Dez pedaços de madeira achados no lixo, medical alguns pregos e uma certa habilidade com a marcenaria. Pronto. A diversão está garantida para um grupo de crianças residente na quadra 300 do Recanto das Emas. A engenhoca construída se transformou em traves. Cada uma é colocada em um ponto de um estacionamento público, demarcado com tinta pelos adultos. Com uma bola doada, eles iniciam o jogo. São três para cada lado e a pelada rola durante toda a manhã.
Nas regiões mais distantes do Plano Piloto, é na base do improviso que as crianças e adolescentes passam o tempo. Principalmente no início do ano, período de férias escolares, tudo é válido para não ficar o recesso todo na frente da televisão. Na falta dos carrinhos de controle remoto, bonecas famosas e computadores, a rua se torna o parque de diversões dos pequenos que moram nestas comunidades, e nem por isso as brincadeiras são menos empolgantes. Muito pelo contrário.
Na Estrutural, o pequeno Davi Rodrigues de Araújo, de sete anos, sonhava em ter uma moto, daquelas que “andam de verdade”, como ele mesmo diz. O pai, que trabalha num ferro-velho, não tinha condições de comprar o presente.
Foi aí que o avô, Olavo Estevando Santos, 60 anos, teve a ideia de presentear o neto com uma “caranga invocada”, com capacidade para dois passageiros, carroceria reforçada e volante de verdade. Sem gastar um centavo, Seu Olavo juntou alguns ferros para fazer a base do brinquedo. As rodas foram tiradas de um carrinho de bebê encontrado no lixo, e a cabine foi feita com restos de uma estante velha.
Empolgado, carregando o amigo Gabriel Fernandes da Silva, também de sete anos, como passageiro, Davi não sente mais falta da moto. “Esse aqui é muito melhor! Ainda dá para levar alguém aqui dentro. Agora nem quero mais a moto”, desdenha o garoto.
Bem pertinho dali, um grupo de crianças e adolescentes fixam os olhos no céu. O local escolhido para empinar as pipas é estratégico: em cima de um duto da Petrobras, pois não há fios elétricos nem carros passando. A base de concreto do duto foi transformada em suporte para o preparo das pipas, como confecção de rabiolas e cabrestos. “Aqui a gente tem mais espaço. Não corre o risco de ser atropelado, nem tem vizinho torrando a paciência”, diz o estudante Wendson Pereira Ramalho, 16 anos.
Enquanto Wendson concentra-se em “dar linha, “dar de bico” e “mandar” outra pipa, o irmão caçula, Alisson Pereira Ramalho, seis anos, se equilibra em cima do meio-fio. Querendo mostrar controle sobre a situação, ele corre de uma ponta a outra, finge que cai mais não cai, abre os braços, faz graça e encerra a apresentação com um pulo. “Meus carrinhos estão quebrados e meu pai não tem dinheiro para comprar outro agora, então fico brincando o dia todo na rua”, conta o garoto.
Em quase todos os amplos espaços vazios da Estrutural, é possível encontrar crianças atrás de atividades de lazer. A falta de equipamentos públicos, como quadras esportivas e praças, faz com que elas busquem alternativas com o que a rua oferece. Quase tudo é improvisado.
O campo de futebol, por exemplo, foi aberto num mutirão pelos próprios moradores. É nele que os irmãos Mikael, Gabriel, Ismael e Sara disputam uma animada corrida. A prova é levada a sério, e, para não haver desavenças, a amiga Samara do Nascimento se transforma em juíza da competição. Concentrados, parados antes de uma linha demarcada no chão, ao sinal de Samara, os quatro largam. Como todo bom brasileiro, os perdedores reclamam da atuação da juíza. Ismael, vencedor da prova, esnoba os adversários: “Eles estão falando que eu saí antes.
Mentira! Eu sou melhor e mais rápido, e não tem discussão.”
Na falta dos colegas de escola, Marcelo Ramos Dias, nove anos, morador de Samambaia Sul, usa a rua para adestrar a cadela Pitucha. Ele a coloca no colo, conversa com ela e diz que costuma jogar uma bolinha para a cachorra buscar. Infelizmente, a bola se perdeu ontem. “A bolinha dela sumiu e ela não corre atrás de outra coisa. Volta aqui amanhã que eu te mostro”, sugere ele à reportagem.
Esporte e aulas gratuitas
As brincadeiras ao ar livre poderiam ser mais seguras se as cidades do Distrito Federal fossem dotadas de equipamentos públicos de lazer, como quadras, parques e praças. Pelo menos esta é a opinião dos pais ouvidos pela reportagem do JBr. A dona de casa Ivete da Silva Moraes, 53 anos, se sente entre a cruz e a espada nas férias dos três filhos. Ela conta que não tem dinheiro para comprar brinquedos para eles. Por isso, não os impede de brincar fora. “A rua é muito perigosa. Eles podem ser atropelados ou cortar o pé. No entanto, não posso prendê-los dentro de casa”, diz Ivete, que reside na Estrutural.
No Recanto das Emas, a administração regional iniciou as obras de construção de um skate park, na quadra 300. Quando a pista estiver pronta, crianças e adolescentes de sete a 16 anos vão participar de aulas gratuitas. A benfeitoria custará aos cofres do governo cerca de R$ 150 mil. O administrador da cidade, Stênio Pinho, afirma que o objetivo é tirar as crianças da ociosidade e dar a elas a oportunidade de aprender um esporte.
“Queremos dar uma ocupação aos jovens, antes que eles sejam recrutados pela marginalidade. Além do skate park, vamos fazer ainda este ano um campo de futebol de areia e uma quadra de vôlei na quadra 105”, diz Stênio.
O secretário de esportes do DF, Agnaldo de Jesus, promete um ano cheio de realizações. Um projeto que já começou a ser executado no Itapoã e deve se estender a outras 19 regiões administrativas é o Praça Cidadão. Realizado em parceria com o Ministério dos Esportes, o programa constrói um campo de grama sintética, uma quadra coberta e uma pista de skate nas comunidades mais carentes.
“No Itapoã, as obras já foram iniciadas. Também vamos construir dez campos de futebol em várias localidades. A única coisa que me entristece é ver que algumas de nossas realizações são destruídas pela própria sociedade. Pedimos que não depredem o patrimônio público e que nos ajudem na fiscalização”, enfatiza ele.