Por Camila Coimbra
Mais de 287 mil idosos do Distrito Federal já estão conectados à internet. O número corresponde a 75,9% da população com 60 anos ou mais, segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada (Pdad-A) 2024, elaborada pelo Instituto de Pesquisa e Estatística do DF (IPEDF). O percentual supera a média nacional registrada pelo IBGE em 2023, de 66%.
Apesar do avanço, as diferenças entre as regiões administrativas da capital ainda revelam um cenário desigual. Enquanto áreas como Lago Sul e Sudoeste/Octogonal apresentam índices de conectividade acima de 90%, regiões como Fercal e Varjão registram taxas inferiores a 60%. Para a diretora de Estatística e Pesquisa Socioeconômica do IPEDF, Francisca Lucena, o fator renda tem peso central. “As diferenças podem estar relacionadas à disponibilidade de serviços, às características de rendimento dos domicílios, ao acesso a equipamentos ou até a questões geracionais”, explicou. Segundo ela, estudos estão em andamento para identificar os determinantes dessas disparidades.
Novos hábitos digitais
A pesquisa mostra também mudanças no comportamento digital dessa faixa etária. Em 11 regiões administrativas, o uso de Smart TVs já superou os notebooks como porta de entrada para a internet. Para o IPEDF, a substituição pode estar ligada ao poder aquisitivo das famílias e ao perfil dos idosos, muitos já fora do mercado de trabalho. “Isso pode indicar a preferência por aparelhos que oferecem acesso simplificado a conteúdos de interesse, como filmes, vídeos e transmissões religiosas”, observou Lucena.
Mais do que um indicador de consumo, a conectividade se apresenta como instrumento de inclusão social. “Ela é uma aliada para manter a comunicação com a família, amigos, ampliar a rede de contatos e apoiar o acesso a informações e serviços relevantes”, ressaltou a diretora.
Impacto na vida cotidiana
A história da aposentada Maria do Santos, 89 anos, moradora de Brazlândia, ilustra como a internet transformou a rotina de muitos idosos do DF. Sozinha em casa, ela decidiu comprar um celular para se aproximar da família. “Eu comecei a gostar da internet porque não tinha telefone com WhatsApp. Minha filha ficava afastada de mim e eu percebi que estava ficando só. Então resolvi comprar um telefone e aprender”, conta.
O aprendizado, garante, veio com ajuda dos netos. “Eles sempre diziam: ‘Vó, faz assim, faz assado’. Aos poucos, fui entendendo e hoje consigo mexer sozinha. O próprio telefone me ensinou.” Hoje, Maria se conecta principalmente para rezar. “Uso mais para orações. Sigo muito o Frei Gilson no YouTube. Isso me ajuda quando me sinto sozinha.”
Já Íris Cordeiro, 77 anos, moradora do Paranoá, começou a usar a internet em 2018, pelo celular, e diz que a tecnologia mudou sua forma de se relacionar. “Passei a conversar mais com familiares e amigos, e isso aproximou a todos”, afirma. No início, teve dificuldade para mexer, mas contou com a ajuda dos filhos para aprender. A experiência, porém, também trouxe riscos. “Já caí em um golpe pelo celular. Fizeram-se passar pelo meu filho e acabei transferindo dinheiro para o bandido, acreditando que fosse ele”, relembra. Apesar do susto, Íris garante que hoje sente que a conectividade ampliou seus horizontes. “Mudou minha rotina porque adquiri mais conhecimento, fiquei mais ativa, com mais aprendizado nas redes sociais.”
Para o IPEDF, os resultados da Pdad-A oferecem subsídios para novas políticas públicas de inclusão digital voltadas à população idosa. “É fundamental que esse segmento aprenda a avaliar a qualidade das informações que recebe e conheça mecanismos de proteção de seus dados”, destacou Lucena.
Programas de capacitação, distribuição de equipamentos e ampliação da oferta de internet em áreas mais vulneráveis estão entre os caminhos possíveis para reduzir desigualdades e garantir que a conectividade cumpra seu papel social. “Os dados dimensionam a magnitude do acesso no DF e mostram a necessidade de ações específicas para ampliar a inclusão”, concluiu a diretora.