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Brasília

Idoso de 92 anos vive em hospital por falta de vaga em abrigo

Arquivo Geral

23/01/2014 6h45

Eric Zambon

eric.zambon@jornaldebrasilia.com.br

Tudo o que seu José Leocádio quer é chegar ao “cemitério de elefantes”. A expressão  surgiu da observação do comportamento de paquidermes mais idosos. Eles se afastam do resto do grupo e se movimentam cada vez mais lentamente, até ficarem parados completamente, como túmulos gigantescos, aguardando a morte. Distante da família, que José diz ter deixado no Maranhão há muito tempo, e sem conseguir mais se mover, o idoso de 92 anos, internado há duas semanas no centro clínico do Hospital do Guará, espera o aval do governo para se instalar em uma casa de repouso e ter onde viver dignamente. O que impede o desejo do senhor de se concretizar é a falta de vagas nos abrigos, problema admitido pelo governo.

“Eu era o Nota 10”, diz o aposentado, que mostra um sorriso sem dentes a cada frase. Ele diz ter saído muito jovem do Maranhão para o Rio de Janeiro, onde aprendeu a ser alfaiate. Na Cidade Maravilhosa, teria perdido contato com os parentes nordestinos e, após algum tempo na nova profissão, se mudado para Brasília. Já na capital, trabalhou em uma loja no Conjunto Nacional por vários anos, até se aposentar. 

As datas são sempre incertas na história de Leocádio, já que ele próprio não se lembra e os poucos amigos que fez também não têm riqueza de detalhes sobre sua história.

Obrigações

As amizades, aliás, foram a salvaçãode Leocádio. Anice de Fátima Dutra, dona da casa no Guará onde o idoso alugou um quarto por quase 20 anos, e Francisca Silva, assessora de imprensa que se comoveu com a história do homem, deram moradia, ajudaram na internação e atualmente brigam, em diferentes frentes, pela remoção de Leocádio do hospital para um lar adequado.

“Ele não pode ficar vivendo aqui”, esbraveja Francisca. “Ele pode pegar alguma doença ou infecção junto aos outros. Já falei com a Sedest e estou tentando ver vagas em lares comunitários, mas sempre me dizem que não há”, cobra. Ela evoca artigo 3º do Estatuto do Idoso, que dispõe sobre obrigações do Poder Público.

A internação

José Leocádio morou no quarto dos fundos da casa de Anice de Fátima até não ter mais condições de tomar conta de si próprio. “Ele sempre saía de manhã com o terno bem alinhado e voltava tarde. Durante todos esses anos pagou o aluguel direitinho, mas há uns quatro meses cá parou de dar o dinheiro e ficou cada vez mais dentro de casa”, conta a proprietária. Após quase uma semana sem deixar os aposentos, Anice chamou o Corpo de Bombeiros para verificar a situação do inquilino e foi constatado que ele tinha fraqueza nas pernas e uma  mancha vermelha no corpo. Internado, Leocádio foi diagnosticado com hanseníase, já tratada, inanição e desidratação. “Sempre que podíamos, minha família dava um lanche e ajudávamos”, revela Anice.

Versão Oficial

A Sedest informou que um edital para angariar novas instituições de longa permanência conveniadas foi aberto em dezembro e outro deve acontecer em fevereiro. Não há previsão para a conclusão dos trâmites legais, mas a expectativa é de que cem novas vagas sejam abertas.

Da unidade de saúde para o lar de velhinhos

A Sedest diz que Leocádio faz parte de uma lista de espera composta por seis pessoas. Todas elas tiveram o pedido de mudança expedido por um hospital, mas não necessariamente encontram-se nas mesmas condições clínicas. Às vezes, parentes retomam a guarda do idoso, mas geralmente isso não é notificado à pasta, o que pode tornar o aguardo do ex-alfaiate um pouco menor.

O problema é que, como cada vaga é preenchida por outras vidas, é imprevisível quando serão abertos novos espaços. Assim, não há  previsão para o senhor ser realocado. Leocádio ainda possui o agravante de ser um paciente totalmente dependente de cuidados. Ele não consegue se deslocar e se alimentar por conta própria, o que torna sua situação uma demanda específica a ser atendida, e o aposentado precisa continuar o tratamento contra hanseníase, apesar de a fase contagiosa da doença ter passado.

A Sedest destacou, no entanto, que o idoso não receberá alta do Hospital do Guará até ser encontrado um lugar para ele ficar.

Há uma lista de espera

Anice e Francisca alegam já terem tentado internar Leocádio em abrigos de longa permanência, mas teriam ouvido respostas negativas. Francisca, inclusive, diz que foi informada sobre outros seis idosos na “lista de espera” e em situação parecida com a do alfaiate. “Chegaram a me acusar de querer privilégio para o seu José, sendo que tinha mais gente aguardando. Eu só quero que a lei seja cumprida para todos! ”, reclama a assessora.
CONVÊNIOS
A Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest) informou que atualmente há 14 instituições acolhedoras de idosos no DF, mas só uma é governamental. Trata-se da  Unidade de Acolhimento para Idosos (Unai), em Taguatinga, com cerca de 20 vagas para homens. A pasta, porém, mantém convênio com outros quatro estabelecimentos, que teriam mais de 200 vagas.
 

 

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