A jornalista Nelza Cristina Mendes da Conceição, que morreu nesta quinta-feira (23), deixou como principal marca uma característica cada vez mais rara nas redações do mundo afora. Ela respeitava a todos e tornava o convívio leve, a ponto de quem a conheceu se achar privilegiado. Ao longo de quase quatro décadas de carreira em Brasília, construiu uma trajetória reconhecida não apenas pelas reportagens que assinou, mas pela forma como tratava colegas, fontes e profissionais que estavam começando na profissão.
Nascida no Rio de Janeiro, em 29 de março de 1961, Nelza mudou-se para Brasília na década de 1980, acompanhando o pai, militar. Foi na capital federal que se formou em Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB) e consolidou uma carreira de destaque, passando por veículos como a Rede Bandeirantes e o Jornal de Brasília, onde permaneceu por quase duas décadas como repórter de Cidades, subeditora e chefe de reportagem.
Para o marido, Josemar Gonçalves, o maior legado da jornalista não está apenas na carreira, mas na maneira como conduziu a vida. “O legado é o respeito com todos”, resume.
Esse respeito também era refletido no ambiente de trabalho. Segundo ele, Nelza sempre teve disposição para ensinar quem estava começando na profissão. “Ela respeitava todos os que queriam aprender”, afirma.
Nas redações, ganhou fama por um talento que os colegas lembram até hoje. Era conhecida como a “pauteira de sorte”: muitas das principais ocorrências da cidade acabavam acontecendo justamente durante seus plantões, o que fez dela uma referência na cobertura do cotidiano de Brasília.

A dedicação ao jornalismo acompanhava Nelza também fora do expediente. Em casa, tinha o hábito de assistir a todos os telejornais para se manter informada. A curiosidade, que marcou sua trajetória profissional, era igualmente alimentada pelo gosto por conhecer novos lugares. Viajar era uma de suas maiores paixões.
Grande tutora
O jornalista Elisson Ferreira, que foi estagiário de Nelza Cristina no Jornal de Brasília em 2007, lembra da ex-chefe como uma profissional que fez da orientação aos mais jovens uma das principais marcas da carreira. Embora atuasse na editoria de Esportes, ele afirma que os plantões de fim de semana aproximavam toda a equipe da chefia de reportagem, momento em que a jornalista exercia seu papel de liderança.
“Ela sempre foi uma pessoa muito educada, uma professora no relacionamento com os repórteres e com os estagiários”, recorda Elisson. Segundo ele, Nelza mantinha uma convivência próxima com a equipe e contribuía para a formação dos profissionais que iniciavam a trajetória nas redações.
O jornalista destaca que muitos dos estagiários daquela época seguiram carreira e permanecem na profissão graças ao ambiente de aprendizado construído no Jornal de Brasília. “A gente se formou ali como estagiário e, depois, conquistou a oportunidade de se tornar repórter. Quando isso aconteceu, ela sempre foi uma das apoiadoras”, afirma.
Para Elisson, a influência de Nelza ultrapassa as reportagens que produziu ao longo da carreira. “Tenho certeza de que ela deixa um legado para toda essa geração que passou pelas redações e também para as futuras gerações do jornalismo”, conclui.
A editora-chefe do Metrópoles, Márcia Delgado, lembra que a amizade com Nelza Cristina ultrapassou os anos de convivência profissional no Jornal de Brasília. Ao lado da jornalista Suelene, as duas formaram um trio inseparável na redação e mantiveram o vínculo mesmo após seguirem caminhos diferentes na carreira. “Nunca perdemos a conexão. A admiração, o respeito e o carinho sempre nos acompanharam”, afirma.
Márcia conta que acompanhou a decisão da amiga de se mudar para João Pessoa após a aposentadoria, em busca da tranquilidade de viver perto da praia. Para ela, Nelza deixa lembranças que vão além da competência profissional. “Agora, fica a saudade desta minha amiga querida, que era um ser de luz. Uma profissional de primeira qualidade e um ser humano incrível, que Deus me deu o privilégio de conviver. Obrigada por tudo, Nelzinha!”, declarou.
Aposentadoria praiana
Depois da aposentadoria, em 2016, ela decidiu trocar a rotina intensa das redações pela tranquilidade do litoral paraibano. Ao lado do marido, mudou-se para João Pessoa com o objetivo de aproveitar uma nova fase da vida. Queria descansar, viver perto da praia e explorar o interior da Paraíba, estado pelo qual desenvolveu grande carinho. Entre os lugares que mais gostava estava Cabaceiras, conhecida como a “Hollywood nordestina” por servir de cenário para diversas produções do cinema nacional.
Nelza estava internada havia cerca de 30 dias por complicações cardiovasculares. Na noite de quinta-feira (23), sofreu um derrame pleural e morreu aos 64 anos.

Para além dos cargos que ocupou e das reportagens que produziu, Nelza deixa um legado que continua vivo nas redações por onde passou: o exemplo de uma jornalista que acreditava na informação, valorizava o aprendizado e fazia do respeito a principal ferramenta de trabalho.