Eric Zambon
eric.zambon@jornaldebrasilia.com.br
Nos últimos dois dias, a Praça dos Três Poderes foi palco de manifestações fervorosas contra o governo. Se na quarta-feira representantes de camponeses causaram tumulto em frente ao Palácio do Planalto ao reivindicar reforma agrária, ontem foi a vez dos servidores do Judiciário em greve protestarem contra a desvalorização e falta de reajustes para a categoria. Além do trânsito prejudicado, quem sofreu foi a própria praça, que não ficou a mesma após dois dias de mobilizações.
Na quarta, o Museu Histórico de Brasília foi pichado e, ontem, apesar de nenhuma ação de vandalismo explícita, bandeiras rasgadas e muitos copos de plástico poluíram o solo de concreto em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF).
“É caso de polícia”, disse o superintendente do Distrito Federal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Alfredo Gastal. “O sentimento é de indignação”, completa. Segundo o Iphan, as autoridades devem apurar em quais circunstâncias a pichação foi feita e cabe ao GDF reparar o estrago no museu. Procurada pela reportagem, a Secretaria de Cultura chegou a dizer que “bastava passar uma tinta por cima”, mas entregou a questão para a Secretaria de Comunicação. Por sua vez, a pasta informou que uma equipe de limpeza havia sido enviada ao local para apagar as pichações, e que o procedimento seria simples. Porém, a equipe do Jornal de Brasília foi ao Museu Histórico e, até as 18h, o vandalismo continuava exposto e nem sinal de funcionários do GDF.
“É um absurdo. A única finalidade é chamar atenção e os impactos para o povo e para os monumentos não são bons”, disse Marilene Progenio, que pegava ônibus na parada em frente ao STF durante os protestos, e preferiu não revelar sua profissão e idade.
Comércio
O vendedor ambulante Ivan Almeida, 53 anos, disse ter sido chamado pelo Sindicato dos Servidores de Justiça (Sindjus) para vender água e pamonha na Praça dos Três Poderes. Morador de Samambaia, ele admitiu o benefício para os negócios, mas reprovou a bagunça deixada por quem participou das manifestações no centro da capital.
“Nasci em Curitiba (PR). Lá eles não aprovam esse tipo de coisa”, disse o ex-militar paranaense. Ele também repudiou as pichações no museu. “Acho que nesse aspecto eu sou ‘antibrasileiro’, porque eu sou totalmente contra o vandalismo”.
Por volta das 17h, os manifestantes ocuparam a pista em frente à Praça dos Três Poderes e causaram grande engarrafamento. A polícia estima que havia pouco mais de 500 grevistas, mas para o Sindjus, quatro mil compareceram.
Conflito
Independentemente do número, o rastro de sujeira foi comparável ao de campanhas eleitorais, com faixas amarradas nas proteções em torno dos monumentos e bandeirinhas largadas pelo chão. Os manifestantes ainda entraram em conflito com os policiais militares que impediam o acesso dos grevistas à faixa principal da Esplanada, em frente ao Palácio do Planalto. Houve troca de ofensas, socos e o uso de gás lacrimogênio, mas ninguém saiu ferido.
O Iphan alegou entender a importância das reivindicações e a necessidade de elas acontecerem em frente a grandes centros de poder, mas repudia qualquer ato de vandalismo. O órgão pede tanto a grevistas quanto a turistas e transeuntes que preservem o Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade e informou que tomará providências caso o GDF não apague as pichações do museu a curto prazo.