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Brasília

João Filgueiras: o adeus ao mestre Lelé

Arquivo Geral

24/05/2014 9h00

Sob aplausos que duraram mais de um minuto, o corpo de João da Gama Filgueiras Lima, o Lelé, foi enterrado na presença de importantes nomes da construção civil brasiliense. Aproximadamente 200 pessoas estiveram prestara a última homenagem ao arquiteto carioca que, junto com Oscar Niemeyer e Lucio Costa, ergueu a capital do País.

Vinte e duas coroas de flores representavam o agradecimento e carinho de instituições de arquitetura, urbanismo e engenharia  do DF. O caixão, coberto por uma bandeira do Brasil, chegou em uma limousine e ficou na capela por mais de duas horas. Nesse período, familiares, amigos e autoridades se aproximaram para dar o último adeus a um dos principais nomes da arquitetura brasileira. O clima não era de tristeza, mas de admiração, gratidão e boas lembranças.

Doença

Lelé morreu vítima de um câncer de próstata aos 82 anos em Salvador (BA), na última quarta-feira. O combate a doença durou dez anos, mas ele não resistiu. A última internação durou dois meses, porém uma metástase foi mais forte que ele. Emocionada, a filha Sônia Filgueiras explicou que “ele teve câncer de próstata com metástase rara no fígado. Não há relatos disso. Os últimos dois anos foram muito duros”.

Sua outra filha, a também arquiteta Adriana Filgueiras, fala com orgulho do pai. “O sentimento que fica é de gratidão”, disse com um sorriso. Os óculos escuros disfarçavam as lágrimas, mas a emoção transbordava na voz. “Ele trabalhou até o aniversário dele, em 10 de janeiro. Dirigia, trabalhava, saía normalmente. Com a metástase, a situação complicou. Ele lutou, mas chegou um momento em que viu que o melhor era desistir. Parou de tratar, de tomar água, de comer e esperou a hora dele. Meu pai morreu lúcido”.

Amparadas pelos filhos e amigos, as duas seguiram na linha de frente do cortejo de 20 minutos até  a Ala dos Pioneiros do Cemitério Campo da Esperança. Adriana agradeceu a presença de todos. “Meu pai ficaria muito contente”, disse, precedendo o momento de maior emoção da despedida. 

Memória e legado de um artista

Lelé é reconhecido internacionalmente. Ele ganhou o prêmio da Bienal Ibero-Americana de Arquitetura e Urbanismo, em Madri, 1998, foi escolhido o melhor arquiteto da América Latina na IX Bienal Internacional de Arquitetura de Buenos Aires, em 2001, e representou o Brasil na VII Bienal de Arquitetura de Veneza, em 2007.
 
 Suas obras estão em 11 estados e no DF. Ainda recém-formado, foi um dos pilares da construção de Brasília, trabalhando com Oscar Niemayer. Lelé esteve presente na edificação da primeira quadra na capital e, entre seus principais projetos estão a Prefeitura de Salvador, o Minhocão da Universidade de Brasília (UnB) e os hospitais da Rede Sarah Kubitscheck.  
 
Francisco Nascimento, superintendente do Centro de Tecnologia da Rede Sarah, trabalhou durante 32 anos com Lelé e destaca sua concepção de ventilação e iluminação e garante que “os prédios do Sarah são ponta em execução”.
 
O Beijódromo da UnB também possui a assinatura dele e, para o reitor Ivan Camargo, “dar uma palestra lá é  uma alegria”. Lelé foi professor da UnB e saiu durante a ditadura. “Sou fã , encantado com a forma com que ele vê, além da estética, a parte do usuário”, diz.
 
Homem simples e discreto
 
A família recusou batedores oferecidos por parlamentares para facilitar o transporte da Câmara dos Deputados, onde foi o corpo foi velado, até o cemitério. Segundo a filha de Lelé, Sônia, “a simplicidade dele não condizia com essa regalia”. “Papai sempre foi muito discreto e  espartano e não iria gostar de nenhuma pompa”, disse.
 
Tadeu Filippelli, governador em exercício, descreveu Lelé como parte da história. Ele esteve presente no velório como “um gesto de respeito com relação à figura que foi o arquiteto”. Apesar de não ter trabalhado diretamente com ele, executou várias de suas obras.
 
Nas próximas semanas, o governo discutirá com a categoria dos arquitetos a respeito de uma homenagem a Lelé em “consideração ao nome dele, à história dele e à representatividade que ele tem para Brasília”. Filippelli garantiu que “essa homenagam não seria um gesto político, mas algo que traduzisse a história dele”.
 
O governador lembrou ainda o pioneirismo de Lelé na construção de casas populares, que “conseguiu aliar essa arquitetura com um processo de quase industrialização”.
 

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