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Brasília

Igrejas alternativas atraem cada vez mais seguidores

Arquivo Geral

13/02/2011 16h22

 

Renata Rios

Renatarios@clicabrasilia.com.br

 

O Brasil é um país de pluralidades, seja na comida, costumes, tradições, ritmos e tantos outros elementos culturais. Mas em um aspecto ele tem se destacado – na variedade de crenças religiosas. Desde religiões mais tradicionais, como a católica, espírita, a outras bem inusitadas, como a Igreja do Trance Divino, todas ajudam seus seguidores a lidarem com o lado espiritual da vida, cada uma de sua forma. No Distrito Federal e cidades próximas não poderia ser diferente e , a cada dia, tem aumentado o número de pessoas que procuram locais não convencionais para alimentarem a fé em suas crenças. Outra religião que também surpreende pela variedade de práticas é a evangélica. 

 

Quem vai a Alto Paraíso, Goiás, esbarra na sede de uma igreja diferente, a Igreja do Trance Divino (ITD). Ela fica na principal rua da cidade e tem santos e rituais pouco convencionais. Os pré-requisitos para entrar na igreja são poucos, na verdade apenas um. Para se tornar um participante da ITD, o candidato deve ter frequentado pelo menos uma vez um festival de música eletrônica. 

 

A igreja foi fundada em 2005 pelo atual presidente da ITD, o bispo DJ Swami Veet Prayas, 36 anos. No ano de 2007, ela foi registrada e possui até CNPJ. Para os que acham que a ideia não emplaca, Veet conta que não sabe ao certo quantos adeptos a igreja tem, mas na rede social Orkut o número gira em torno de 3 mil  seguidores.

 

O fundador conta que a ideia surgiu em uma reunião de amigos em 2005. O primeiro culto foi até transmitido pela rádio Comunitária de Alto Paraíso, onde Veet era, na época, radialista e possuía um programa de rádio. “Assim começaram os cultos da ITD, logo depois abrimos nossa sede em Alto Paraíso”, diz o bispo. 

 

Até exorcismos já foram feitos nas reuniões. “Tudo é feito com o trance, cultos, exorcismos, batismos”, explica o DJ. Atualmente os cultos são secretos e o bispo não pode passar informações a respeito dos rituais. Mas, apesar de não revelar muito sobre suas reuniões, a igreja já se espalhou pelo mundo. “Em novembro fundei uma ITD na Suíça”, pontua Veet. Ele ainda explica um pouco sobre o preconceito que sofre a Igreja do Trance Divino. “O preconceito passa a existir desde o momento em que você delibera ações que batem de frente com as normas da sociedade hipócrita. Somos uma Igreja totalmente livre, baseada na experimentação da vida através da música eletrônica”, ele conclui.

 

O bispo ainda conta um pouco sobre os santos da ITD. “Durante a existência da igreja já canonizamos quatro santos, temos inclusive a primeira santa viva em toda a história, a Rita Lee, a Santa Rita de Sampa”, conta. Além dela, ainda há São Raulzito – Raul Seixas -, o primeiro santo brasileiro canonizado, São Michael Jackson, que é o santo da transformação e São Chico Science, o santo do maracatu atômico. A Igreja do Trance Divino acredita em Deus como o criador do universo e Jesus Cristo, que nesta igreja muda seu nome para Juju. “Juju desceu da cruz e foi bombar”, complementa o bispo da ITD.

 

Os dogmas da igreja não fogem tanto aos tradicionais. Verdade, bondade, beleza, liberdade, amor e respeito são pregados pelos fieis da ITD. “Atualmente nosso objetivo é lutar pela preservação do meio ambiente e a batalha contra a crueldade animal.  Lutamos pela defesa dos direitos dos animais e de toda natureza” ,ressalta Veet. A igreja ainda acredita que o amor seja a melhor forma de enfrentar as dificuldades da vida. “Não há preconceitos, realizamos casamentos heterossexuais e homossexuais” conclui. 

 

Prancha de surf como púlpito 

 

Não é preciso mudar de religião ou sair de Brasília para participar de uma missa ou culto inovador. Pela cidade, vários grupos se reúnem em locais que fogem do padrão tradicional. Surfistas e skatistas, roqueiros, fãs do sertanejo e homossexuais, todos tem igrejas destinadas aos seus grupos. Missas que saem da rotina não são tão incomuns ou difíceis de encontrar como se imagina.

 

No Setor de Indústrias e Abastecimento (SIA), um grupo com cerca de 200 pessoas se reúne em uma igreja que já chama a atenção pelo nome. A Igreja Bola de Neve atrai jovens de toda a cidade com cultos mais descontraídos. O pastor Foca, Rodrigo Luiz de Lourenço, tem 37 anos e já foi skatista profissional. “Viajei pelo mundo competindo em provas de skate chamadas Downhill. Já são 25 anos de skate”, lembra o pastor. Ele parou com as competições profissionais há cerca de quatro anos, quando se mudou para Brasília para fundar a igreja na cidade. Rodrigo é atualmente o responsável pela Bola de Neve no Centro-Oeste. “Ainda ando de skate às vezes, mas não para competir fora do Brasil, como antes”, complementa o pastor.

 

A Bola de Neve surgiu em São Paulo no ano 2000. Os cultos, que começaram na casa do fundador, Rinaldo Luiz de Seixas Pereira, eram dominados por surfistas. Logo o público cresceu e começou a abranger mais pessoas. “Amigos dos surfistas iam para o culto, skatistas, como eu, também começaram a frequentar os encontros” ,afirma Rodrigo. O nome surgiu devido a esse crescimento inesperado da igreja. “Foi como uma bola de neve, que vai crescendo cada vez mais”, brinca o pastor.

 

“Tentamos explicar a bíblia com exemplos práticos. Como os cultos são muito animados, atraem os jovens, que acabam trazendo suas famílias”, comenta o pastor Foca. “Muitos pastores de outras igrejas acreditam que não somos sérios, mas nossa igreja não é uma brincadeira. Levamos a sério os ensinamentos da bíblia e tentamos repassá-los da melhor maneira que podemos” complementa Rodrigo. O ambiente é descontraído, no lugar do púlpito uma prancha de surf faz a função. “A história da prancha é engraçada, começamos a utilizar um galpão de equipamentos de surf. Como não havia uma mesa no local que servisse de púlpito, colocamos a prancha”, pontua  Rodrigo. Quando o grupo se mudou para um lugar maior e um púlpito tradicional foi colocado, os fieis pediram para a prancha continuar a fazer parte da decoração do local.

 

Sem preconceito 

 

Outro exemplo da diversidade na fé é a Igreja Comunidade Athos. O local se coloca como uma igreja inclusiva, e aceita homossexuais sem nenhum preconceito. Cerca de 200 pessoas, sendo destas 60 frequentadores assíduos, vão à igreja que fica no centro da cidade, no Conic. A pastora Márcia Dias conta como a igreja surgiu, em 2005. “Um grupo de cinco pessoas oriundas de diversas igrejas evangélicas se reuniu pela primeira vez aqui em Brasília e a partir desse encontro é que surgiu a Comunidade Athos, que hoje se expande para outras cidades”, conta a pastora.

 

O fiel Israel Ferreira é frequentador da igreja há três anos. Ele foi por indicação de um colega, gostou e acabou ficando. “Já fui a várias igrejas destinadas ao público homossexual pelo Brasil. Gosto da Athos, pois ela é muito inclusiva e respeita os seus fieis”, explica Israel. De fato a pastora concorda que essa aceitação motiva os fiéis. “Nossos praticantes são livres para se assumirem como são, sem máscaras, isso torna nossa igreja bem mais agradável”, pondera a pastora.

 

Rock sagrado

 

Um show de rock, a música é alta com batidas fortes. O grupo que assiste e o que toca está todo de preto. É assim que a Cristian Metal Force, um ministério da Igreja Renascer em Cristo, atinge seus fieis. Após os cultos, um show de rock onde a única diferença para os tradicionais é a letra. A pastora do Ministério, Valéria Oliveira Pereira Araújo, conta que a música ajuda a atingir os jovens. “Muitos vem aqui pela música, fazem amizades e acabam ficando na igreja”, explica.

 

A igreja já tem cerca de dez anos em Brasília. “Estou na Cristian Metal Force há cerca de sete anos. Quando começamos o preconceito era muito grande, pois a música que usamos é considerada um estilo dos satanistas. Atualmente, já somos mais aceitos, apesar de ainda haver preconceito”, finaliza a pastora.

 

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