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Brasília

Lago Paranoá: Espaço de lazer para poucos

Arquivo Geral

16/03/2014 9h20

Eles nasceram em Brasília  na mesma década e partilham a paixão pelo Lago Paranoá. Mas as semelhanças param por aí. Um detalhe separa o lanterneiro Ivanildo de Aquino, 28 anos, e o bancário Túlio Canut Cunha, 31 anos: o primeiro tem a oportunidade de usufruir do Lago a bordo de sua lancha, enquanto o outro se ajeita em meio aos barrancos e ao mato para aproveitar a pescaria, sua atividade favorita.

 Os exemplos ilustram a preocupante realidade do cartão-postal da capital. Em meio ao conturbado processo de desocupação, a segregação social rouba a cena e evidencia as consequências do uso irregular de terras públicas. O espaço, originalmente de todos, é acessível a uma minoria. Os demais parecem se contentar com o que sobra. É o que mostra a terceira reportagem da série De costas para a orla.

 “Sou candango e quando falam desse tal cartão-postal, não me identifico. Não me sinto parte disso. Quem tem o direito de usufruir são os barões”, desabafa o lanterneiro. O sentimento do brasiliense contradiz a concepção de que o Lago Paranoá é de todos.

Exclusão

 Admirador da beleza do lago, o lanterneiro confessa que não se sente integrado ao local, senão nas margens, nos lugares distantes e de difícil acesso. “Desde pequeno venho pescar aqui, vou me enfiando onde dá. Os ricos é que aproveitam isso aqui pra valer”, diz.

Na companhia do irmão Iranilson, 23 anos, e do primo Hugo, todos moradores de Santa Maria, ele denuncia a omissão do governo no combate às ocupações irregulares.  “É triste pensar nisso. Sou trabalhador, queria aproveitar esse espaço, que dizem ser público. Pago meus impostos como todo mundo. Por que só os poderosos têm esse direito?”, indaga.

 De acordo com Hugo, a realidade do Lago Paranoá é excludente. “É como se estivéssemos invadindo uma área que não é nossa, mas na verdade é. É uma questão complexa e difícil de resolver”, conta.

Benefícios

A muralha erguida na orla do Lago Paranoá também é notada por Túlio, morador da Asa Sul. Frequentador assíduo, ele lamenta a falta de democratização do local. “Sempre gostei de andar de barco com meu pai. O lago fez   parte da minha infância. Mas, infelizmente, sei que muita gente não tem essa chance”, salienta.

Para ele, a desocupação seria benéfica para todos, afinal, as possibilidades de lazer seriam maiores. “Eu torço para que o espaço seja democrático. Tenha orla, ciclovia e todos tenham acesso”, afirma. No entanto, o bancário destaca a necessidade de estrutura e segurança para os frequentadores. “Não adianta desocupar e deixar tudo solto”, frisa Túlio Canut Cunha.

Se desocupar tem de cuidar

O  funcionário público Bruno Luiz de Castro, 28 anos, dono de uma lancha há um ano, destaca o alto investimento necessário para a aquisição da embarcação. “Antes de ter lancha eu não ia muito ao lago, mas agora faço questão de ir com os amigos. Sempre quis ter, mas o custo de manutenção é muito alto”, diz. Mesmo apoiando a desocupação, ele assegura que a execução da medida seria difícil. “Os governantes precisam ter muita disposição para isso”, diz.

A segregação incomoda os que não têm a chance de usufruir das margens do Lago Paranoá. Mas, mesmo com os direitos usurpados, há quem afirme preferir essa situação a ter o governo no controle. É o caso do motorista Wagner Alburquerque, 48 anos, morador de Sobradinho. “É nosso, mas prefiro não usufruir. Pelo menos os donos das casas cuidam. Se desocuparem vai virar ponto de encontro de marginal”, salienta.

Falta tudo

Ele justifica o que diz lembrando que as áreas desocupadas atualmente estão longe de oferecer a estrutura mínima para o povo. Falta iluminação, segurança, lixeiras etc. “As pessoas não sabem usar. Gostaria de confiar no nosso governo. Queria muito ter a chance de usar o espaço”, conclui.

Por outro lado, para o publicitário Alexandre Siman Paiva, 30 anos,  é notório que proprietários dos lotes nas margens sul e norte invadem área públicas. “É um bem público e não pode ser tirado do uso comum do povo”, defende. Ele ressalta que o descaso com o cumprimento da lei é um incentivo à impunidade. “As pessoas sabem que não vai dar em nada, porque é um bairro de quem tem grana”, alega.

Ilegalidade

“Ilegal, imoral e injusta”. É como o especialista em Meio Ambiente da Universidade de Brasília (UnB) Jorge Madeira Nogueira avalia o caso. Para ele, o projeto inicial era de que o espaço fosse público, mas acabou sendo privatizado. “O Lago Paranoá tende a ser um dos principais pontos de lazer das famílias. Há alguns anos, fiz um estudo sobre o valor econômico de lá, para fins de lazer, e cheguei à conclusão de que é muito alto”, observa.

 Busca por direitos

O   cenário causa indignação no especialista em Meio Ambiente da Universidade de Brasília (UnB) Jorge Madeira Nogueira. Segundo ele, o uso condicionado ao poder aquisitivo coloca a capital do País em situação lamentável. “ É muito injusto que isso só possa ser alcançado para quem compra uma casa na margem do Lago, adquire títulos em clubes e frequente os badalados restaurantes que existem por ali”, disse.

Com argumentos contundentes, Jorge critica a falta de força política para resolver a situação. “Por ineficiência política, essas pessoas ocupam ilegalmente esses espaços e conseguem continuar assim”, pontua. De acordo com ele, a sociedade precisa se unir para reaver o que é seu de direito. 

“As pessoas precisam perceber que o público é de todos. O lago não é só de quem tem uma casa lá ou tem condições financeiras de frequentá-lo. Eu adoraria ver essa decisão implementada”, conclui.

Demora

 

Porém, a questão da desocupação da orla e, como uma das consequências, a possível democratização do Lago, podem demorar. Conforme mostrou ontem o JBr., a estimativa é de que os trabalhos sejam iniciados somente no primeiro semestre do ano que vem. Isso porque será feito um estudo do espelho d’água para definir a distância permitida para a construção de edificações. O objetivo é colocar em prática as exigências judiciais.

 

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