levaram muito dinheiro”, observa. Procurado pela redação itinerante do Você Repórter, o delegado do Paranoá, Miguel Lucena, não respondeu aos contatos.
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| A Região Administrativa do Paranoá foi criada em 10 de dezembro de 1964. Mas somente em 25 de outubro de 1989, o Decreto 11.921 fixou os novos limites da Região Administrativa (RA-VII). Com o objetivo de preservar o espaço do antigo acampamento da Vila do Paranoá, o local tornou-se área de preservação ambiental, hoje o Parque Urbano Vivencial. Do Paranoá Velho, ficaram algumas estruturas, como a caixa d’água e a escadaria da Igreja São Geraldo, construída em 1957, a segunda igreja mais antiga do DF. |
Matéria sugerida pela moradora Camila Lopes.