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Literatura pode tocar o real e refletir sobre lutas, diz escritora brasiliense

Adelaide Paula alerta que o crescimento de pautas sociais na literatura não pode ser confundida como panfletária

Foto: Programa Sofá Amarelo / Reprodução

Maria Eduarda Cardoso / Agência UniCEUB

A escritora Adelaide Paula, de 54 anos, autora do livro Mãe: o silêncio atrás da porta e estudiosa da presença de lutas identitárias na literatura, acredita no potencial literário de conscientizar o público leitor sobre desigualdades sociais.

“Eu tenho 55 anos e sou uma mulher negra. Passei por todas as situações inimagináveis de racismo e não se falava sobre o assunto”.

No entanto, ela alerta que o crescimento de pautas sociais na literatura não pode ser confundida como panfletária. “Eu posso inventar uma história e me desconectar completamente da realidade, mas é muito difícil alguém que vive a dura realidade não deixe isso penetrar na sua literatura”. Ela explica que é importante continuar colocando as temáticas sociais nos livros para que o leitor perceba que o mundo é diverso. A literatura tem que ser democratizada para incentivar a população a desenvolver o senso crítico, praticar o revisionismo e refletir sobre a importância das lutas atuais.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Alegorias

Agência UniCEUB – Como escritora, o que te fez tratar as temáticas raciais e desigualdades sociais em seus livros? Qual seu objetivo?

Adelaide Paula – A minha inserção nesse mundo de debates raciais é muito recente. Sou de uma geração muito diferente, que era tabu falar sobre racismo, não era comum falar sobre isso. Eu tenho 55 anos e sou uma mulher negra. Passei por todas as situações inimagináveis de racismo e não se falava sobre o assunto. Na minha trajetória, eu iniciei tratando de uma forma muito sutil, de forma mais tradicional pois ao mesmo tempo eu estava me descobrindo. A partir do meu segundo livro, eu começo a falar mais sobre a questão identitária, com questionamentos filosóficos sobre a história dos personagens. A alegoria que criei no meu segundo livro, uma espécie de fábula sobre cães falantes, foi uma maneira que encontrei de abordar esse assunto de identidade, porque também estava em formação como indivíduo.

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No último livro lançado, “Mãe: o silêncio atrás da porta”, eu abordei de maneira mais direta nas minhas referências, Grada Kilomba, por exemplo, tive a oportunidade de conhecê-la e um dos livros dela me inspirou a abordar e estudar essas questões.

A minha primeira personagem declarada negra foi no meu último livro, coloquei de maneira mais direta com as reflexões e situações que ela passou. Essa abordagem foi resultado dos meus estudos, apesar de eu acreditar que a literatura não tem um dever de abordar esses temas.

Eu posso inventar uma história e me desconectar completamente da realidade, mas é muito difícil alguém que vive a dura realidade não deixe isso penetrar na sua literatura. Então, na minha literatura, eu entro nessas questões mas não de maneira obrigatória. A literatura não é panfletária.

Assista abaixo o trecho da entrevista em que autora explica sobre seu campo de estudos.

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Lugar de fala

Agência UniCEUB – Ao falar sobre a questão racial, abre espaço para o debate de representatividade e lugar de fala. Qual o seu conceito para esses dois termos? Você considera que os seus livros são representativos para esses grupos?

Adelaide Paula – Em um estudo que fiz sobre o livro “O que é lugar de fala?”, da escritora Djamila Ribeiro, a questão do lugar de fala toca justamente na representatividade.

Nós sempre tivemos um lugar centralizado que a presença era de pessoas majoritariamente de origem europeia, o conhecimento construído nos livros são, em sua maioria, escritos por homens brancos.

Nesta perspectiva, passamos a olhar para as outras vozes pois se temos a perspectiva europeia, por que não escutar a voz do negro, do ameríndio. Querer escutar o que as outras vozes querem falar. A pessoa que realmente viveu uma determinada história tem um repertório maior para contar a história em relação a quem não vivenciou. Não é proibir alguém de falar, mas é reconhecer que em alguns contextos existem pessoas com mais legitimidade sobre aquela temática. Representatividade é quando você tem o seu corpo e sua voz para um poder decisório. A luta das pessoas negras na atualidade é para ter representação. Ter autoridade para definir as pautas e mudar a sociedade.

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Confira o trecho da entrevista em que autora fala sobre representatividade.

Cenário literário

Agência UniCEUB – Esse tema tem sido levado mais em conta na literatura? Os autores estão escrevendo mais sobre essas temáticas?

Adelaide Paula – A nossa literatura, considerada canônica e clássica, tem alguns autores que só vão trabalhar as temáticas que eles acreditam. Essa literatura não mudou, mas o que eu vejo é que o cenário literário e da própria mídia tem dado visibilidade a outros perfis de escritores. É importante continuar colocando essas temáticas nos livros para que o leitor perceba que o mundo é diverso.

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Conscientização

Agência UniCEUB – Qual o papel da literatura em conscientizar a população que não tem conhecimento sobre essas lutas?

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Adelaide Paula – A literatura não é obrigada a tratar essas questões, mas a literatura também é tocar o real. Se o autor consegue contar essa história de maneira bonita, encantadora, é possível causar uma reflexão no leitor. É alcançar mais leitores por meio da literatura sem perder o elemento da poesia, da prosa, a essência. Levar outras experiências ao leitor para abrir os olhos e conscientizar para reconhecer as diversidades.

Agência UniCEUB – Quais as dificuldades que a literatura tem em assumir esse papel conscientizador?

Adelaide Paula – A literatura tem dificuldade de ser democratizada. Atualmente, ter um livro físico é muito caro. Muitas crianças não têm acesso à literatura. A literatura tem que ser democratizada para incentivar a população a desenvolver o senso crítico, praticar o revisionismo e refletir sobre a importância das lutas atuais.

Confira trecho em que a autora trata sobre democratização da literatura.






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