
A internet, especialmente a rede social Facebook, funciona como uma ilha em que qualquer indivíduo pode mostrar a milhares de pessoas quem ele é ou, simplesmente, quem finge ser. O compartilhamento massivo da vida privada não ocorre só pela necessidade de dividi-lo, mas, também, pelo desejo de compartilhar a suposta felicidade com os amigos virtuais.
Em contrapartida, o exibicionismo gera em quem o assiste doses cavalares de inveja, angústia e frustração. Estudo da Universidade de Humboldt e da Universidade Técnica de Darmastadt, na Alemanha, mostra que uma em cada três pessoas sente inveja ao visitar o perfil de amigos no Facebook.
De acordo com a pesquisa, 33% dos entrevistados afirmaram se sentirem inferiores após acessarem o perfil de antigos colegas de classe ou de outros amigos. O item “fotos de viagem em férias”, seguido de “vida social ativa” e “votos de parabéns” durante o aniversário são os principais motivos de inveja. A exposição do sucesso, talento e prosperidade também são motivos de comparação entre os internautas.
Mundo da ilusão
A bióloga Carolina Goulart de Oliveira, 25 anos, concorda com a análise: “A internet é o mundo da ilusão. Acredito que as pessoas que ficam conectadas muito tempo acabam sendo levadas a acreditar que aquilo tudo é real, mas na verdade não é. Ninguém é feliz o tempo todo”. Ela ressalta que as mulheres levam a fama de serem mais invejosas porque os homens sabem disfarçar melhor. “A mulher tem mais inveja. Acredito que o homem até sinta, mas é mais sutil. Porém, acredito que muitos sentem”, afirma.
Sua colega de profissão, Ana Carolina Ribeiro, 27 anos, compartilha dessa opinião: “Acho que a inveja rola solta. Porém, é melhor relaxar e não dar muita importância. Acredito que se o internauta usar a rede social de maneira saudável é possível evitar esse tipo de coisa”, aponta. Ela destaca que decidiu cancelar seu perfil na rede social para evitar situações desagradáveis. “Causa muita intriga. Você posta uma foto e todo mundo comenta. Resolvi abrir mão.”
O estudante Leonardo Pinheiro, 25 anos, afirma que as pessoas tendem a idealizar a vida dos outros como perfeita e acabam sentindo-se frustradas. “Todos são felizes na internet e quem está meio para baixo pode ficar abalado. As pessoas só colocam fotografias de festas e viagens. E quem olha pensa que a vida do outro é maravilhosa.”
Segundo ele, apesar dos malefícios, a rede tem seu lado positivo. “Se usada da maneira correta, pode ajudar muito. Utilizo para tirar dúvidas sobre concursos e reencontrar amigos”, declarou. Ele acredita que o segredo para fazer uso saudável da rede é a moderação. “A pessoa não precisa ficar conectada o tempo todo, basta acessar em horários definidos e tomar cuidado para não se tornar dependente”, aconselha.
O agrônomo Guilherme Lapistus, por sua vez, acredita que quem fica muito tempo utilizando a rede social é mais propenso a ter inveja das outras pessoas. “Quem olha a vida dos outros na internet acaba deixando de olhar para si mesmo e sentindo-se frustrado”, alerta.
Ele explica que homens e mulheres estão propensos aviver essa situação. “Os dois podem sentir isso. Para mim, cada um deve ter consciência dos seus limites e controlar esse sentimento.”
Intrigas
O educador físico Cristiano Salerma ressalta que muitas pessoas não sabem lidar com a própria inveja e fazem intrigas. “Tem gente que olha a foto de uma festa, por exemplo, e reclama que não foi convidado ou que tal amigo saiu e nem chamou. A privacidade vai para o espaço”, diz.
O estudante Gabriel Guedes concorda. “Já vi gente comparando a vida com a do amigo no Facebook e se sentindo frustrado”, diz. A pedagoga Rosana Almeida, por exemplo, não acessa a rede social quando está triste. “Vejo todo mundo feliz e viajando. Aí vejo que não estou fazendo isso e fico para baixo”, fala. Para ela, é importante ter controle. “Não dá para deixar as atualizações de outras pessoas fazerem você se sentir como um perdedor total.”
Questão de idade
Segundo a psicóloga Josiane Cândido Porto de Melo, os internautas com mais de 30 anos podem enfrentar esse sentimento . A partir dessa idade, a felicidade familiar é a que mais provoca frustração.
“As mulheres nessa idade são mais propensas a invejar a boa aparência, casamento e a vida social das outras, enquanto os homens podem sofrer mais intensamente comparando-se as realizações dos amigos”, destaca a psicóloga.
Manual para dias mais saudáveis no Facebook