Menu
Brasília

<b>Brasília 49 anos:</b> pioneiro César Lacerda acompanhou os primórdios do Núcleo Bande

Arquivo Geral

20/04/2009 0h00

Durante oito dias seguidos, stuff o pioneiro César Lacerda percorreu o caminho entre Pires do Rio, em Goiás, e Cidade Livre – hoje, Núcleo Bandeirante. Lá, abriria um armazém de secos e molhados, além de um depósito de telhas e tijolos. Não fora fácil a viagem. Seus dois filhos eram ainda muito pequenos e a sua esposa, Ana Beatriz, não queria vir, temerosa de não encontrar atendimento médico para as crianças.César, porém, estava informado de que, na futura Brasília, havia “um tal de doutor Edson Porto”, que fazia de tudo, inclusive partos e tratamento psiquiátrico.


Era dia 2 de fevereiro de 1957 quando César Lacerda desembarcou coma família no meio dos candangos que construíam a nova capital brasileira. “Havia 72 barracos. Chovia muito e, à noite, fazia um frio tremendo. Mesmo assim, o martelo não parava de ’cantar’, com pioneiros levantando as suas moradias”, lembra-se Lacerda, que chegou a escrever um poema chamado Sinfonia do Martelo. Já instalado, César Lacerda testemunhou as primeira filas de candango para receber seus pagamentos, “que saíam de dentro de sacos de cimento, carregados num jipe”; o médico Edson Porto clinicando no meio do cerradão; Orestes Kuntz Bastos abrindo a primeira farmácia da Cidade Livre e Salomão Guimarães montando o primeiro cinema. “Por
aquele tempo, não havia assaltos. A gente vivia tranquilo na Cidade Livre”, rememora.


“Juscelino tá chegando”


Como testemunha viva do nascimento de Brasília, César Lacerda, residente hoje no Lago Sul, faz uma correção. De acordo com ele, o primeiro vigário a pregar entre os candangos não foi o Padre Roque, como virou lenda, mas o Padre Primo. “Nas manhãs de domingo, um sujeito saía (pela atual Avenida Central do Núcleo Bandeirante) batendo uma sineta e anunciando: ’Hoje tem missa, hoje tem missa’. E o pessoal corria pra perguntar o local e a hora”, lembra o pioneiro.
Lacerda se lembra também, achando graça, de quando o silêncio do céu era quebrado com o barulho das turbinas de um avião Viscount. “A candangada levantava a cabeça, apregava os olhos lá em cima e gritava: ’Juscelino tá chegando’. E a alegria era maior quando o presidente se misturava com a gente, inspecionando obras”, relata.


Naquele início de 1957, quando chegou, César Lacerda encontrou apenas pequenos botequins, vendendo gêneros alimentícios.Como conta, até o tomate, o pimentão, a manga, a banana chegar à boca do candango era uma aventura. “Tudo aquilo vinha em cima dos caminhões, que transportavam areia, cimento, madeira, material para construção. Era comprado em Corumbá e Vianópólis (cidades goianas que ficam depois de Luziânia) e muitos produtos chegavam bem amassados”, ressalta.


Nascimento de Taguatinga


César Lacerda foi também um dos pioneiros de Taguatinga. Ele conta: “Operários que não tinham onde morar, invadiram uma área chamada Vila dos Carroceiros, onde ficam, agora, os motéis do Núcleo Bandeirante. Como sabíamos que o presidente Juscelino tinha olhos para tudo – nada passava sem ele enxergar –, colocamos uma placa, identificando a invasão como Vila Sarah Kubitschek. Achávamos que, assim, amoleceríamos o seu coração”.


César Lacerda conta que os invasores aproveitaram uma inspeção de JK às obras do Plano Piloto e lhe pediram para visitar a Vila Sarah, a fim de conversarem sobre as dificuldades que os candangos enfrentavam. “O presidente aceitou o convite, mas não apareceu. Enviou, em seu lugar, o Ernesto Silva (único remanescente da primeira diretoria da Novacap, a empresa construtora da nova capital). No dia seguinte, o presidente acabou nos procurando, levando junto Israel Pinheiro (presidente da Novacap), o próprio Ernesto Silva e o topógrafo, que nós chamávamos de ’Dotô Maciel’, o sujeito que estava piqueteando Taguatinga (na verdade, tratava-se de José Maciel Paiva, engenheiro amigo de Israel Pinheiro).”


Perto dos seus 80 anos, Lacerda lembra que a comissão formada pelos invasores para conversar
com JK contava, entre outros, com Elmo Matiolli e um sujeito cujo apelido era João de Amargar. Nos seus ouvidos, Lacerda ainda escuta a frase dita pelo presidente: “Se já está tudo piqueteado, Maciel, ponha esse povo lá (em Taguatinga). No dia seguinte, começamos a ser removidos. Montei o primeiro barraco de Taguatinga”, assegura. “Ficava na na QI-3, onde, hoje, é a CSA-3.”

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado