A polêmica por conta da implementação do sistema de ciclos nas escolas públicas do Distrito Federal continua, já que o GDF descumpre a decisão judicial que barra a mudança. Agora, o Ministério Público fiscalizará se as escolas seguem com o novo sistema e poderá tomar providências para fazer com que a liminar seja posta em prática. Na avaliação de especialistas, a troca no método pode ser positiva, mas a preparação é fundamental para que a medida seja eficaz.
Em fevereiro deste ano, a Justiça decidiu suspender a política educacional, que acaba com a possibilidade de reprovação do aluno ano a ano. Em vez disso, o estudante só pode reprovar ao final de cada ciclo. No entanto, a situação se arrastou por vários meses e o método foi colocado em prática em pelo menos 300 escolas. A Justiça estipulou multa de R$ 10 mil por dia em caso de descumprimento da decisão. E pelo que tudo indica, a punição não tem sido paga.
Repercussão
As opiniões se dividem quando o assunto é a mudança nas escolas. Pai de dois filhos, de nove e dez anos, o açougueiro Milton Alves acredita que o sistema de avaliação deveria continuar o mesmo, por séries. “Acredito que a criança pode ser melhor avaliada ano por ano. E se tiver que mudar alguma coisa, que mude de uma vez e não no meio do caminho”, propôs.
Eduardo de Souza, 14 anos, estudante do 9º ano, está preocupado com as mudanças. Ele ainda não sabe qual será o sistema de avaliação no ano que vem, mas torce para que estude com o método da semestralidade. “Acho que pode ser boa a semestralidade, porque são menos matérias por vez. Não acho que deveriam mudar de método no meio do ano, depois de ter começado assim”, afirmou.
Mãe de Eduardo, a artesã Dilma Nepomuceno concorda que a alteração pode prejudicá-lo. “É ruim mudar com o ano pela metade”.
Agir para evitar prejuízos
Segundo a diretora de imprensa do Sindicato dos Professores, Rosilene Correa, a entidade não possui um posicionamento oficial a favor ou contra o sistema de ciclos. Embora um dos diretores, Washington Dourado, tenha se mostrado contrário à mudança – conforme mostrou ontem o Jornal de Brasília.
“No fim do ano passado, nos posicionamos contra a mudança, naquelas condições, sem formação adequada dos professores, sem consulta à comunidade escolar. Faltou diálogo com a secretaria naquela época, mas eles voltaram atrás e deixaram em aberto essa questão”, contou Rosilene.
“Escolas que já implementaram os ciclos precisam ser ouvidas e não pode haver uma imposição, porque elas já estão organizadas dessa maneira e temos que ter muita cautela para não prejudicar o aluno”, disse.
Segundo a pedagoga Maria de Fátima Guerra, do Departamento de Métodos e Técnicas da Faculdade de Educação da UnB, a volta ao sistema antigo agora pode ser uma ruptura prejudicial ao aluno. “Não dá para interromper agora. É necessário reorganizar o currículo para que isso seja implantado no futuro, se for o caso. O critério que deve ser seguido é a qualidade do aprendizado que está sendo alcançada”.
Professores devem ser treinados
O especialista em administração da educação Cleyton Hércules Gontijo vê com bons olhos o sistema de ciclos, mas a mudança depende de um período de treinamento dos professores. Segundo ele, existem experiências de sucessos em outros estados. “Tudo depende do suporte que as escolas terão para que o sistema seja modificado”, observou.
O professor da Faculdade de Educação da UnB, Gilberto Lacerda, aponta que no Distrito Federal a implementação do método demanda uma preparação de todo o sistema. Para o educador, há necessidade de adequar professores, currículos, alunos e gestores. O educador aponta que os professores não foram formados para o sistema de ciclos e semestralidade.
A Secretaria de Educação não se posicionou sobre o assunto até o fechamento desta edição. (Colaborou Isa Stacciarini)