Isa Stacciarini
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A obscuridade da dependência química atinge pessoas que se inserem em um cenário cada vez mais alarmante do vício. Levantamento do Governo Federal estima que 22% dos brasileiros acima de 18 anos já usaram drogas psicoativas além do álcool e do cigarro alguma vez na vida. A maior parte, mesmo que queira, não consegue tratamento pela rede pública. E é no solo da capital que um jovem de 25 anos, viciado em crack, tenta se livrar da dependência.
Sem o auxílio do Poder Judiciário para uma internação compulsória, o rapaz pedia ao pai para que acorrentasse os pés com cadeados. O objetivo era evitar a recaída de sair em busca da droga. Depois de várias tentativas, ontem ele finalmente conseguiu vaga em uma clínica particular de Anápolis (GO).
A opção de começar uma nova história surgiu nos primeiros dias do ano. Logo após a virada, o dependente químico decidiu largar o vício de pelo menos oito anos. No entanto, mesmo preso voluntariamente, as recaídas provocavam mais dor e sofrimento para a família. O desejo do consumo deixa marcas pela casa. Uma parte da janela do quarto já não existe. Uma das maçanetas, os vidros de portas e demais janelas também já foram quebrados nos dias em que a abstinência era mais forte.
“Quero mudar de vida, pois eu estou destruindo a mim e a minha família. Achei que conseguia me livrar do crack sozinho, mas não posso”, disse o rapaz de estatura alta e corpo magro.
O jovem interrompeu os estudos na 7ª série, em razão das drogas. Em 2003, ele começou a vender maconha. Aos 17 anos, começou a fumar maconha, e aos 19 experimentou a cocaína. Aos 21, veio o crack.
“O que mais queria era passar uma borracha no meu passado e voltar ao tempo para mudar minha história. Quero dar orgulho aos meus pais. Enquanto existir ar no meu pulmão, meu desejo de me tornar um novo homem continua”, contou, antes de ser internado.
Com 56 anos, a mãe do jovem revela a dificuldade de ajuda. “A gente vai ao hospital e eles nos mandam para os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Chegamos a marcar consulta, esperamos e até hoje não deu certo”, explica. “É doloroso demais para os pais. É de faltar o chão”, emociona-se.
O professor e pesquisador em segurança pública pela Universidade Católica de Brasília (UCB), Nelson Gonçalves de Souza, explica que o crack é uma das drogas mais potentes do ponto de vista da dependência. Isso porque vicia o usuário a partir das substâncias dificilmente encontradas em outras drogas. Segundo o especialista, a partir do momento em que algum indivíduo usa crack, a necessidade de sustentar o vício é grande. “Uma das soluções que essa pessoa encontra é abrir mão dos objetos da própria casa para a venda e a prática de roubo e furtos”, diz.
Em janeiro, o consultor jurídico que auxilia a família, Fernando Siqueira, ajudou no processo para internação compulsória do rapaz. No último dia 19, o pedido foi indeferido. Foram anexados laudos que julgavam o dependente incapaz de um tratamento voluntário, além de uma carta de próprio punho dele.
O secretário de Justiça, Alírio Neto, explica que a internação compulsória só ocorre por ordem judicial: “Se o paciente não se apresentar e se o especialista identificar a necessidade, pode ocorrer a internação involuntária”.
Na clínica de internação há restrição de liberdade e ocorre em casos involuntários. Já as comunidades terapêuticas recuperam quem se apresenta espontaneamente. Atualmente, o DF trata 16 dependentes em internação compulsória em Unaí (MG). Segundo Alírio, as três unidades com essa característica no DF não têm mais vagas. “A partir de março, vamos ampliar mais 70 vagas nas 90 comunidades terapêuticas. Há 92 jovens atendidos nesses locais e vamos chegar até 250 vagas”, diz. Há 14 Caps no DF, sendo sete especializados em álcool e drogas. Serão inaugurados mais três nos próximos meses.