Duas meninas que cumprem medida socioeducativa na ala feminina da Unidade de Internação de Santa Maria (UISM) passaram no Enem e foram aprovadas no Programa Universidade para Todos (ProUni), do governo federal. As duas têm 18 anos e concluíram o Ensino Médio na instituição. Hoje, cerca de 30 adolescentes cumprem medida no local.
A socioeducanda Camila* passou no Enem com nota da redação de 740 pontos e foi aprovada para o curso de educação física, em uma faculdade particular de Brasília.
“Recebi essa notícia com muita emoção e felicidade”, disse José *, pai da interna, que está recolhendo todos os documentos necessários para a autorização judicial. A menina cumpre medida socioeducativa desde 2013, por ato infracional análogo ao crime de homicídio. “Nós sabemos que esse é um grande passo para que ela mude a história dela e ela tem todo o nosso apoio”.
A outra aprovada, Bianca*, passou para o curso de administração, com a nota na redação de 680 pontos, também em uma faculdade particular de Brasília.
Além de Camila* e Bianca*, outra menina e sete meninos que cumprem medida socioeducativa no DF fizeram o Enem e foram cadastradas no ProUni. Dos dez, oito passaram no Enem, mas só as duas obtiveram nota suficiente para cursar a faculdade. Agora, as famílias tentarão com a Vara da Infância e Juventude do DF uma autorização para que elas possam fazer os cursos.
“O número de adolescentes que está no Ensino Médio hoje nas unidades ainda é pequeno. A maioria dos meninos e meninas que chegam nas unidades deixou de estudar há muitos anos, ou está nas primeiras séries do Ensino Fundamental”, explicou a secretária de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude, Jane Klebia Reis.
Dentro das unidades, todos estudam diariamente. “Nós precisamos mudar essa realidade e o tempo de internação precisa ser efetivamente um período de estudo para que cada vez mais adolescentes cheguem à faculdade, dentro das unidades ou mesmo depois de sair”, avaliou Jane.
O incentivo ao estudo faz parte da ressocialização. Esta semana, uma comitiva da Secretaria de Educação esteve em duas unidades de internação para conhecer a realidade das salas de aula e dos projetos pedagógicos e novas conversas serão feitas entre as duas pastas para investir nas escolas do Sistema Socioeducativo.
Na unidade há ainda uma biblioteca com diversos livros para que elas possam continuar os estudos e conhecer diversas literaturas. É o que fez Camila, que lê vários livros por mês.
“Eu gosto muito de ler e aproveitei o tempo aqui dentro para isso. Eu sei que estudando eu vou melhorar ainda mais. Meu maior presente é ter arrancado, desta vez, lágrimas de alegria do meu pai”, contou a adolescente que passou para Educação Física e sonha em se tornar personal trainner.
O pai, orgulhoso, também leva muitos livros para a menina nos dias de visita. “Minha filha errou, mas eu nunca a abandonaria e agora, com esse resultado, estamos todos muito felizes”.
*Camila, Bianca e José são nomes fictícios para preservar a identidade das adolescentes.