Em 1959, buy more about o Rio de Janeiro ainda era a capital brasileira – e continuaria a ser por mais quatro meses. Era a época em que o governo do presidente Juscelino Kubitschek oferecia as famosas “dobradinhas” – salário dobrado – aos servidores públicos que aceitassem trocar as belezas naturais da Cidade Maravilhosa, com suas praias, escolas de samba e as emoções no Maracanã, pela poeira do Cerrado do Planalto Central do País.
Como não era servidora pública, mas professora de música, a carioca Neuza França tratou, logo, de procurar um meio de não ficar à margem da sua futura vida brasiliense, tendo em vista que o seu marido, o procurador da Justiça Federal Osvaldo França de Almeida, teria que mudar de endereço. E já que o governo JK promovia concursos, em todo o Brasil, selecionando professores para o primeiro corpo discente da nova capital, ela viu naquilo o seu caminho para se tornar uma candanga atuante.
Neuza se inscreveu, prestou concurso – no Rio de Janeiro mesmo – e classificou-se, em primeiro lugar, entre os candidatos a “musicar Brasília”. No final de 1959, foi convocada a se apresentar para o trabalho na cidade que era construída no centro do território nacional. Deixou os filhos pequenos – Leonardo e Denise – com a mãe, na capital do então Estado da Guanabara, e veio em busca de uma nova vida, trazendo, além do marido, que teria de vir mesmo, só a filha mais velha, Magda, com 13 anos.
Enquanto preparava a sua mudança para a nascente Brasília, Neuza França não pensava em prestar nenhuma homenagem musical à cidade onde moraria e enchia o País de curiosidade. Num desses dias em que ela mantinha seus últimos encontros com as amigas cariocas, a também professora de música Julimar Nunes Leal – mulher de Vítor Nunes Leal, ministro-chefe da Casa Civil do presidente JK, e que também viria para a futura capital – cobrou-lhe: “Brasília ainda não tem um hino. Você tem que fazê-lo. Homenageia a cidade”.
Partitura
O desafio da professora Julimar era interessante, mas Neuza França não se lançou, de imediato, à empreitada, embora a sugestão tivesse ficado martelando a sua cabeça. Em uma manhã, então, a inspiração surgiu-lhe de uma forma inusitada: “Eu seguia, de ônibus, da minha casa, em Ipanema, para a Escola Nacional de Música, quando me veio a primeira célula musical do que seria o hino (oficial de Brasília). Imediatamente, abri a minha bolsa, e o único papel que encontrei foi um programa de cinema. Não perdi tempo. Dentro do ônibus mesmo, entre curvas, balanços, paradas e sobe-e-desce de passageiros, ali mesmo, escrevi os primeiros movimentos da composição”, conta, achando graça do seu desprendimento.
Depois de completar a inspiração e aprontar toda a partitura, Neuza França apresentou o seu trabalho, cantando, para os amigos Julimar e Vítor. “Parabéns!” , disseram os dois, aplaudindo.
Eles ficaram tão entusiasmados com o que ouviram, que fizeram uma nova proposta para Neuza França: um encontro com o poeta Geir Campos. “O encontro foi em meu apartamento, na Rua Visconde de Pirajá (em Ipanema, Zona Sul carioca). Executei a música ao piano, gravei a sessão numa fita cassete e a entreguei ao Geir, que a levou. No dia seguinte, ele estava com a letra pronta”, revela a professora Neusa, garantindo que não pensava em ver nada daquilo oficializado em Brasília. Mas foi justamente o que acabou ocorrendo.
Gravação demorou a sair
Quando abriu o Diário Oficial do dia 19 de julho de 1961, a professora Neuza França viu lá o decreto número 51.000, já do presidente Jânio Quadros – ela era jucelinista ferrenha –, oficializando o seu hino, como “a música de Brasília”, como propuseram seus colegas professores de canto orfeônico.
A peça foi apresentada, pela primeira vez publicamente, na inauguração do Centro de Atendimento Secundário de Brasília (Caseb), no dia 16 de maio de 1960. Mas, até ser gravada, lembra Neuza, foi uma epopeia. Todos os governos do Distrito Federal alegavam falta de verba para colocá-lo num vinil, como eram os discos de então.
Persistente, lutadora, Neuza França passou 26 anos batalhando pela gravação do hino oficial de Brasília. Já estava desistindo, quando conseguiu que isso, finalmente, ocorresse. “A música foi gravada em fita cassete pela Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, em 1986, sob a regência do maestro Cláudio Santoro, com a participação do Coral Adventista, dirigido pelo professsor Fernando Ostrovsky”, recorda a autora.
Fita cassete
Como as fitas cassetes, que se usou muito no Brasil, entre os anos 70 e 80, para reproduções musicais, costumavam enrolar nos gravadores, estragando o produto, a professora Neuza partiu, então, para uma nova cruzada: conseguir a gravação do seu hino dedicado à Brasília em long-play, os chamados LP, os bolachões de vinil.
Em 1990, novamente a cargo da Orquestra do Teatro Nacional, mas já sob o comando do maestro Sílvio Barbato, Neuza França conseguiu a segunda gravação. “Saiu num LP, patrocinado pela Secretaria de Cultura (do DF), integrando uma coletânea com 30 músicas (de diferentes ritmos), todas homenageando a cidade”, comemora a compositora, que só chegou ao CD (compact disc), em 1998, com o patrocínio da Câmara Legislativa do Distrito Federal.
A autora do hino oficial de Brasília ensinou música nos colégios Caseb e Elefante Branco e na Escola de Música de Brasília, além de ter sido pianista da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional e regido oito corais brasilienses. Todos os sábados, impreterivelmente, ao meio-dia, sua peça é executada pela Super Rádio Brasília-FM, com os créditos a ela e ao letrista Geir Campos. O LP em que o hino foi gravado, talvez, se encontre nos chamados “sebos”, que são pouquíssimos em Brasília. Já o CD, só consultando a Câmara Legislativa ou colecionadores de raridades.
Hino de Brasília
Música: Neusa Pinho França
Letra: Geir Campos
Todo o Brasil vibrou
E a nova luz brilhou
Quando Brasília fez maio a sua glória
Com esperança e fé
Era o gigante em pé
Vendo raiar outra alvorada em sua história
Com Brasília no coração
Epopeia surgiu do chão
O candango sorri feliz
Símbolo da força de um país!
Capital de um Brasil audaz
Bom na luta e melhor napaz
Salve o povo que assim te quis
Símboloda força de um país!