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Brasília

Lago Paranoá: desobstrução é saída para abandono?

Arquivo Geral

24/03/2015 7h00

Com as intervenções nas casas à beira-lago, uma antiga proposta, debatida há 20 anos, volta à tona. O Projeto Orla, de autoria do atual governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, pretendia reaproximar a população do Lago Paranoá. A ideia era investir em novos espaços turísticos nas margens do espelho d’água. No entanto, o documento, aprovado em 1995, teve poucos itens levados adiante. Do esboço, que previa 11 novos polos de lazer, tiveram continuidade apenas o Pontão do Lago Sul e a Concha Acústica. Por enquanto, espaços abertos à população são exceção entre uma infinidade de possibilidades. 

Agora, garante a Secretaria de Turismo, a ideia é reacender as discussões em torno do documento, com o prazo de três meses para dar início às primeiras ações. “Queremos, sim, aumentar a utilização do Lago. O Projeto Orla é uma prioridade”, explicou o secretário de Turismo, Jayme Recena. 

“Neste momento, estamos discutindo internamente quais serão as alterações na proposta. Por exemplo, inicialmente, a intenção era acabar com o Parque das Garças. Mas, hoje, entendemos que aquele espaço é utilizado pela população. Não tem por que mudar a destinação daquele lugar”, completou o secretário. 

Polos

Todos os 11 polos do Projeto Orla se concentram no Plano Piloto. O primeiro deles seria o Pontão do Lago Norte, que ficaria na área localizada no final da Estrada Parque Península Norte (EPPN), próximo ao Clube do Congresso e ao Parque das Garças.

Já o segundo ponto da proposta traz a ideia do Complexo da Enseada, espaço destinado à construção de hotéis, restaurantes e feiras de antiguidade. O local é situado entre o Clube da Aeronáutica e o Almirante Alexandrino, próximo ao trecho 1 do Lago Norte.

Reforma terminou. Mas e agora?

O terceiro polo ficaria   entre o Palácio da Alvorada e a Concha Acústica. A intenção, de acordo com o Projeto Orla, é erguer ali um espaço voltado para o turismo, com restaurantes, cinemas e marinas. No entanto, o espaço ficou abandonado durante anos na década de 90. Somente em 2013, durante o governo de Agnelo Queiroz, a área foi revitalizada, passando por obras que incluíram a recuperação do revestimento; substituição de pisos, portas, esquadrias, coberturas e estruturas danificadas. Intervenções que, de acordo com a Secretaria de Cultura da época, foram feitas de forma a manter o aspecto original do   projeto de Oscar Niemeyer. 

Após a revitalização do espaço, a dúvida para quem costumava frequentá-lo é por que ainda não voltou a receber grandes shows. “Será que estão com vontade de colocá-lo abaixo?”, questiona a jovem Tatiana Valença, de 26 anos. Para a estudante de Direito, da forma como as coisas estão se encaminhando no local, é provável que façam do espaço um novo Pontão. “Já tem bar, aumentaram o estacionamento. Está estranho”, salienta.

Concha trancada com cadeado

 Hoje, a Concha Acústica fica trancada com um cadeado. Somente pessoas autorizadas pela Secretaria de Cultura podem entrar no espaço de 9,2 mil metros quadrados. “Fica lá fechada, servindo de plano de fundo quando tem shows na orla. Os poucos eventos que acontecem lá são pagos e caros. Aí, eu desmotivei de ir. Teve uma época bacana que tinham muitos shows gratuitos lá. Você enxerga o palco de todos os cantos”, conta a estudante Tatiana Valença.

“Fui a um show do Lenine lá,  e fiquei afastada do palco por causa da quantidade de gente. Vi tudo, foi muito tranquilo”, lembra a jovem.  

No quarto polo, chamado Parque do Cerrado, localizada dentro do Palácio Jaburu, a ideia é erguer um Museu do Cerrado. No quinto, segundo a proposta inicial, o Parque Tecnológico teria como missão abrigar o Museu da Ciência e Tecnologia, com áreas para exposições, encontros e comércio relacionado ao tema. No de número seis, o documento projeta um conjunto de edificações destinadas a organismos internacionais. O espaço ficaria na Esplanada dos Ministérios. 

Estrutura

 Os polos sete e oito incluem, respectivamente, a ideia de uma marina e um centro de lazer na orla do Lago Paranoá. O primeiro ficaria localizado entre o Clube das Nações e a Academia de Tênis. O segundo seria próximo da Ponte JK, e teria lojas de conveniência, bares, espaços voltados à arte e cultura. No novo item, a intenção é fazer uma espécie de clube, voltado para o lazer e esportes, com quadras poliesportivas e marinas. 

O décimo polo traz o conceito de uma Praça das Nações, constituída por  pavilhões permanentes representativos das nações que dela participam, buscando mostrar a cultura e a história de diferentes países.

Pontão e calçadão: exceções

O 11º item da proposta do Projeto Orla, o Pontão do Lago Sul, tem sua concepção concluída. Inaugurado em 2002, a área de 134 mil metros quadrados é composta pela orla de 1,2 mil metros, restaurantes, bares, quiosques e parquinho para crianças. Apenas o arco de entrada, construído inspirado na arquitetura romana, é contestado pelos defensores dos traços de Niemeyer. 

Segundo o secretário de Turismo, Jayme Recena, a intenção é finalizar os debates internos em três meses e colocar o Projeto Orla em discussão  com a sociedade.  “Vamos precisar de condições financeiras para viabilizar isso. Tudo está sendo estudado. Nossa ideia é, até o meio do ano, ter toda esta fase concluída. Tanto eu, como o governador, queremos dar andamento à ideia”, disse, salientando que teve longa conversa com o governador Rodrigo Rollemberg sobre o assunto. 

Enquanto o Projeto continua em fase de debate, parte dos aparelhos que já existem na orla do Lago Paranoá está sendo subutilizado. O  JBr. foi à Concha Acústica, à Praia dos Orixás e ao Parque das Garças. Nos dois primeiros locais, o cenário é de abandono. Apesar de estarem fisicamente preservados, os frequentadores são usuários de drogas, que aproveitam o vazio dos espaços para fumar crack. Quem costumava ir a esses locais  deixou o hábito para trás por medo dos atuais visitantes. 

“Hoje, vou à Prainha só no final de ano. E, mesmo assim, acho o clima pesado. Infelizmente, se você tiver vontade de passar  um fim de tarde com amigos ali, com certeza não vai se sentir seguro. Tem usuários de drogas que moram lá. E até daria para conviver se eles tivessem noção do que fazem, mas o crack tira a consciência das pessoas. Isso dá bastante medo. Por isso, não vou mais”, afirma a jovem Fernanda Madeira, de 27 anos. 

 Em março do ano passado, o JBr. mostrou que a criação de novos polos turísticos na orla do Lago estavam parados e sem qualquer previsão de voltar à tona. De lá para cá, nada foi feito. A última vez em que alguma das propostas saiu do papel foi em 2009, com a revitalização do Beira-Lago e do Calçadão da Asa Norte, ambos concluídos em 2011, com valores que chegaram a quase R$ 7 milhões. 

 

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