Isa Stacciarini
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A criminalidade vem dando fim a vidas de forma trágica e muitas vezes banal. Levantamento da Secretaria de Segurança Pública (SSP) estima que apenas do dia 1º deste ano até a última sexta-feira, 27 pessoas morreram no Distrito Federal vítimas de criminosos. No entanto, a imprensa local calcula 32 mortes até a noite de sábado. Os números superam a margem de um homicídio por dia. Diante de uma realidade cada vez mais violenta, uma pergunta vem à tona: quanto vale uma vida?
Em muitos dos crimes, os motivos se referem a situações de banalidade, como desentendimentos, reclamações e roubos por pouco dinheiro. Em apenas uma semana, dois casos no Distrito Federal e na Região Metropolitana do DF chocaram os brasilienses. O comerciante Josafá Pereira da Silva, 46 anos, morreu por ter cobrado R$ 2,99 de clientes que deixaram comida no prato, em seu restaurante. Já a empresária Cleonice Marinho de Araújo, 44 anos, perdeu a vida em razão de quatro pneus.
O professor e pesquisador de segurança pública da Universidade Católica de Brasília (UCB) Nelson Gonçalves aponta que a razão para o aumento dos crimes banais se refere às leis que não levam os indivíduos a terem certeza de que serão punidos. “A partir do momento em que se tem a convicção de que nada acontecerá, devido a um conjunto de leis que proporcionam uma série de medidas permissivas, na cabeça dos meliantes, tudo começa a ser possível”, aponta.
Impunidade
Segundo Gonçalves, nessa perspectiva, matar o outro passa a ser algo trivial. Ele conta que o responsável por um homicídio, que tenha cometido o crime pela primeira vez, tem chance de responder em liberdade. “O primeiro homicídio de um indivíduo vira cortesia do Estado, porque os artifícios legais que o autor tem para se safar são maiores do que a lei para mantê-lo preso”.
Para o professor, uma das formas de diminuir este quadro seriam leis mais restritivas, que eliminassem subterfúgios que os autores dos crimes pudessem protelar a prisão.
“O acusado teria que ter certeza do cumprimento da pena em sua totalidade. A sociedade está refém das suas próprias maneiras de enxergar o mundo”, destaca Nelson Gonçalves.
Retrato da sociedade
O secretário-adjunto da Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF), coronel Jooziel Freire, avalia que os crimes banais representam um retrato de uma sociedade que se apresenta cada vez mais violenta. Segundo ele, cultivar o pensamento de que a sociedade é um produto de pertencimento próprio contribui na propagação da violência.
“Existem variadas formas de violência e a sociedade atual mata tão somente por matar. É uma banalização da vida e das coisas que estão tendo mais valor do que as pessoas”, ressalta.
O coronel aponta que os indivíduos que cometem crimes estão, muitos casos, afetados pelo vício do consumo de drogas. Segundo o secretário-adjunto, a pasta está com um projeto para trabalhar em parceria com a Secretaria de Educação (SEDF), promovendo palestras nas escolas da rede pública do Distrito Federal.
“A intenção é fazer um trabalho para uma grande quantidade de público, como pais, alunos e professores. O objetivo é conscientizar que a vida é mais importante do que qualquer coisa”, destaca. O projeto deve ter início neste ano.